Goleada e mão na vaga

“Joga Bonito”, estampou o site do jornal A Bola, após a histórica goleada portuguesa sobre a Coreia do Norte, por 7 a 0. “Portugal enche a barriga após jejum”, destacou o Record. Duas manchetes diferentes sobre o mesmo assunto, sendo uma mais enfática e outra, embora demonstrando alguma emoção, soando mais equilibrada. E de fato, apesar de muito significativa, merecida, esmagadora e determinante para uma classificação que pinta como assegurada à equipe das Quinas, é necessário ao grupo de Carlos Queiroz manter a serenidade e não se deixar impressionar pela dimensão da vitória.
Esperava-se que Queiroz fosse suprir a ausência de última hora de Deco, supostamente lesionado (após o jogo contra Costa do Marfim, o luso-brasileiro reclamou de ser substituído), com Danny no meio e Simão aberto. Eis que vem Tiago, que entrara mal no jogo passado e não vinha bem no Atlético de Madrid e na própria seleção. Mas o técnico lançou mais duas surpresas para o jogo. Uma delas foi Miguel no lugar de Paulo Ferreira, na lateral direita. A outra, Hugo Almeida no de Liedson. Esta última, é verdade, surpreendeu em partes. Liedson estava em seca e com Almeida, a equipe ganharia uma referência na área, que poderia atuar como pivô e se sobressair, na força, à defesa.
Queiroz arriscou, é verdade, com as mudanças. Mas, quem diria, não é que o luso-moçambicano acertou a mão? Tiago fez uma partida memorável, como há muito Deco não fazia com a camisa portuguesa. Hugo Almeida encontrou dificuldades no primeiro tempo, curiosamente nas bolas aéreas, mas foi bem exercendo a função de pivô. Mesmo sem brilho, acabaria até premiado com um gol, após a exposição total da seleção coreana. Miguel, à bem da verdade, não mostrou grandes mudanças em relação a Paulo Ferreira. No entanto, apresentou-se bem para ajudar o ataque, e até em virtude da goleada, deverá ser mantido para o jogo contra o Brasil.
O começo da partida não teve a facilidade absurda do segundo tempo. Os asiáticos, como no duelo da primeira rodada, marcavam forte e assustavam em algumas investidas, ainda que sem tanto domínio de bola. O gramado escorregadio também prejudicou os primeiros momentos do confronto, dificultando dribles e provocando muitos chuveirinhos por parte de Portugal, que não chegavam a Hugo Almeida. Quando os tugas colocaram a bola no chão, passaram a dominar a partida. Raul Meireles foi o nome do primeiro tempo, arriscando chutes perigosos e surgindo como elemento surpresa em outras oportunidades. Numa delas, em lindo passe de Tiago, o portista abriu o placar.
Se o primeiro tempo encerrou truncado, mas com grande superioridade portuguesa, o segundo começou da forma que Queiroz mais queria: com um gol rápido de Simão, novamente em uma bola espetada na área (dessa vez por Meireles), que desnorteou os rivais de vez. E aí, começou a festa lusitana no Green Point. Os coreanos se abriram, de maneira até juvenil, deixando muitos espaços nas alas, principalmente a esquerda – justamente a mais forte de Portugal. Fábio Coentrão (novamente muito bem) e até Cristiano Ronaldo, que vinha apagado, deitaram e rolaram. Por lá, vieram o cruzamento de Coentrão para o gol de Hugo Almeida e as jogadas dos dois gols de Tiago.
Tiago, aliás, fez um senhor segundo tempo. Armou, chutou, mostrou presença de área. Uma atuação que dificilmente fará Queiroz deixá-lo de fora da equipe titular para o desenrolar da Copa. E com justiça. Não somente pela partida contra a Coréia do Norte em si, mas também pela vibração que o meia mostrou no jogo, mesmo quando o placar já estava bem elástico para Portugal. Merecidamente, recebeu de Ronaldo o prêmio de melhor em campo, para o qual o jogador do Real Madrid foi o escolhido do público no site da FIFA. Teve, ainda, um entrosamento muito bom com Raul Meireles, outro de grande exibição e dinamismo.
O criticado Carlos Queiroz também merece elogios. Não teve medo de mexer além do óbvio e quando o marcador foi se dilatando, preocupou-se em alterar a equipe para mantê-la agressiva, já que após o quarto gol, os titulares visivelmente diminuíram o ritmo. Sabia da importância de se fazer um bom saldo de gols, e conseguiu ir muito além do previsto. Liedson e Duda substituíram Hugo Almeida e Simão e deram conta do recado. Liedson fez o seu e ainda deu um de presente para o de Ronaldo, o primeiro após muito tempo pela seleção. Já Duda, muito criticado quando usado na lateral esquerda, até se movimentou bem e mostrou que, se for para jogar, que seja adiantado, e não preso na defesa.
A vaga para a próxima fase ficou muito bem encaminhada. Mesmo se perder para o Brasil, Portugal conseguiu um saldo de gols astronômico, e só uma tragédia tira os tugas das oitavas de final. Outra vitória, essa especial para a torcida e, de certa forma, para o próprio futebol local, foi o fato de a goleada ter sido iniciada e desenvolvida quando a equipe contava somente com portugueses natos em campo. E tendo em vista a grande partida de Tiago, a dúvida será mesmo se Queiroz manterá o onze “puramente” luso contra o Brasil ou se voltará com Liedson no lugar de Hugo Almeida. Já Deco deve ser mantido no banco e, pode-se dizer, é o “perdedor” do dia.
Porém, já diriam os antigos, “cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém”. O próprio Queiroz sabe disso, e já insistiu, após a goleada, que a maior relevância do dia não era o placar, mas os três pontos. Há a noção de que o Brasil não é a Coreia do Norte, e que se enfrentará uma defesa muito mais sólida que as dos asiáticos e mesmo da Costa do Marfim. É a ideia que será trabalhada pelo treinador ao longo da semana. Para a partida de sexta, por exemplo, não se imagina que Tiago e Meireles atuarão tão avançados, ou que os laterais subirão com tal frequência. Ainda assim, Dunga que se cuide, pois não verá o mesmo time em que sua equipe aplicou 6 no ano passado. Terá pela frente um grupo enfim motivado e bem mais esperto do que pode lhe esperar.



