Portugal

Equilíbrio inesperado em Portugal

Temporada 2004/05, oitava rodada do Campeonato Português. O Vitória de Setúbal lidera o certame com 17 pontos, empatado com o Benfica. Logo atrás, completando o G5, estão Porto (16), Marítimo (16) e Sporting (14). Do líder ao quinto colocado, portanto, apenas três pontos de diferença. Foi a última vez que a distância entre os cinco primeiros colocados após nove rodadas esteve tão pequena — até agora. Hoje, Porto e Benfica dividem a ponta com 20 pontos, com Sporting, Braga e Marítimo vindo logo atrás, com 17. Foram necessárias sete épocas para que essa condição voltasse a ser presenciada na tabela. Um raro equilíbrio na parte de cima — que, naturalmente, deve se dissipar ao longo da temporada, já que bracarenses e maritimistas não têm a mesma tradição e elenco — mas que, alimentado pela irregularidade do Porto (que a julgar pela última rodada, dá sinais de que deseja despertar), a confiança do Benfica e a ressurreição do Sporting, deixa ainda mais dúvidas sobre um possível campeão.

Essa “dissipada” demorou a ocorrer em 2004/05. Na ocasião, o torneio era disputado em 34 rodadas (eram 18 clubes na primeira divisão), e ao fim do primeiro turno, a distância do líder (Porto, 31 pontos) ao quinto (Boavista) era de somente um ponto. Igualados aos Dragões estavam Leões e Águias, sendo que o Braga somava os mesmos 30 pontos dos axadrezados. Na oitava rodada do segundo turno, ainda havia um certo equilíbrio no ar, com o Benfica na ponta (48) e o Sporting em quinto (42) — apenas seis pontos, portanto. O título acabou decidido na última rodada. Entre os três grandes, é verdade, mas até a 32ª rodada, o Braga estava na briga. Se o equilibro (ao menos matemático) desse início de temporada seguir o de sete épocas atrás — o que ocorre pelo menos até o momento — pode-se estar diante do que promete ser um campeonato extremamente interessante.

Do trio que ostenta as primeiras posições, a dupla lisboeta é a que vem em melhor momento, ainda que, do ponto de vista do campo, o Porto siga como o time mais bem composto. E o bom início de Benfica, aliás, é algo “raro”, por assim dizer. Se derrotar o Olhanense no final de semana, alcançará 23 pontos e atingirá o melhor começo de época desde a temporada 1990/91, quando o time era dirigido por Sven-Goran Eriksson. Mas para além dos pontos, a equipe vem jogando bem. Se o time de 2009/10, campeão nacional, era por demais dependente das jogadas tramadas pelos lados, com Ramires e principalmente Ángel Di Maria — algo que não foi observado a tempo em 2010/11 — o atual mostra mais possibilidades, especialmente no meio, com Nico Gaitán, Pablo Aimar (agora sim, mais constante) e Bruno César. E à frente, Nolito é a opção à Oscar Cardozo e Javier Saviola que as Águias não tiveram na última temporada. Um time que merece (e será) analisado mais minuciosamente na próxima semana.

O Sporting, por sua vez, embora ainda esteja atrás de encarnados e portistas quando o assunto é elenco, vem em um embalo considerável. São nove vitórias consecutivas, incluindo uma classificação, com três rodadas de antecipação, à próxima fase da Liga Europa. Domingos Paciência demorou um pouco para encaixar as peças — de certa forma, como já havia ocorrido no próprio Braga de 2009/10, quando acabou eliminado ainda nas fases preliminares da Liga Europa pelo Elfsborg, mas depois engrenou e colocou os bracarenses na briga pelo título — mas já o fez e, diferentemente daquele time dos minhotos, possui principalmente mais opções de frente, com nomes como Diego Capel, André Carrillo e Ricky van Wolfswinkel, mais o bom momento do meia-atacante Matías Fernandez. Aos Leões, o que falta mesmo é um teste maior, que deve ocorrer no próximo dia 20, diante do arquirrival Benfica, na Luz. Se os dois lisboetas seguirem no atual ritmo, a promessa é de um grande clássico.

