Portugal

Fim de uma era – segunda parte

No último dia 18 de junho, com a derrota para a Alemanha por 3 a 2 e a conseqüente eliminação na Eurocopa 2008, encerrou-se o ciclo de Luiz Felipe Scolari à frente da Seleção Portuguesa. Foram cinco anos e meio de um casamento que viveu na maior parte do tempo entre tapas e beijos – ao contrário da imagem de calmaria que a imprensa brasileira procurou sempre vender por aqui. De todo modo, uma análise prévia dos números mostra um saldo amplamente positivo: foram 74 jogos de Felipão com os Tugas, ao longo dos quais se registraram 42 vitórias, 18 empates e 14 derrotas. Entre 04/09/2004 e 01/07/2006, a equipe permaneceu invicta – um recorde para Portugal, que nunca contou com um treinador nacional durante tanto tempo. 

Além dos números, há de se destacar a participação de Portugal no Mundial-2006 (quando disputou uma semifinal com a França e terminou em 4º lugar) e na Eurocopa-2004 (quando ficou com o vice-campeonato). Mas o maior contributo de Scolari para o futebol português é outro: pela primeira vez nas últimas décadas, um treinador manteve-se incólume às pressões de dirigentes e jornalistas, realizando seu trabalho com (aparente) autonomia e independência. Ao que tudo indica, os clubes portugueses deixaram de mandar e desmandar na seleção, e isso certamente incomodou muita gente – especialmente o folclórico Pinto da Costa, presidente do Porto.

A par dessa conduta séria e disciplinadora – facilitada pelo fato de ser um estrangeiro no comando da seleção –, Felipão conseguiu devolver aos portugueses um orgulho e uma autoconfiança há muito adormecidos. Ao longo do Euro-2004, milhares de janelas e de torcedores enfeitaram-se de verde-vermelho por causa do futebol, fenômeno recorrente na Copa da Alemanha e nesta Eurocopa da Suíça-Áustria. Além disso, o treinador utilizou-se de seu ar paternal para encorajar os mais jovens e, como não poderia deixar de ser, soube animar sua equipe por meio de estratégias de motivação profissional saídas de best sellers próprios da área de RH.

Mas Scolari está longe de fazer milagres

Afora isso, Scolari não executou milagre algum na seleção portuguesa – e aqui permito-me discordar da opinião publicada em 19 de junho pelo amigo Caio Maia no Blog da Trivela (“Era impossível” ) – post que bateu todos os recordes do site, com mais de 120 comentários (http://euro.trivela.com/blog/era-impossivel). Antes da chegada de Felipão, Portugal já havia realizado sua melhor Eurocopa em 2000, quando foi eliminado na prorrogação de uma semifinal pela França, depois de vitórias antológicas sobre Inglaterra (3 a 2, de virada) e Alemanha (3 a 0). Ainda antes de Felipão, Portugal foi a melhor seleção européia das eliminatórias para a Copa de 2002 e contava com Luís Figo, eleito melhor jogador do mundo pela Fifa.

O equívoco mais flagrante de Felipão, algo que vem sendo destacado até em programas humorísticos na TV portuguesa, diz respeito ao seu pouco manejo tático durante os torneios que disputou com Portugal. Alguns jornalistas lusos que acompanharam os Tugas nos últimos tempos atestaram que treino tático era algo incomum. E Scolari falhou feio justamente quando se deparou com equipes que se prepararam para explorar as deficiências lusas. Foi assim com a Grécia em 2004, com a França em 2006 e agora com a Alemanha em 2008, quando Portugal entrou com os mesmíssimos titulares três vezes diante de adversários bem diferentes (Turquia, República Checa e a mesma Alemanha).

Do mesmo modo, Caio Maia exagera no Blog ao desqualificar a seleção portuguesa chamando-a de “ridícula”. Se for assim, a França atual é muito mais ridícula, ao lado da Holanda – sempre queridinha da imprensa brasileira. E a Inglaterra – bem, essa nem está aí para contar a história. Portanto, analisando brevemente o elenco luso que disputou a Eurocopa, é preciso referir a boa prestação de alguns jogadores, como Deco, Pepe e João Moutinho, e aqueles que alternaram bons e maus momentos, como Bosingwa, Ricardo Carvalho, Nuno Gomes e até Cristiano Ronaldo. De resto, Simão Sabrosa e Petit mostraram-se mais uma vez limitados com a camisola da seleção, enquanto Paulo Ferreira e o goleiro Ricardo jamais deveriam ser titulares.

Na partida contra a Alemanha, contra uma defesa alta e forte, por que a única opção de ataque de Portugal no segundo tempo foram bolas cruzadas na área? Na conferência de imprensa na véspera da partida, Felipão puxou um papelote e começou a ler a estatura de vários jogadores alemães. Mediam 1,88m, 1,90m, 1,94m. Depois, ao referir-se a sua equipe, anunciou de forma muito pejorativa que seus atletas mediam 1,15m, 1,20m. Ora, ele dispunha no elenco de Hugo Almeida (1,91m) e Fernando Meira (1,90 m) – não por acaso, jogadores que atuam na Bundesliga e que estão acostumados com o futebol alemão. Os dois sequer entraram em campo. E Ricardo Quaresma, que poderia representar uma alternativa para superar a defesa germânica, também foi preterido ao longo de toda a partida.

Ainda o anúncio do Chelsea

De toda maneira, Felipão parece blindado de críticas pela imprensa brasileira, muito em função do título mundial em 2002 com a seleção canarinho. Pouco espaço foi dado por aqui ao fato de ele ter acertado sua ida para o Chelsea em 1º de junho, data em que a delegação de Portugal saía de Lisboa com destino à Suíça. O resultado, todos sabem: duas derrotas, nenhuma vitória e nenhum empate, com cinco gols sofridos e apenas dois marcados. É o saldo dos Tugas após o Chelsea ter anunciado que havia contratado Scolari. Daí que se torna impossível não aceitar que o anúncio da sua saída, durante a competição, não tenha abalado animicamente o espírito do elenco luso na Suíça.

É difícil justificar a atitude do treinador diante da notícia publicada pelo novo clube. Na Eurocopa de 2004, o mesmo Felipão recusou-se a negociar com o Benfica, depois de a imprensa ter anunciado que havia um acerto entre o clube da Luz e o treinador. O que a diretoria, os jogadores e os adeptos do Chelsea hão de pensar se, prestes a disputar as semifinais da Liga dos Campeões, Scolari anunciar que acertou contrato com a seleção da Itália, por exemplo? Mas agora não adianta mais lamentar-se. Vale a manchete do jornal Record, um dia após a derrota de Portugal para a Alemanha: “Até um dia, Scolari”. Completo daqui: So long. Bye.
 

Golo de Letra

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: — Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

(Soneto de Luís de Camões)

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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