Portugal

Euforia exagerada dos portugueses?

A vitória de Portugal sobre a Turquia por 2 a 0 na primeira rodada do Grupo A da Eurocopa-2008, no último sábado (7 de junho), serviu como forte alento à imprensa e aos adeptos portugueses, que se entusiasmaram com o triunfo em Genebra. No dia seguinte à partida, os jornais esportivos Record e O Jogo traziam como manchete a frase “À Campeão”. Já o diário A Bola era um pouco mais contido, ainda que igualmente eufórico: “Um país, uma equipa”.

Importa verificar o quanto esse clima de otimismo deriva, em grande parte, das manifestações dos imigrantes lusos na Suíça. Após o triunfo sobre a Turquia, registros dão conta de que mais de dois mil portugueses esperavam o ônibus da seleção à porta do hotel em que os Tugas estão hospedados, na cidade de Nêuchatel. Nota: a delegação com os jogadores chegou ao hotel à 1h30min da manhã, no horário local.

Cabe dizer, no entanto, que o otimismo exagerado não deve contaminar o ambiente. Por um lado, o domínio dos Tugas ao longo da partida foi inequívoco e contundente. A equipe treinada por Luiz Felipe Scolari mostrou-se melhor nos aspectos técnico, tático e físico ao longo dos 90 minutos, e o placar final não traduz a larga superioridade sobre o adversário.

Por outro lado, mais uma vez a pouca eficácia lusa nas finalizações a gol há de suscitar algumas preocupações. Certo é que, além dos dois gols, Portugal ainda mandou três bolas às traves do goleiro Volkan. No entanto, nas poucas vezes que se arriscaram ao ataque, os jogadores turcos até poderiam ter complicado as coisas se tivessem maior destreza nos arremates. O que seria dos Tugas se tivessem pela frente uma seleção mais forte e mais técnica, como França, Itália ou Alemanha?

Estréia serviu, ao menos, para dar confiança ao grupo

Mesmo assim, a exibição diante da Turquia serviu igualmente para dar mais confiança ao plantel luso, que dá mostras de que pode evoluir muito ao longo da competição. Scolari parece ter acertado ao lançar o zagueiro Pepe e o meia João Moutinho no time titular – dois atletas que não tiveram essa condição ao longo das eliminatórias. Paulo Ferreira, improvisado na lateral-esquerda, pareceu mal aproveitado na equipe, mas a lateral-direita esteve muito bem com Bosingwa. E, para completar a eficiência defensiva, Petit e Ricardo Carvalho atuaram como há tempos não o faziam com a camisa da seleção.

No meio-de-campo para a frente, Deco e Simão Sabrosa não brilharam, mas deram trabalho aos jogadores turcos. Cristiano Ronaldo, como era de esperar, atuou muito marcado, mas ainda conseguiu armar o contra-ataque que resultou no segundo gol. E o atacante Nuno Gomes, desacreditado pela torcida, surpreendeu com uma atuação convincente – foi graças a ele que Pepe pôde aparecer livre na frente para inaugurar o placar do jogo.

Com a saída de Nuno Gomes, aos 68 minutos, Cristiano Ronaldo foi destacado para atuar no ataque. Mas o técnico Scolari, para justificar essa variação tática, deveria ter colocado em campo o portista Ricardo Quaresma, que daria maior dinamismo ao setor. Apesar disso, a livre movimentação dos jogadores em campo representou uma surpresa na seleção lusa – não é à toa que o primeiro gol foi anotado por um zagueiro que se aventurou no ataque, enquanto que o segundo gol saiu de uma articulação com o volante João Moutinho, dentro da grande área turca.

Para além disso, o mais importante foi a união demonstrada pelos jogadores em campo, prova de que o elenco está coeso e imbuído do sentido de vitória. Os gols de Pepe e Raul Meireles foram comemorados junto ao banco de suplentes, numa clara demonstração de amizade e companheirismo. E, antes de iniciar a partida, chamou igualmente a atenção o fato de os jogadores cantarem emocionadamente o hino nacional português, com destaque para o técnico Scolari e o zagueiro Pepe, nascidos no Brasil (só o também brasileiro naturalizado português Deco preferiu permanecer calado).

Tão importante quanto ganhar confiança logo no início é assumir o protagonismo que Portugal adquire a partir de agora. A equipe treinada por Felipão passa a ser mais respeitada por seus adversários depois dessa estréia entusiástica – fator que nunca deve ser desprezado em torneios curtos como a Eurocopa. Pelo que se viu no primeiro jogo, pequenos ajustes no time ainda podem fazer com que a torcida lusa tenha motivos de sobra para sentir-se feliz com sua seleção nacional. Refrear o otimismo exagerado e o clima excessivo de festa, entretanto, é a grande tarefa de Scolari até a próxima partida de quarta-feira, diante da República Checa.

Porto fica por conta da Uefa

E o Porto não esperava que uma simples perda de seis pontos no Campeonato Português poderia custar-lhe tão caro. A partir da punição definida pela Liga de Clubes em Portugal, em função das investigações do célebre caso “Apito Dourado”, a Uefa decidiu suspender preventivamente o clube portista por um ano de todas as competições européias. Motivo: os regulamentos da Uefa não permitem a participação de clubes envolvidos em manipulação de resultados esportivos. Cabia recurso, já impetrado pela diretoria dos Dragões, e o resultado deverá ser conhecido até o dia 13 de junho.

Caso não consiga convencer os dirigentes da Uefa de sua inocência, o Porto ficará de fora das competições continentais pela primeira vez desde o 25 de Abril de 1974, após 34 temporadas consecutivas – período em que os Dragões obtiveram um título da Taça Uefa (2003) e dois títulos da Liga dos Campeões (1987 e 2004). Se falhar a presença na próxima temporada na LC, o Porto deixa ainda de acompanhar o Manchester United no recorde de presenças na nova fase da competição, iniciada em 1993 (até agora, os dois clubes já participaram de 13 edições da LC). Quais os beneficiados com essa decisão: o Vitória de Guimarães junta-se ao Sporting na fase de grupos da LC, enquanto que o Benfica disputa a pré-eliminatória. O Braga, por sua vez, segue para a Taça Uefa no lugar do Benfica, ao lado de Marítimo e Vitória de Setúbal.

O agravante para o Porto é que o clube simplesmente deixou de recorrer da punição que lhe foi imputada pela Liga de Clubes em Portugal, uma vez que os seis pontos de castigo lhe foram retirados no último campeonato nacional, quando o título já estava definido com antecedência. E já que deixou de recorrer da punição em nível doméstico, o clube assumiu a culpa e manchou seu “prontuário” junto à Federação Portuguesa de Futebol. As conseqüências que se seguiram pegaram de surpresa o presidente do clube, Pinto da Costa – ele também suspenso em Portugal por dois anos.

Golo de Letra

Há uma torneira sempre a dar horas
há um relógio a pingar no lavabo
há um candelabro que morde na isca
há um descalabro de peixe no tecto

Há um boticário pronto para a guerra
há um soldado vendendo remédios
há um veneno (tão mau) que não mata
há um antídoto para o suicídio de um poeta

Senhor, Senhor, que digo eu (?)
que ando vestido pelo avesso
e furto chapéu e roubo sapatos
e sigo descalço e vou descoberto.

(Poema “Quiproquó”, do poeta cabo-verdiano Arménio Vieira)
 

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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