Já o Porto parece ter recebido um belo chacoalhão e acordado. Claro que o Nacional, apesar de um bom time, não é um grande parâmetro. Mas aplicar 5 a 0 em um rival que tem uma defesa bem competente e entrosada (Felipe Lopes e Danielson foram muito bem em 2010/11) é de se destacar. Vítor Pereira fez testes interessantes, com Mangala na defesa, Belluschi e Steven Defour nos lugares de João Moutinho e Freddy Guarín, e Silvestre Varela na vaga de James Rodriguez e Walter no posto de Kleber. As mudanças ajudam a deixar claro que o Porto tem o elenco mais completo de Portugal — afinal, mesmo longe da melhor fase, a equipe já liderava o certame. Ainda não se havia encontrado o time e a pegada ideal desde a saída de André Villas Boas, e é cedo para dizer que já se encontrou. Mas os que viraram titulares ante o Nacional deram mostras de estar com mais determinação do que os que foram ao banco. O que não deixa de ser um trunfo ao treinador.

Correndo por fora nessa briga parcial pelo caneco estão Braga e Marítimo. O primeiro não é uma novidade, como mostra o passado recente, mas o segundo é uma agradável surpresa. Nos últimos oito jogos (sete pela Liga Portuguesa), sete vitórias e um empate (Feirense, fora de casa). Na temporada, apenas a derrota justamente para o Braga e um 3 a 2 diante do Sporting (anterior à ascensão leonina). O bom desempenho passa por alguns fatores. A equipe pouco mudou em relação à última época, e a saída mais importante foi a de Kleber, que já no ano passado não quereria seguir na Madeira. Além disso, destaca-se a boa fase do atacante Babá Diawara, que já foi às redes em 6 oportunidades na Liga e tem sido o grande nome dos rubro-verdes. Além dele, o meia Danilo Dias e o volante Roberto Sousa também vêm jogando um bom futebol. Ainda falta enfrentar Porto e Benfica (que, aliás, virão em sequência, na 13ª e 14ª rodadas) e logicamente pensar em título é utopia. Mas a Liga Europa já se encaminha.

Evidentemente, ainda resta um jogo para que 33% do campeonato seja concluído. Ou seja: há pouco mais de 67% de Liga pela frente. Mas a julgar pelos últimos anos, em que já com cinco, seis rodadas, um ou dois clubes despontavam na briga matemática pelo título, a atual temporada é um “oásis” — ainda que muito provavelmente o caneco rume novamente para Lisboa ou Porto, como sempre se deu na história (o Belenenses é de Lisboa e o Boavista, do Porto). De qualquer forma, se em 2009/10 — apesar da grande fase do Braga — poucos discutiam que o Benfica uma hora iria tomar a frente e em 2010/11 o Porto colocou a mão na taça logo nas primeiras jornadas, certamente apontar um candidato ao título nacional para 2011/12, pelo menos por enquanto, humanamente impossível. O que, convenhamos, é muito bom para uma liga que se caracterizou, nos últimos anos, por barbadas.

Decepção em preto e branco

Mas se por um lado o Marítimo pode ser tido como uma boa surpresa no atual campeonato (e até mesmo o Olhanense, que vem em sexto com 12 pontos), a grande decepção é, sem sombra de dúvidas, o Vitória de Guimarães. Cotadíssimo para ao menos chegar à Liga Europa, o clube do Minho e dono da quarta melhor média de público do torneio (16.855 pagantes/jogo) amarga a lantera com míseros 4 pontos. Na última rodada, derrota em casa justamente para o Olhanense, em uma partida na qual os vimaraneses tiveram mais presença ofensiva — o que, por sua vez, não significa eficiência. Parados pelo goleiro Fabiano Freitas à frente, os alvinegros se perdiam lá atrás nas investidas algárvias e obrigavam Nilson a trabalhar mais do que deveria quando se joga em casa. Rui Vitória teve uma passagem muito elogiada no Paços de Ferreira na última temporada e assumiu um Guimarães à beira de um ataque de nervos. O time e o treinador têm potencial para sair dessa situação. Mas é algo que não pode demorar.

Atlético é sensação da Segundona

Na segunda divisão, a chamada Liga de Honra (ou Liga Orangina), a sensação é o Atlético, de Lisboa. O clube, recém-promovido da Terceirona (II Divisão), venceu o Leixões por 1 a 0 e disparou na liderança com 16 pontos em sete jogos, quatro a frente do vice-líder Penafiel. Quem parece mostrar vontade de sair de sua atual situação é o Belenenses. O tradicional clube lisboeta perdeu a chance de se igualar ao Penafiel na rodada, ao empatar com o União da Madeira em casa por 1 a 1, mas não está lá tão distante do segundo lugar, que também dá vaga à elite. Já a decepção, na Liga de Honra, também é alvinegra: o Portimonense, rebaixado na temporada passada, tem apenas 6 pontos e segura a lanterna da competição. Na rodada, perdeu por 2 a 0 para o Sporting da Covilhã.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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