Lembranças de 1989

Pouco antes do Mundial sub-20 começar, este colunista analisou, no Olheiros, a seleção portuguesa que disputaria a competição. E nem de longe a colocava como candidata a chegar a decisão. A expectativa, até pelo grupo que teria pela frente, era de que a seleção das Quinas chegasse ao menos ao mata-mata, e que dai em diante torceria por uma boa combinação de adversários. O desempenho irregular no Europeu sub-19 do ano passado — que rendeu vaga no Mundial mais pela campanha pífia da Itália do que pela eficiência tuga na última fase de grupos — e a série infindável de empates durante o estágio preparatório colocavam ainda mais dúvidas sobre as possibilidades dos comandados de Ilídio Vale.
Eis que para surpresa de muitos — e dos próprios portugueses, que chegaram a não transmitir, no país, jogos da primeira fase do certame — Portugal chegou à final da competição. Vai encarar o Brasil, repetindo a decisão de 1991 (vencida pelos tugas, em Lisboa), mas com um desempenho e uma equipe que lembram muito mais a geração que, dois anos antes, sagrara-se campeã do mesmo torneio, disputado na Arábia Saudita. Um time caracterizado por poucos gols, uma defesa sólida, grande aplicação tática e entrega de um time longe de poder ser cotado como um dos melhores da competição sob o ponto de vista técnico. A descrição do cenário de 1989, como se vê, é bem parecida com a que pode ser feita do time de 22 anos depois.
Na campanha “das Arábias”, Portugal não empolgou em nenhum momento da primeira fase. Chegou a encerrar os primeiros três jogos, inclusive, com saldo negativo de gols (-1). Mas devido às vitórias apertadas sobre Tchecoslováquia (1 a 0, gol de Paulo Alves — hoje técnico do Gil Vicente) e Nigéria (1 a 0, gol do ídolo tuga João Vieira Pinto), a derrota da equipe, então já classificada, para a lanterna Arábia Saudita por 3 a 0 acabou nem tendo tanta importância. Até porque mesmo com o tropeço e o saldo -1, Portugal avançou na liderança do grupo com 4 pontos (à época, a vitória contava dois pontos). Desempenho tão sem brilho quanto o da primeira fase deste ano.
Mas foi no mata-mata daquele Mundial Sub-20 que a seleção das Quinas cresceu e mostrou de fato a que veio: para atuar com o máximo de cautela possível, atacar somente quando necessário e apostar na eficiência da defesa, setor mais confiável da equipe. Valido foi o último homem, com Abel Xavier atuando à direita e Morgado à esquerda. E pouco mais a frente, ora Fernando Couto, ora Paulo Madeira, intercalavam as funções de volantes com a bola, e zagueiros sem ela. E os cuidados tomados pelo técnico Carlos Queiroz — sim, ele mesmo — se mostraram eficientes, especialmente em uma fase “perdeu, cai fora” como a que Portugal teria pela frente.
Mesmo diante de uma Colômbia que não era lá essas coisas e que também primava pela defesa, os tugas evitaram inventar. Foram a frente, conseguiram o primeiro gol com Jorge Couto (então nome mais badalado da equipe) e logo se fecharam. Resultado: vitória por 1 a 0 e classificação às semifinais, contra o Brasil de Carlos Germando, Bismarck, França e Sonny Anderson. Mais uma vez, Queiroz colocou seu time lá atrás e investiu em uma marcação que não só impediu a seleção canarinho (grande favorita do torneio, diga-se) de jogar como provocou o erro do zagueiro Edson, que deixou a bola limpa para Amaral marcar o gol que levou os tugas para a inédita final.
Diante da Nigéria, mais uma vez, Portugal mandou a campo o que treinou incessantemente com Queiroz e aplicou durante o Mundial: valorizou a marcação e a defesa, mas principalmente a posse de bola. Os nigerianos, rivais conhecidos da fase de grupos, parecem não ter aprendido a lição do primeiro confronto e cairam na armadilha. A seleção das Quinas conseguiu administrar o jogo como quis e, pouco antes do apito do intervalo, Abel Xavier marcou e desmontou o planejamento dos africanos, que já pensavam no segundo tempo. Abatidos, os nigerianos voltaram a ser bloqueados pela marcação tuga e, perto do fim, Jorge Couto sacramentou o feito português. Era o primeiro título de uma seleção do país em uma competição internacional da Fifa.
Quem acompanhou o Mundial sub-20 deste ano percebeu que a campanha foi bem semelhante a de 1989. Na fase de grupos, Portugal não empolgou, mas encerrou sua chave na liderança, com desempenho até melhor que o de 22 anos atrás: duas vitórias e um empate sem gols com o Uruguai. No triunfo sobre Camarões, os tugas anularam os rivais e na etapa inicial conseguiram utilizar bem a velocidade de Rafael Diniz e Caetano para que estes municiassem Nelson Oliveira. Todavia, viu-se um segundo tempo apático e excessivamente defensivo, posteriormente ajustado por Vale. Contra a Nova Zelândia, até pela classificação antecipada e a fragilidade rival, a partida correu em banho-maria.
