Portugal

Escala Portsmouth

Rebaixado, vivendo uma crise financeira sem precedentes… e finalista da FA Cup. Este é o Portsmouth, dono de uma reta final de temporada no mínimo estranha e alternativa. Ao mesmo tempo em que esta já está marcada pela tristeza da lanterna da Premier League, pode ser contemplada com a conquista do segundo mais importante título do futebol inglês. E o que isso tem a ver com Portugal? Especificamente com um time, tem muito a ver, sim.

Ao se olhar a trajetória do Desportivo Chaves, nota-se que as semelhanças são mais presentes do que se imagina. Afinal, tal como o Pompey, o time de Trás-os-Montes encontra-se em grandes dificuldades econômicas. Embora não tenha caído matematicamente, sofre risco de ser rebaixado à terceira divisão. No entanto, a equipe do norte alcançou, nesta semana, sua maior campanha em uma competição nacional: está na decisão da Taça de Portugal.

A classificação veio de forma suada, tal como foi a do Portsmouth na FA Cup. No jogo de ida, disputado no Estádio Municipal de Chaves, os trasmontanos venceram a Naval por um apertado 1 a 0, com um gol de Ricardo Rocha aos 49 minutos do segundo tempo. No retorno, os figueirenses abriram o marcador logo no começo do jogo, em bela bicicleta de Fábio Júnior, e, empurrados pela torcida, até tentaram ter algum domínio. Porém, sem ímpeto, viram-se barrados pela raça dos visitantes.

Após um jogo que, se tecnicamente não foi brilhante, teve uma impressionante disposição, especialmente dos flavienses, mas com grande pressão da Naval na reta final do duelo, veio a prorrogação. E em um confronto decisivo, em que os dois times são limitados, mas taticamente obedientes, a raça é um diferencial. E isso sobrou no incrível time de Trás-os-Montes, principalmente no menino Edu, de 19 anos, que saiu do banco, empatou e, no último minuto, virou o placar e entrou para a história.

A festa pelo feito inédito e pela oportunidade de poder dar um final feliz à maior de suas aventuras portuguesas, porém, não está completa. A realidade, como se dá com o Pompey, é cruel com os trasmontanos. Faltando quatro partidas para o término da Liga Vitalis, a equipe é a penúltima colocada com 25 pontos, brigando com Varzim e Sporting da Covilhã para não ser rebaixado à 2ª Divisão B. Pior: não vence pela segundona desde 20 de dezembro (!).

A má fase nos pontos corridos ganha ainda mais desespero quando se olha para as contas do clube. Em fevereiro, o Supremo Tribunal Português chegou a condenar o Chaves a pagar uma pensão vitalícia a um ex-jogador da equipe, Sérgio Jorge, de quase 490 mil euros. O caso se remetia à temporada 2002/03, quando o ex-atleta, emprestado pelo Vitória de Setúbal, sofreu uma lesão que o obrigou a encerrar a carreira.

Para piorar, um ex-presidente da agremiação, Castanheira Gonçalves, entrou com ação de penhora contra o clube, que o devia um milhão de euros. Caso a dívida não seja renegociada – e por hora, não há novidade quanto ao caso – os trasmontanos correm risco de falência. A atual diretoria disse já negociar com Castanheira, já que, em caso da conclusão da penhora, não haveria mais dinheiro em caixa nem mesmo para deslocar o elenco para a decisão da Taça de Portugal.

Como se vê, o cenário extra-campo é ainda menos convidativo que a situação na tabela da Liga Vitalis, onde, nos quatro jogos decisivos, os flavienses terão pelo menos dois confrontos diretos, contra o lanterna Carregado e o Sporting da Covilhã. Resta saber onde, no fundo, estará a cabeça do elenco. De um lado, a necessidade de manutenção na segundona. Do outro, a possibilidade de fazer história no Jamor, contra ninguém menos que o Porto. E nesse meio tempo, uma crise em que não se sabe nem se, mesmo com o rebaixamento evitado, ter-se-á recursos para disputá-la na próxima temporada.

Apesar de tudo, o ideal mesmo é que, dentro de todas as dificuldades, torcedores e jogadores tentem curtir o momento e até usá-lo a favor para fazer as suas partes em campo. É justamente o que o Portsmouth vem tentando fazer na Inglaterra. Um exemplo interessante a ser seguido pelo guerreiro time de Trás-os-Montes.

Hoje sim?

A cena de Rubens Barrichello tirando o pé do acelerador e deixando Michael Schumacher passá-lo na reta final do Grande Prêmio da Áustria de Fórmula 1, em 2002, tem como um de seus artifícios mais inesquecíveis o constrangimento do narrador Cleber Machado (“Hoje não! Hoje não!…. Hoje sim… Hoje sim?). Nos últimos anos, o Benfica passou por situações semelhantes, ainda que não tão desesperadoras. Montava equipes fortes, assustava de início, mas caia de rendimento no sprint final.

A eliminação para o Liverpool, com direito a goleada em Anfield, na Liga Europa, e a vitória do Braga sobre o União de Leiria, deixou a névoa de temporadas passadas novamente sobrevoando o Estádio da Luz. Porém, a rápida volta por cima, com direito a vitória sobre os Leões fora de casa, não só devolveu a moral aos Encarnados como aumentou a expectativa de que, dessa vez, os lisboetas não deixariam escapar o caneco de campeão nacional.

Embora jogadores e dirigentes do Sporting reclamem a quem quiser ouvir de falhas de arbitragem, mesmo que possa ter havido erros, estes não foram preponderantes para o resultado. Superior em campo, mesmo na casa do maior rival, o Benfica dominou as ações, principalmente na segunda etapa. Se no começo do jogo, Carlos Carvalhal conseguiu travar as Águias, a entrada de Aimar começou a mudar a história da partida, melhorando a criação no meio-de-campo.

Ao Sporting, o resultado pode não ser desolador, mas “encerra” de vez a época da equipe. Difícil crer que os Leões perderão uma das vagas à Liga Europa, o que justifica a intensificação do pensamento em reforços e em um novo comandante, já que Carvalhal deixa Alvalade no fim da temporada. Agora, é, literalmente, recolher os cacos e os vários erros estratégicos, ponderar como e quem contratar, e, talvez, o essencial: deixar de querer competir só com o Benfica e voltar a pensar como time grande, indo além de uma rivalidade local.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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