Portugal

Guerreiros do norte

Provavelmente os maiores admiradores do futebol, ávidos por clássicos, aguardavam uma final histórica entre Porto e Benfica na Liga Europa. Os Dragões chegaram lá, é verdade, como já se desenhava após o 5 a 1 aplicado no jogo de ida contra o Villarreal. Mas as Águias ficaram pelo caminho — de alguma forma, como também se desenhava —, e a segunda vaga portuguesa para Dublin ficou com o cada vez mais inacreditável Braga. O curioso é que as classificações portista e bracarense levaram não somente Portugal, mas o norte português ficarem em evidência. Afinal, Porto e Braga são quase vizinhos em uma região (mais Porto do que Minho) que sempre bateu de frente com o sul — leia-se Lisboa.

Para entender um pouco, é necessária uma breve retomada histórica. Embora a capital portuguesa seja Lisboa, o país como ele é conhecido foi surgindo do norte para o sul. O nome (Portugal), por exemplo, é originário do Condado Portucalense, formado durante a reconquista cristã do território que fora invadido pelos árabes. Território este — situado justamente entre os rios Minho e Douro (cuja foz fica no Porto) — que foi entregue por Afonso VI de Leão e Castela a D. Henrique de Borgonha. O Reino de Portugal começaria ser formado lá. Lisboa, por sua vez, surgiria alguns poucos anos depois. No entanto, logo se tornaria uma potência econômica.

Foi Lisboa, por exemplo, que se estabeleceu como importante ponto comércio com o Mediterrâneo no final da idade média. A atual capital lusa foi também a que recebeu a primeira universidade do país. Era, ainda, dotada de importantes construções religiosas – e, vale sempre lembrar, o peso da religião nos anos de 1200 e 1300 era determinante. Com o fim da Guerra da Crise (1383-85), na qual o reino português foi invadido por João I de Castela, Coimbra, que até então era a capital do reino, é substituída por Lisboa. A cidade cresceu ainda mais, principalmente com a crescente centralização do poder real, que, “reclamam” os demais, impedia o desenvolvimento das demais localidades portuguesas.

Com o passar dos anos, as diferenças que surgiram entre um sul desenvolvido e um norte (em especial, no Porto) desgostoso com a situação — e que via muitos de seus moradores deixarem suas casas em busca de melhores oportunidades e maiores salários na capital — se acentuaram. E ganharam ares ainda maiores durante o fascismo de Antônio Salazar. “Mas o que isso tem a ver com futebol?”, pode-se indagar. Não nos esqueçamos, primeiramente, do que já se conhece das rivalidades entre Barcelona e Real Madrid, ou Rangers e Celtic. Todas baseadas em uma premissa que transcende os gramados. O que não difere, em suas devidas proporções, do que ocorre em Portugal, usualmente circundado entre Porto e Benfica, mas que se estende do norte ao sul.

E tal qual Benito Mussolini na Itália (e por que não, Emilio Medici no Brasil), Salazar soube utilizar os triunfos do esporte nacional (e dos times de massa) para simbolizar um Portugal vencedor. Foi justamente um período de grande domínio do Benfica no futebol do país, com 21 títulos nacionais (dos 32 conquistados pelos encarnados). Não se fala aqui em favorecimento encarnado, mas que o áureo Benfica da época acabou sendo, como a seleção de 70 por aqui, um interessante instrumento.

No entanto, se ainda hoje há um cenário em que os salários lisboetas superam em 50% os do restante de Portugal, e o capital social das empresas constituídas em Lisboa supera 1 bilhão de euros — no Porto os números não atingiam 224 milhões de euros em 2008 —, é justamente no futebol que a disparidade entre as duas cidades se dissolve. Como diz Roberto DaMatta, o gramado verde é onde tais diferenças podem ser resolvidas em um cenário (às vezes) sem violência e em pés de igualdade. E aí, as conquistas do Porto, com triunfos nacionais (19 contra 11 das Águias na era pós-Salazar) ou nos clássicos ante o Benfica, eram vistos como vitórias do norte ante o sul, de uma “resistência” contra uma capital vista por eles como “opressora”.

