Leão abatido, Dragão furioso

Quando o Porto confirmou a contratação de João Moutinho por cerca de 11 milhões de euros, mais a cessão do zagueiro Nuno André Coelho ao Sporting, criou-se dois sentimentos. De um lado, a surpresa por valores tão elevados – os maiores, em se tratando de contratações internas em Portugal – e ao mesmo tempo, tão abaixo do que os Leões sempre previram para sua prata-da-casa, tendo para isso rejeitado ofertas do exterior sempre que estas apareciam. De outro, a dúvida sobre a eficácia de um jogador que há pelo menos duas temporadas não mostrava o futebol de outrora, e era dado – inclusive por esse colunista – como estagnado. Dúvida realçada pela decisão, de última hora, do então técnico da seleção portuguesa, Carlos Queiroz, deixá-lo de fora da Copa do Mundo, optando em levar um time sem um reserva direto para o armador Deco a contar com um à época visivelmente desmotivado Moutinho.
Eis que a nova época começou, e com ela, um novo João Moutinho parece ter surgido das cinzas. Ligado, consciente e preocupado em chamar o jogo até mais do que quando ostentava a braçadeira de capitão no Sporting, o meio-campista encaixou como uma luva no esquema armado por André Villas-Boas. Por ter uma característica mais de meia de criação, deu a liberdade que Belluschi não teve durante boa parte da temporada passada para apoiar o ataque, o que permitiu ao argentino surgir, em várias oportunidades, como quarto elemento de ataque. Situação diferente, por exemplo, da que viveu quando Raul Meireles fazia as vezes de meia, obrigando Belluschi a ter que jogar com a bola dominada, no papel que, antes, era de Lucho González. Nesse setor, o atual companheiro de Moutinho acabava tendo que também fazer às vezes de armador, além de jogar mais afastado do gol. O que o comprometia.
Com Belluschi bem e o ataque fazendo sua parte, João Moutinho visivelmente estava mais leve em campo. Tranquilo, organizava o jogo portista como queria, resgatando o futebol que mostrou em seus primeiros anos no Sporting, que o levaram ainda bem jovem à seleção portuguesa e a assumir a braçadeira de capitão nos Leões. A diferença é que, agora, o meia não é mais o único ou maior visado pela marcação rival ou pela torcida. Divide a responsabilidade com outros jogadores que também estavam por cima, como Falcão, Hulk, Varela e o próprio Belluschi. É hoje, com 40 jogos, o portista com mais jogos na época. Diferentemente dos últimos anos de Sporting, quando era de quem mais se esperava algo diferente, ao lado do bom, mas irregular Miguel Veloso, e de Liedson, que há pelo menos duas temporadas visivelmente não era o mesmo Levezinho de seus primeiros anos no clube.
Pressionado no Sporting, viu seu futebol decair, ficando limitado a toques laterais, sem criatividade ou liderança. Paralelamente a isso, via Deco, mesmo notadamente contra a preferência de Carlos Queiroz, ser o titular no meio-campo da seleção. A “gota d'água” foi a não-convocação para o Mundial. Daí em diante, os indícios de que o jogador pudesse deixar Alvalade eram quase insustentáveis, com a diferença de que as expectativas eram de que rumasse a um Everton da vida. Saiu brigado com a diretoria sportinguista e com uma parcela da torcida que não admitiu a troca por um dos maiores rivais. Mas a saída era consciente. Deixava um clube grande, mas que vivia – e vive – uma crise de identidade, para defender outro mais bem organizado e estruturado, e com um ímpeto vitorioso mais destacado. E como bem se sabe, a mudança só lhe trouxe benefícios.
Um deles são os títulos. Já conquistou a Supertaça, vê o Porto se aproximar cada vez mais de um título que agora parece mais do que virtualmente assegurado, e ainda está na briga por pelo menos mais dois troféus. O outro é foi o retorno em grande estilo à seleção. Com a aposentadoria de Deco, João Moutinho não só voltou à equipe das Quinas com Paulo Bento, como assumiu a titularidade. Beneficiado por um esquema de jogo bastante semelhante ao jogado pelo Porto – um volante que apóia as subidas (Raul Meireles), um meia-armador (ele mesmo) e outro que joga mais próximo ao ataque (Carlos Martins), o meio-campista já se tornou uma das peças mais fundamentais da seleção. Um salto da água para o vinho em menos de 12 meses. Moutinho ainda tem, sim, lenha para queimar.



