Fim de uma Era

A bela vitória de Portugal sobre a República Checa por 3 a 1 no último dia 11 de junho e a classificação antecipada para as quartas-de-final da Eurocopa ficaram quase que em segundo plano após a publicação da notícia de que o técnico Luiz Felipe Scolari acertou o contrato com o Chelsea. Após cinco anos e meio à frente dos Tugas, com duas Eurocopas e um Mundial consecutivos (um recorde em Portugal), Felipão sofria um inegável desgaste no cargo, intensificado com a tentativa de agressão ao sérvio Dragutinovic nas eliminatórias do Euro-2008, em setembro passado. Mas terá sido o melhor momento para anunciar a saída da seleção?
Em 2004, pouco antes do início da Eurocopa, a imprensa lusa insinuou que Felipão havia acertado um contrato com o Benfica. O treinador foi enfático em negar o acordo e em assegurar que, a partir daquele momento, jamais negociaria com os dirigentes benfiquistas. Surpreende que, desta vez, as coisas não tenham sido encaminhadas dessa maneira. Assim, o anúncio feito pelo Chelsea não deixa de representar um desvio nas atenções da comissão técnica e do elenco luso, que deveriam estar preocupados apenas com a competição em si.
No acerto feito com o Chelsea, Felipão deveria ter exigido que o anúncio só fosse feito após a conclusão de sua participação na Eurocopa. Essa foi a estratégia que a comissão técnica e o corpo diretivo da Federação Portuguesa encontraram, durante o torneio, para “blindar” Cristiano Ronaldo e outras estrelas pretendidas pelas grandes potências européias. Para o Chelsea, não faria alguma diferença anunciar a novidade hoje ou daqui a dez dias. Para Portugal, esse anúncio pode significar a perda de um equilíbrio e de uma coesão que a seleção comandada por Scolari não demonstrou no Euro-2004, nem no Mundial-2006. Se os Tugas caírem nas quartas-de-final, Felipão deveria saber que grande parte da opinião pública creditará a ele a causa da eliminação.
Como reagirá o grupo?
Scolari terá, no Chelsea, três atletas que são titulares de sua seleção atual (Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira e Bosingwa). Há quem aponte ainda que Deco possa transferir-se para o Chelsea na próxima temporada. Até que ponto isso pode significar um embaraço para o equilíbrio do grupo da seleção na disputa da Eurocopa? A partir do momento em que os jogadores sabem que seu treinador está de saída, haverá insatisfação de alguém por sentir-se eventualmente preterido?
Por enquanto, o anúncio da saída de Felipão parece, paradoxalmente, ter provocado apenas reações positivas. Alguns atletas já disseram que gostariam de ganhar o título em nome de Scolari. Na coletiva de imprensa realizada na véspera do encontro com a Suíça, Nuno Gomes e Petit recusaram-se a comentar o caso – algo que só será feito após a Eurocopa. No fundo, a repercussão desse adeus está diretamente ligada ao resultado dos Tugas nas quartas-de-final, quando enfrentarão possivelmente a Alemanha (o adversário era desconhecido até o fechamento desta coluna).
Por enquanto, a torcida portuguesa espera que a derrota para a Suíça na última rodada da primeira fase tenha representado apenas uma descompressão natural de um time que nunca havia atuado junto e que já estava classificado antecipadamente. Essa derrota, aliás, pode servir ainda para refrear o clima de euforia exagerada que Portugal vivia até então em sua sede, na cidade de Nêuchatel. Caso contrário, ela poderá ser lida como o início do desmonte anímico a que o elenco luso está sujeito com a certeza do adeus de Felipão.
Quem será o substituto?
É por esses motivos, aliás, que é impossível não lamentar a saída do “Sargentão”. Infelizmente, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) não conseguiu oferecer um novo contrato compatível com o status de Scolari. Todos sabiam que o selecionador só ficaria com a equipe até o fim da Eurocopa, mas Gilberto Madaíl (presidente da FPF) não acenou de forma clara com a possibilidade de renovação; pior que isso, condicionou a permanência no cargo aos resultados em campo. Esse foi, decerto, o maior erro da entidade, que talvez desejasse igualmente um novo comando técnico na seleção.
O problema, agora, é saber quem poderá dar continuidade à mentalidade vencedora da seleção lusa. Em Portugal, ninguém tem condições hoje de realizar isso. José Mourinho seria o nome da vez, mas acertou com a Inter de Milão e está descartado. Já se falou também, em outros momentos, em Carlos Queirós, adjunto de Alex Ferguson no Manchester United – opção que já se mostrou inviável à frente do Real Madrid. De sorte que a melhor opção, mais uma vez, será recorrer a um técnico de ponta estrangeiro, a fim de que os clubes portugueses não manipulem a seleção como acontecia até a chegada de Scolari.
Golo de Letra
Meu amor dá-me os teus lábios
dá-me os lábios desse rio
que nasceu na minha sede
mas o sonho continua
E a minha boca até quando
ao separar-se da tua
vai repetindo e lembrando
sei de um rio
sei de um rio
(Trecho da canção “Sei de um rio”, interpretada por Camané)



