Legião estrangeira

O mercado de transferências do último mês de janeiro em Portugal não se notabilizou por grandes contratações, nem tampouco por saídas portentosas de jogadores importantes. Mas, com o fim do período de negociações na Europa, a Liga Portuguesa reafirmou um fenômeno que, além de não ser inédito, mostra-se cada vez mais irreversível em curto prazo: o fato de que mais da metade dos atletas profissionais que atuam na Primeira Divisão são estrangeiros (56,5%).
Matéria publicada na semana passada pelo site Mais Futebol mostra que os clubes portugueses acabaram contratando 54 jogadores e vendendo 60. Os 16 clubes que disputam o Campeonato Português têm 438 atletas inscritos, e 39 nacionalidades diferentes estão representadas. Os portugueses ainda são o maior contingente (190), seguidos de perto pelos brasileiros (152, que representam assim mais de um terço do total). Em terceiro lugar, aparecem os argentinos (13). Se levarmos em conta os contingentes continentais, os sul-americanos somam 176 (incluídos aí os “brazucas”). E os africanos, com 34 nomes, já ultrapassaram o número dos demais europeus (33).
O Vitória de Guimarães e o Marítimo (este aqui, treinado pelo brasileiro Sebastião Lazaroni) são as equipes menos portuguesas da Liga: apenas nove de seus jogadores têm nacionalidade lusa. O Marítimo, aliás, é a equipe mais brasileira (17 nomes) do campeonato. Por outro lado, o elenco mais lusitano é o do Leixões (20). O time mais “globalizado” é o do Boavista, com atletas de 13 nacionalidades diferentes (algo que não tem ajudado muito até agora, já que a equipe ocupa apenas a 10ª colocação).
Certo é que, fechadas as contas, são poucas as novidades em Portugal. O Benfica destacou-se por tirar o atacante Makukula do Marítimo e ainda desfez-se de nove jogadores (maior número da Liga, o que mostra bem a quantidade de equívocos da diretoria na gestão do plantel). O Sporting trouxe Rodrigo Tiuí do Fluminense, e Grimi, do Milan, e desfez-se de apenas um atleta (Carlos Paredes). Apesar da má campanha na temporada, os cofres leoninos não permitiam mais nada. O Porto, por sua vez, não trouxe nenhum nome de peso (chegaram apenas Rabiola e Hélder Barbosa) e ainda preferiu desfazer-se, mais uma vez, de Hélder Postiga (emprestado ao Panathinaikos), além de outros três nomes.
Invasão de estrangeiros contrasta com êxodo nacional
Essa verdadeira Legião Estrangeira que atua em Portugal caminha a par e passo com outro fenômeno preocupante: dos 11 nomes que o técnico Luiz Felipe Scolari deverá escalar como titulares para o amistoso da próxima quarta-feira (6 de fevereiro) entre Portugal e Itália, é bem provável que só dois atuem em Portugal (deverá ser o caso dos portistas Bosingwa e Bruno Alves). Assim, não surpreende que a Liga Portuguesa sobreviva apenas pela força dos três grandes (Porto, Benfica e Sporting), a despeito do aparecimento fugaz de equipes que despontam numa temporada, para amargar más campanhas anos depois.
Felipão sabe que seu maior problema à frente do escrete luso está na renovação forçada de elenco, algo que vem sendo processado desde o fim da Copa de 2006. A última convocação feita pelo treinador, por exemplo, surpreendeu pela presença do jovem goleiro Rui Patrício (20 anos), que assumiu a titularidade no Sporting em detrimento do sérvio Stojkovic, mais experiente. Outra aposta de Scolari é a presença do atacante Makukula, recém-transferido para o Benfica. As ausências sentidas são as do lateral-direito Miguel (Valencia) e do volante Miguel Veloso (Sporting), não por acaso citados pela imprensa lusa como alguns dos alvos da bronca que o treinador proferiu há duas semanas (veja coluna “Os recados
de Scolari”, de 28/janeiro/2008).
Porto parece não ter mais adversários no país
Há duas rodadas, o Porto perdeu por 2 a 0 o clássico com o Sporting disputado em Lisboa. O que poderia mostrar um reequilíbrio da disputa pelo título nacional não durou muito. Na rodada seguinte, o mesmo Sporting foi ao bairro lisboeta do Restelo para enfrentar o Belenenses e perdeu por 1 a 0 (lá, o Benfica já havia sucumbido pelo mesmo placar neste campeonato). Assim, os Leões estacionaram nos 30 pontos e perderam até a terceira colocação da Liga para o Vitória de Guimarães (31).
Após a derrota para o Sporting, o líder Porto (agora com 44 pontos) venceu em casa o lanterninha União de Leiria por categóricos 4 a 0. Os Dragões aumentaram ainda mais a vantagem para o vice-colocado, o Benfica (34), que voltou a decepcionar em casa e não saiu do zero com o Nacional. A equipe encarnada já começa a sofrer da “síndrome da Luz”, uma vez que tem jogado melhor fora do que em Lisboa. Pior do que isso, só as declarações do técnico José Antonio Camacho ao final da partida: “Os títulos são coisas para o final da época”. Nessa toada, nem o Benfica ficará com o título, como até ele poderá ficar sem o cargo antes mesmo do fim da temporada.
Golo de Letra
Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.
(Poema “Beijo”, de Jorge de Sena)



