Era a hora?

Nesta semana, a injusta demissão de Cuca no Fluminense colocou diversos questionamentos sobre a direção tricolor. Afinal, o treinador salvará, de maneira heróica, o clube das Laranjeiras da Série B e ainda conduzira a equipe à final da Copa Sul-Americana. Em Lisboa, um cenário mais ou menos semelhante, e que vinha sendo desenhado há um tempo, foi concretizado: Carlos Carvalhal será mesmo substituído para a próxima temporada no Sporting, e o atual treinador do Vitória de Guimarães, Paulo Sérgio, assumiria os Leões para 2010/11.
A decisão dividiu os torcedores. De um lado, há aqueles que ainda lamentam a péssima época alviverde concordam com a saída de Carvalhal, nem tanto pelo trabalho do técnico, mas para “apagar” tudo o que foi 2009/10. Do outro – e pelo que se pode constatar, a maioria -, uma leva de sportinguistas afirma estar revoltada com a decisão de não renovar o contrato do treinador, considerando-a uma total ingratidão com o profissional que assumiu a “bomba” deixada por Paulo Bento em Alvalade.
O próprio Carvalhal está desconfortável com a situação. Após a apertada vitória contra o Vitória de Setúbal, confessou ser difícil trabalhar nas “atuais circunstâncias”, referindo-se claramente à certeza de que não teria nova chance em Lisboa. Uma decisão que, pelo menos em princípio, entra para o hall dos equívocos sportinguistas na atual temporada, onde já estão listadas as contratações caras e proporcionalmente fracassadas de nomes como Sinama-Pongolle e Matías Fernandez – de algumas boas atuações, mas sumiço completo na segunda metade do certame, por exemplo.
Carlos Carvalhal desembarcou em novembro último num Sporting derrotado, sem rumo e eclipsado pelo rival Benfica. Chegou, ainda, sob várias dúvidas, haja vista a dificuldade que os Leões encontraram para localizar o substituto de Paulo Bento. O fato de não ser a primeira opção e não possuir trabalhos de destaque em times grandes aumentou ainda mais a pressão em seu nome. E de fato, nos primeiros jogos, Carvalhal viu que o cenário em que encontrava a nova equipe não seria de fácil solução, dentro e fora de campo.
Foram 16 rodadas no comando dos alviverdes na Liga Sagres (assumiu na décima primeira rodada), com nove vitórias, três empates e quatro derrotas, além de ter levado a equipe às quartas da Taça de Portugal, às semi da Taça da Liga, e às oitavas da Liga Europa. Olhando só pela ótica dos resultados, realmente não há nada de especial no desempenho de Carvalhal, e vale lembrar que, sob seu comando, a equipe sofreu impiedosas goleadas de Porto e Benfica, decisivas para eliminações dos Leões na temporada.
Porém, é importante observar a mudança de atitude do time principalmente após a virada de turno, e, essencialmente, quando tiveram início os embates da Liga Europa. Eliminar o Everton com a autoridade que se deu foi um dos momentos mais marcantes da equipe na época. Dalí em diante, o elenco ganhou moral. Jogadores que vinham apagados, como Izmailov e Liedson, além dos zagueiros Tonel e Carriço, cresceram de produção. O 3 a 0 aplicado no Porto, no returno da Liga Sagres, em Alvalade, foi a prova de que estava ali um Sporting diferente.
Muito disso passou por Carlos Carvalhal. Uma das medidas foi arrumar uma equipe que se acostumou, durante pelo menos dois anos, a jogar da mesma e ineficiente forma, com um losango no meio de campo e o avanço dos alas, notadamente limitados. O acerto no esquema com três atacantes valorizou Liedson e deu espaço para um ascendente Yannick e um esforçado Saleiro, que mesmo sem tanta qualidade, encaixaram-se bem no plano tático. A manutenção dos laterais mais à defesa reforçou a zaga e deu liberdade para eventuais avanços de Miguel Veloso, para ajudar Moutinho na armação.
Porém, como já chegou a ser citado por aqui, o treinador demorou mais do que se esperava para arrumar a equipe, conseguindo tal objetivo somente no desenrolar do último terço da competição. À tempo de assegurar uma vaga na Liga Europa, mas não de recuperar a diferença para Benfica, Porto e Braga, ou, ainda, de levar o Sporting mais longe nas copas nacionais. A mudança da água para o vinho, presenciada após o renascimento na Liga Europa, chegou após as decisões de bastidores.
Acontece que as circunstâncias – leia-se nova dificuldade para se encontrar técnico no mercado – poderiam ter colaborado para que José Eduardo Bettencourt e Costinha repensassem a decisão de dispensar Carvalhal após o término da temporada. O treinador estava, enfim, com o time na mão, um esquema de jogo definido e já sabendo o que seria necessário de reforço para a próxima época. A torcida, enfim, voltara a ficar favorável à equipe, e já apoiava a permanência do técnico para 2010/11, para que, com alma renovada, ele pudesse dar início a um novo trabalho.
Ocorre que – e aí até pode-se entender (em partes) o raciocínio de JEB e Costinha – a falta de resultados nos últimos anos e a temporada tétrica fez com que a pressão por mudanças totais fosse insustentável. Bettancourt fora eleito recentemente presidente e nada consegue fazer. Costinha chegou há poucas semanas ao turbulento cargo de diretor de futebol, já exercido por Pedro Barbosa e Sá Pinto (só nesta temporada), sempre com saídas polêmicas. Limpar a imagem do posto é essencial para o “debutante”, e a preferência, aqui, foi não pecar pela omissão de não reformular a comissão técnica.
Paulo Sérgio, que assumirá a bronca e inclusive já fala como treinador do Sporting, não terá vida fácil. É um comandante jovem e que vem aproximando o Guimarães da Liga Europa, mas chegará com a pressão de “fazer melhor” do que Carvalhal, sob pena de ser “derrubado” pela torcida e voltar a fazer o time pensar além da rivalidade com o Benfica. Pressão essa que também vai recair nos dirigentes leoninos e nos reforços que obtiverem. Afinal, tal como em 2009, vários nomes já são sondados (Tiago, Duda, Diego Souza). No entanto, a última resposta do mercado foi bem aquém da esperada.
Encaminhado
E se o momento do Benfica voltar a abater o elenco sportinguista, pode triplicar a pressão em cima de Paulo Sérgio. Pelo andar das coisas, muito dificilmente os Encarnados perderão o título, podendo até conquistá-lo já nesse final de semana. Para isso, basta vencer o Olhanense em casa e torcer para o Braga não superar a Naval, em Figueira da Foz. Um empate dos bracarenses, por exemplo, faria a distância entre os dois primeiros subir a oito pontos, sendo impossível de ser alcançada pelos arsenalistas. E o cenário até que não é tão impossível.
Caso o título não venha agora, o Porto pode passar a ser o fiel da balança. Dependendo dos resultados desta rodada, os Dragões podem entrar na penúltima partida do campeonato sem ambições e com a Liga Europa assegurada, o que, naturalmente, reduziria a intensidade da partida. Porém, difícil crer que os azuis não irão com tudo para evitar uma festa encarnada em sua própria casa. E, claro, tudo depende de como o Braga se portará ante o Paços de Ferreira, em casa. De qualquer forma, é de se aplaudir a brilhante campanha dos minhotos, que, sem muito dos recursos que possuem os três grandes, na pior das hipóteses, estará na Liga dos Campeões 2010/11.