O duelo com os neozelandezes foi sucedido por um 1 a 0 também fraco diante da mais fraca ainda Guatemala — que sofrera 5 a 0 da Nigéria e 6 a 0 da Arábia Saudita, mas que avançou às oitavas por vencer a Croácia por 1 a 0 (saldo -10, portanto). O novo placar mínimo reforçou a ideia sobre a consistência defensiva do time — bem semelhante à de 1989 — mas confirmou que a carência na criação de lances de perigo era maior que a de 22 anos atrás. Até por isso — como esta coluna já previra semana passada — Portugal teria que apresentar muito mais do que fez até então. Precisaria confirmar a segurança atrás, mas mostrar que também sabia atacar.
E à frente, Portugal foi, sim, mais incisivo que nas demais partidas — muito porque a Argentina dava espaços maiores que os rivais anteriores, e nem tanto por alguma genialidade na armação. Mas foi do meio para trás que a equipe novamente brilhou, mostrando que a eficiência apresentada diante de Uruguai, Camarões, Nova Zelândia e Guatemala também era capaz de segurar os badalados Juan Iturbe e Erik Lamela. Nuno Reis e Roderick (formados, curiosamente, pelos rivais Sporting e Benfica, respectivamente) deram conta do recado, e a proteção de Danilo, Pelé e de Sérgio Oliveira também foi de grande utilidade. Mas o nome que saltou aos olhos na partida foi outro: Mika.
O goleiro foi revelado pelo União de Leiria e precisou de só dois jogos na última temporada para mostrar que era o goleiro mais promissor do país. Não a toa, foi contratado pelo Benfica já para esta época. E o arqueiro não só fechou o gol durante todo o Mundial como foi decisivo ante a Albiceleste, tanto na partida como (e principalmente) na disputa de pênaltis. Tudo parecia perdido quando a Argentina abriu 3 a 1, mas as defesas de Mika e a concentração dos batedores portugueses posteriores deram à seleção das Quinas o passaporte às semifinais, contra uma França irreconhecível, se comparada ao time campeão europeu sub-19 em 2010.
O jogo diante dos franceses, nesta quarta, foi igualmente explicativo. Portugal deu apenas dois arremates a gol no primeiro tempo, e marcou o segundo gol antes mesmo do segundo chute (cobrança de pênalti de Nelson Oliveira). Os portugueses administraram o jogo o quanto puderam. A França, inexplicavelmente sem Alexandre Lacazette entre os titulares, limitava-se a arrematar de longe e a trocar bolas de lado, bloqueados pelos quatro homens de defesa e pelos quatro meias de “pegada” (Danilo, Pelé, Sérgio e Júlio Alves; no setor, apenas Alex estava mais próximo de Nelson). Na etapa final, sem segredo: os tugas apertaram a marcação, Mika garantiu as pontas na baliza, e Portugal sacramentou a vaga na final.
Mas talvez a maior das semelhanças seja mesmo o fato de ambos os times serem formados, essencialmente, por meninos bons, mas principalmente esforçados. Dos campeões de 22 anos atrás, os que mais progrediram — ainda que não possam ser apontados como craques — foram Fernando Couto, Abel Xavier e João Vieira Pinto — este, aliás, que também alinharia na equipe bicampeã em 1991, com Figo e Rui Costa. Os demais intercalaram algumas boas aparições com outras irregulares, por vezes em equipes de menor escalão. No atual grupo, Mika é o grande destaque individual e o principal candidato a ir além. Os outros seguem a linha do “bom, pode ter uma carreira vitoriosa e feliz, mas não é nenhum Cristiano Ronaldo”.
Entre os times de 1989 e 2011, a maior diferença está mesmo no plano tático da linha defensiva. Se a equipe de Queiroz jogava em um 3-4-3 que podia se modificar de acordo com o momento, a atual tem quatro homens atrás (e laterais que não avançam tanto assim) e meias essencialmente de combate, a ponto de, como dito acima, Vale ter alterado seu meio-campo diante da França para deixá-lo ainda mais marcador, abrindo mão dos extremos Caetano e Rafael Diniz. Extremos, aliás, que foram “lançados” justamente na equipe vencedora em 1989, com Jorge Couto e Amaral. Ambos atuaram bem abertos à frente, tendo João Vieira Pinto de centroavante.
Há quem possa questionar a valorização de uma equipe que chega à final de um Mundial de base tendo como foco o jogo em grupo. No entanto, por vezes é justamente o fator “grupo” que carece muito em times com talentos individuais variados, especialmente quando se projeta um trabalho de que esses meninos ganhem gradativo espaço em suas seleções e quando esse empenho tático segue uma diretriz da equipe de cima. E como de certa forma, o Portugal de Ilídio Vale — com alguma adaptação mais defensiva (até pelo elenco) — traz o 4-3-3 aplicado na seleção principal, o fortalecimento do aspecto equipe ganha crédito.
Se isso será suficiente para levar os tugas a um terceiro título mundial sub-20, saber-se-á mais adiante. O que se tem certeza é que Portugal montou uma equipe interessante (ainda que tecnicamente limitada) e que se não deu confiança no princípio, soube crescer na hora mais importante como time. Mas o principal: os portugueses reconhecem suas limitações mas aprenderam a jogar “como nunca” dentro do que são capazes. A principal conquista, no entanto, não estará em um caneco, mas em um maior respeito aos garotos tugas nos clubes do país. O que é uma outra história.



