Erro atrás de erro

Não é nenhuma novidade a Seleção de Portugal perder para o Brasil em solo brasileiro. Antes da malograda partida da última quarta-feira (19 de novembro), os Tugas somavam oito derrotas em oito partidas disputadas contra os Brazucas fora de casa. Assim, não haveria de espantar a coleção de mais uma derrota no último amistoso. O que espanta – e preocupa – é o placar elástico (6 a 2), a falta de disposição da equipe, o desarranjo tático, a falta de comando dentro de campo e a incompetência da comissão técnica encabeçada por Carlos Queiroz.
Se buscarmos os confrontos anteriores de Brasil x Portugal, veremos que, num total de 16 jogos, a seleção canarinho venceu 10, os Tugas ganharam quatro e houve dois empates. Só que, contra essa mesma seleção brasileira treinada por Dunga, Portugal havia conseguido uma vitória por 2 a 0 no ano passado, em Londres, sob comando de Luiz Felipe Scolari. Antes, no início de Felipão à frente da equipe lusa, registrou-se uma vitória por 2 a 1 na cidade do Porto, em março de 2003. E em 2002, às vésperas do Mundial da Ásia, as duas seleções ficaram no empate de 1 a 1 em Lisboa, com António Oliveira como técnico.
O retrospecto entre as duas seleções sempre foi favorável para os brasileiros, mas nos últimos anos houve um grande equilíbrio de forças, em virtude do fortalecimento do futebol português nas competições internacionais (Eurocopas e Copas do Mundo). Portanto, não é admissível que uma seleção, que deve contar com o melhor jogador do mundo eleito pela Fifa em 2008, seja humilhada dessa forma por um adversário – a despeito de esse adversário ser o Brasil. Brasil, aliás, que não havia marcado um gol sequer em casa nos últimos três jogos (Colômbia, Bolívia e Argentina) pelas eliminatórias sul-americanas para o Mundial-2010.
Queiroz e Ronaldo – a supremacia dos equívocos
A última vez em que Portugal havia sofrido seis gols foi em 20 de novembro de 1955, em Lisboa, num amistoso diante da Suécia (o resultado foi o mesmo, 2 a 6). Os jornais esportivos portugueses no dia seguinte ao amistoso com o Brasil chamaram a atenção para o “desaire”. A Bola estampou “Samba na madrugada”. O Jogo, com uma foto de Robinho na capa, brincava: “Pôxa irmão – é preciso recuar 53 anos para encontrar goleada igual contra a Suécia”. Já o Record alertava: “Portugal humilhado – há 53 anos que a Selecção não encaixava seis golos. Carlos Queiroz perde outra vez. Triunfos só contra Malta e Ilhas Faroé”.
Carlos Queiroz já vem sendo chamado pela imprensa portuguesa de “Professor Pardal”. Começou a partida contra o Brasil sem nenhum centroavante – e só no final colocou Hugo Almeida em campo. Insistiu mais uma vez em manter Paulo Ferreira improvisado na lateral esquerda – por onde saíram quatro dos seis gols brasileiros. E, o pior: sua falta de comando e sua apatia contrastam com tudo aquilo a que os jogadores estavam acostumados nos tempos áureos da Era Felipão. Seu currículo como treinador, desde que assumiu a seleção, é ridículo, como atesta o jornal Record. Venceu apenas Malta, pelas eliminatórias européias para a Copa de 2010, e Ilhas Faroe, num amistoso. Em casa, perdeu para a Dinamarca e empatou com a Albânia (!). Fora, empatou sem gols com a Suécia – único resultado digno até agora.
Já defendi, neste mesmo espaço, a saída de Carlos Queiroz do comando técnico da seleção portuguesa. A ele poderia ser dado o comando das equipes de base – mas nunca o da equipe principal. Outro erro no seio da seleção: conceder a braçadeira de capitão a Cristiano Ronaldo. O “menino prodígio” não tem carisma nem equilíbrio emocional para comandar o time em campo. A ansiedade por sagrar-se o melhor do mundo da Fifa tem feito mal a ele, que continua sendo mal assessorado. Suas últimas declarações têm sido infelizes e só demonstram uma arrogância desnecessária. Um jogador com o potencial dele deveria ser aplaudido mundo afora – e não ser alvo de vaias das torcidas em diferentes estádios.
O problema das naturalizações
A carência crônica de goleadores na seleção portuguesa tem motivado notícias desencontradas sobre a naturalização de alguns jogadores que atuam no país. Os brasileiros Derlei e Liedson, vez ou outra, são apontados como solução para a equipe dos Tugas, que já conta com os exemplos de Pepe e Deco. Agora, foi a vez de Paulo Assunção, brasileiro que atuou pelo Porto até a temporada passada, manifestar seu desejo de jogar a serviço de Portugal: “Estou pronto. É um dos grandes sonhos que tenho. É um país que me deu muito e gostaria de retribuir de alguma forma”.
O assunto é polêmico e provoca reações acaloradas em Portugal. De forma geral, torcedores e futebolistas não vêm com bons olhos o caso de jogadores que se naturalizam apenas com o intuito de representar uma seleção estrangeira. Tendo a pensar da mesma forma. Deco e Pepe, por exemplo, passaram por Portugal circunstancialmente: não criaram raízes no país e sequer têm identificação com a cultura portuguesa. Deco, aliás, mal canta o hino luso antes do início das partidas e já criou uma Ong em São Paulo, além de sonhar encerrar a carreira no Corinthians.
Aqui no Brasil, um exemplo contrário é o do ex-tenista Fernando Meligeni. Nascido na Argentina em 1971, o atleta veio para São Paulo com quatro anos. Aos 19 anos, naturalizou-se brasileiro e sempre sentiu o Brasil como sua nova pátria. É o caso, em Portugal, de Nélson Évora – medalhista de ouro no salto triplo na Olimpíada de Pequim. O atleta, de origem cabo-verdiana, nasceu na Costa do Marfim, mas sente-se português. Se Portugal abrigar futebolistas com esse espírito, não vejo problema em vê-los com a camisa da seleção. O que não dá para aceitar são os oportunismos de última hora.
Golo de Letra
Sigamos o cherne, minha Amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Senão já com amor, com alegria…
Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa de passado
Circula o cherne: traído Peixe recalcado…
Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando, mentido o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa…
(Poema “Sigamos o cherne”, de Alexandre O´Neill)



