Portugal

Império Ibérico

O leitor já há de saber que os presidentes das Federações Portuguesa e Espanhola de Futebol – respectivamente, Gilberto Madaíl e Angel Maria Villar – assinaram nesta semana em Lisboa um documento que deu início à elaboração da candidatura conjunta de Portugal e Espanha para sediar a Copa do Mundo de 2018. O tal “protocolo ibérico”, firmado entre os dois cartolas, prevê uma série de ações e estudos para fortalecer a proposta dos países peninsulares.

As federações interessadas têm até o dia 2 de fevereiro para manifestar à Fifa o interesse de concorrer ao Mundial, cujo anúncio dos vencedores será feito em dezembro de 2010. Até lá, acompanharemos a polêmica em torno de Portugal lançar-se a uma nova aventura extremamente onerosa, como já havia acontecido com a organização da Eurocopa em 2004. O “legado esportivo” português com o Euro-2004 foi muito positivo, uma vez que o país passou a contar com estádios modernos e atualizados. Só que, dos dez estádios utilizados, quatro simplesmente não têm público (Coimbra, Aveiro, Leiria e Faro-Loulé). E há os que insistem em dizer que os investimentos poderiam ter sido aplicados em obras de cunho social.

Enquête realizada pelo jornal esportivo A Bola mostrava que 78% dos respondentes aprovavam a iniciativa, contra 22% que a desaprovavam. Diante do formato atual do torneio (32 equipes) e das exigências cada vez maiores da Fifa para se organizar o evento, as candidaturas conjuntas entre países vizinhos pode ser interessante no sentido de viabilizar questões técnico-desportivas (estádios) e de infraestrutura (transportes, hotelaria, comunicações etc.). Mas, ao mesmo tempo, tal solução escamoteia inúmeras dificuldades logísticas para se gerir o evento.

Divisão de responsabilidades

Do ponto de vista espanhol, a candidatura conjunta permite dividir custos e responsabilidades. Apesar de figurar entre as 10 maiores economias do planeta, a Espanha teria dificuldades para sediar um novo Mundial, com obrigações muito diferentes daquelas que a Fifa exigiu para a organização da Copa de 1982. Do lado português, a candidatura conjunta representa a única possibilidade de que se realize uma partida de Copa do Mundo em solo lusitano, já que o país não teria fôlego para sediar o evento sozinho.

No entanto, matéria publicada no jornal Record na semana passada alerta para o fato de que Portugal não poderia hoje sediar a partida inicial ou a final da Copa. Bem, todos sabem que a decisão será realizada em Madrid, “por supuesto”. Caberia ao coorganizador sediar o jogo inicial, portanto. Documento distribuído pela Fifa, entretanto, afirma que somente estádios com capacidade igual ou superior a 80 mil lugares podem abrigar os jogos da abertura e a final da competição; para as demais partidas, a exigência mínima é de 40 mil lugares.

Atualmente, os três maiores estádios de Portugal estão longe dos 80 mil lugares: Luz (65 mil), Alvalade (52 mil) e Dragão (55 mil). São os únicos, também, que poderiam ser utilizados nos demais jogos. A construção de um novo estádio com 80 mil lugares está fora de propósito (o país não comporta novo recinto futebolístico desse porte), e os estádios já existentes dificilmente conseguirão ser ampliados. Caberá, aqui, uma flexibilização da Fifa, no sentido de repetir algo já adotado na Copa de 2006 (os estádios alemães não tinham, oficialmente, 80 mil lugares).

A importância do prêmio de Cristiano Ronaldo

De todo modo, parece-me positivo que os portugueses aliem-se aos espanhóis para sediar um evento do porte da Copa do Mundo. A despeito dos problemas com desvio de verbas e dos discursos que criticam tamanho aporte de valores para uma competição esportiva, penso que o país tem como auferir lucros, a curto e médio prazo, organizando o Mundial. Ademais, essa internacionalização de Portugal deverá ser benéfica ao futebol português, assim como ocorreu com a nomeação, pela Fifa, de Cristiano Ronaldo como o melhor futebolista de 2008.

Em 18 edições do prêmio, Portugal detém duas conquistas (a outra foi com Luís Figo, em 2001). Países que já se sagraram campeões do mundo, como Inglaterra e Argentina, nunca tiveram jogadores laureados pela Fifa, o mesmo acontecendo com a Espanha – atual líder do ranking de seleções da entidade. Certo é que Cristiano Ronaldo conquistou o prêmio pelo que fez em 2008 no Manchester United, e não pelo que fez na seleção portuguesa. Mas não se pode negar que o futebol luso também acaba capitalizando aquilo que acontece a suas principais estrelas, mesmo que elas atuem no exterior.

Golo de Letra

Mas nós sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.

(Trecho de poema de Fiama Hasse Pais Brandão).

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo