Futuro incerto II

O leitor certamente há de ter assistido aos deploráveis incidentes que envolveram o jogador sérvio Dragutinovic e o técnico da Seleção Portuguesa, Luiz Felipe Scolari, ao final da partida do último dia 12 de setembro no Estádio Alvalade Século XXI, em Lisboa. Provocações de lado a lado, uma entrada duríssima de Dragutinovic sobre o meia Petit (jogada merecedora de um cartão vermelho) e, por fim, um tapa na mão de Scolari e a posterior tentativa de agressão do brasileiro, que quase acertou um direto no queixo do sérvio. O descontrole de Felipão deixou atônitos os portugueses, que foram quase unânimes em reprovar o ato lamentável. Até o Presidente da República, Cavaco Silva, e o Ministro do Desporto, Laurentino Dias, vieram a público repreender a conduta do treinador e pediram que o caso fosse severamente investigado.
O presidente da Associação Nacional de Treinadores, José Pereira, foi mais categórico e contundente: solicitou que Scolari fosse sumariamente demitido – voz a que fizeram coro inúmeros outros portugueses. Felipão sempre sofreu rejeição por parte da torcida e da opinião pública lusas pelo fato de ser estrangeiro – algo que foi progressivamente minimizado pelas campanhas na Eurocopa-2004 e no Mundial-2006. Mas a passionalidade do futebol não poupa glórias passadas. A má campanha dos Tugas nas atuais eliminatórias da Eurocopa-2008 já haviam acendido o desconfiômetro em torno das capacidades do técnico brazuca. O episódio da (quase) agressão a Dragutinovic, algo impensável e inadmissível para os padrões europeus, foi a cartada que os opositores de Felipão desejavam para voltar a pôr em causa seu trabalho e para clamarem pela vinda do mídiatico José Mourinho.
A favor de Felipão, entretanto, surgiram os atletas convocados para os dois últimos jogos das eliminatórias da Eurocopa (contra Polônia e Sérvia), que publicaram uma nota oficial em apoio e solidariedade ao treinador. O técnico do Sporting, Paulo Bento, afirmou que não se podia esquecer as conquistas do futebol português a partir da “Era Scolari”, algo que também foi sugerido pelo presidente do Benfica, Luís Felipe Vieira. Do Porto, como já se podia imaginar, não chegaram palavras de apoio. Mas a fala mais importante e decisiva veio do Presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Gilberto Madaíl, que garantiu a permanência de Felipão no cargo.
Julgamento da Uefa deve ser decisivo para o futuro de Scolari
O mais irônico da situação é que o episódio protagonizado por Scolari teria sido motivado pela vontade do treinador de defender Ricardo Quaresma – justamente o jogador mais injustiçado pelo técnico nos últimos dois anos. O astro do Porto não foi convocado para a Copa da Alemanha (Felipão preferiu levar os medianos Hugo Almeida e Tiago, por exemplo) e tem sido deixado em segundo plano nas eliminatórias da Eurocopa. Na partida contra a Polônia no último 8 de setembro, por exemplo, a torcida lusa pedia insistentemente pela entrada de Quaresma, que só foi para o jogo no meio do segundo tempo. Assim que entrou, incendiou a partida e foi responsável pelo segundo gol e ainda pelos melhores momentos do time. Já contra a Sérvia, começou novamente no banco – para desespero e incredulidade até dos torcedores de Benfica e Sporting.
No julgamento a que Felipão será submetido pela Uefa no próximo dia 19 de setembro, pesam a seu favor os relatórios do árbitro e do delegado do jogo com a Sérvia, que enquadraram o ato do brasileiro como uma resposta às palavras e ao tapa de Dragutinovic. De todo modo, as cenas captadas pelas TVs no estádio são fortes e inconfundíveis. A Uefa não costuma deixar passar em branco tais atos de indisciplina. Daí que o futuro de Scolari à frente da seleção lusa esteja diretamente ligado à decisão a ser tomada pelo tribunal da entidade que gere o futebol no Velho Continente. Se o brasileiro pegar uma suspensão severa, é provável que a FPF não tenha como sustentá-lo na função.
Mas, o que poderia explicar o comportamento de Felipão?
O destempero e o descontrole de Felipão são injustificáveis – e a opinião pública européia é muito pouco tolerante a comportamentos desse tipo. O que estará na causa da reação impensada do treinador brasileiro? Será que a falta de azar de Portugal nos últimos dois jogos em casa (quando levou o gol de empate a escassos minutos do fim) e as apresentações pouco convincentes fizeram Scolari perder o juízo? O gol irregular da Sérvia (Ivanovic estava claramente impedido) tirou o brasileiro do sério? A ameaça de Portugal ficar de fora da Eurocopa-2008 (quando vence o contrato de Felipão) explicaria o incidente? Talvez tudo isso e mais um pouco. Até uma bem pensada estratégia para unir o elenco – ou até mesmo para precipitar o fim do contrato em Portugal.
Episódios como o ocorrido com a Sérvia costumam “fechar o elenco”, como se diz no jargão futebolístico. Assim, é possível que Portugal se fortaleça nos quatro jogos que faltam para garantir a vaga no torneio de 2008. Agora, não é segredo para ninguém que Felipão poderia ganhar muito mais se fosse contratado para dirigir a Inglaterra ou o Brasil. Não quero crer nesta hipótese, mas também não se pode descartar a possibilidade de que o fato sirva para justificar a dispensa de Felipão – que assim ficaria livre para atender aos insistentes apelos vindos há quase dois anos de Inglaterra. Daí que o futuro de Portugal e de seu atual treinador continuarem sendo uma grande incógnita.
Golo de Letra
Perdi-me amor pr’a te encontrar
Na solidão do teu olhar
No teu olhar se perde o medo
Também no mar se perde o céu
Trecho da canção “Voltar”, de Rodrigo Leão