Tal preâmbulo é importante para que se tenha uma breve ideia da dimensão da final entre Porto e Braga. Se esta fosse em gramados portugueses, fatalmente já seria exaltada pelos nortistas. Mas ela foi além. Será uma final europeia, garantirá o sétimo título continental português. Isso porque, na Taça de Portugal, a decisão também envolverá times do norte, já que, ao lado dos Dragões, está o também minhoto Vitória de Guimarães, rival do Braga. Se Portugal vive um momento no qual o futebol é a grande razão de orgulho, em meio a um país em delicada crise financeira e onde há pouca confiabilidade em uma recuperação plena, o norte luso, decididamente, tem na bola redonda, motivos para se emocionar.

Entendendo a festa

Vamos aos jogos. O Porto, é verdade, caiu no jogo de volta para o Villarreal. Uma derrota, porém, dentro dos conformes, e vendida muito caro por uma equipe que não precisava ter se esforçado tanto, após os 5 a 1 do primeiro jogo. A partida, à bem da verdade, serviu mais para que Radamel Falcão Garcia confirmasse a excelente fase, chegasse aos 16 gols e se firmasse como maior goleador da história da competição (constando aí a Copa da UEFA), superando simplesmente Jurgen Klinsmann. Mais: em duas temporadas, chegou aos mesmos 19 gols de Jardel, ídolo portista dos anos 90, em torneios europeus. Isso porque ainda terá mais uma partida na atual época para rumar ao 20º continental.

O grande vitorioso de quinta, porém, chama-se Sporting Clube de Braga. Time que esta coluna destaca desde a temporada passada como candidato a mais surpresas do que podia pensar. Time que, de alguma forma, “abriu mão” do Campeonato Português — não que fosse brigar novamente pelo título, mas até para acreditar em vaga na Liga dos Campeões — para se aventurar em um sonho europeu. Que não conseguiu engrenar na liga nacional por, de fato, ainda não ter um elenco capaz de se dividir com qualidade nos dois torneios. Mas que amadureceu de forma sensacional na hora certa, reagindo em Portugal e emplacando uma sequência europeia espetacular, que culminou na vaga.

O Braga foi melhor que o Benfica na quinta e já havia emparelhado a partida contra o mais vitorioso time do país na Luz, na última semana. A derrota por 2 a 1 não abalou e nem tinha porquê. Afinal, um 1 a 0 no Municipal seria suficiente. Apesar da ausência do bom Vandinho, Custódio substituiu o volante com primazia. Não porque marcou o gol da classificação, mas por ter mostrado segurança defensiva, possibilitando a Márcio Mossoró e Hugo Viana jogar com mais tranquilidade. Alan, por sua vez, foi dinâmico. Marcou presença em todos os lados do campo e mostrou uma boa mistura de habilidade e raça. Além, claro, da resistência do goleiro Artur e do zagueiro capitão Alberto Rodríguez.

O triunfo não se limitou aos gramados. O Braga arrecadou, somente com prêmios europeus (ou seja, sem contar com bilheteria e televisão), 16 milhões de euros. Para se ter uma ideia, o Porto contabilizou somente 3,3 milhões de euros (disputou somente Liga Europa). O Benfica obteve 10,3 milhões de euros, mas 8,7 milhões deles na primeira fase da Liga dos Campeões. Além disso, diferentemente de outros clubes (Boavista, por exemplo), os bracarenses já preparam o futuro. Trouxeram o ex-auxiliar de Carlos Queiroz e experiente profissional em seleções de base, Agostinho Oliveira, para coordenar as categorias de formação da equipe, e planejam a construção de um CT para a base.

O Porto se desenha como o grande campeão do ano. Tem um dos melhores elencos da Europa e um meio-campo que poucos times no mundo superam. Já levou a Supercopa e o campeonato nacional, e é favorito à Taça de Portugal e à Liga Europa. Mas mesmo que o caneco vá para o vizinho, é difícil não considerar o Braga, tal qual os Dragões, um enorme vencedor, e uma prova de que um trabalho consciente e profissional, encabeçado em campo pelo excelente tático Domingos Paciência e fora dele pelo presidente Antônio Salvador, pode sim resultar em coisas boas. Um exemplo para os demais portugueses e, por que não, a muitos dos times brasileiros que conhecemos.
 

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