Portugal

Encaminhados e embolados

O Braga é um daqueles poucos times de Portugal que, quando encara os grandes, costuma efetivamente buscar a vitória. Claro que nem sempre é fácil e a saída é mesmo apostar em contra-ataques, mas via de regra, à exceção dos Bracarenses, apenas Vitória de Guimarães e, vá lá, Nacional e (mais recentemente) Paços de Ferreira costumam sair para o jogo. O que fazia do embate dos minhotos ante o Benfica um confronto no qual o Porto tinha, sim, grande confiança para apostar em um nada impossível tropeço do rival.

Tropeço esse traz duas situações diferentes à tona na Liga Zon Sagres. De um lado, a vitória arsenalista por 2 a 1 contra os Encarnados embola de vez a luta por vaga na próxima Liga Europa entre pelo menos sete clubes (se incluirmos aí o Sporting). De outro, praticamente encaminha o há muito tempo cantado título para os portistas, que na mesma rodada havia superado o difícil Vitória de Guimarães. Definitivamente, a situação ficou complicada demais para os atuais campeões confiarem na renovação da conquista.

Fazendo um rápido apanhado do jogo, foi uma vitória revigorante aos minhotos, em especial por anteceder o aguardado duelo contra o Liverpool, pela Liga Europa e por derrubar a maior série de vitórias da história do Benfica – 18. Não foi uma das melhores atuações do time de Domingos Paciência. A equipe começou atrás do marcador e não conseguia encontrar as melhores hipóteses ante uma Águia que, se não era brilhante – como já não fora contra o Marítimo -, controlava a partida com alguma tranquilidade.

Até a fatídica – e justa – expulsão de Javi Garcia, após entrada em Alan. Não bastasse ficar com um a menos, no mesmo lance, Hugo Viana bateu falta na área e Roberto falhou feio, como fazia no começo da temporada, errando a saída e permitindo que a bola fosse direto para as redes. O gol que serviu para fazer o Benfica perder a cabeça, e o Braga, crescer. A melhora bracarense no segundo tempo, tal qual o domínio do time da casa, foram claros, e confirmados com um golaço de Márcio Mossoró, que “matou” de vez as Águias.

A situação é a seguinte: Porto, com 62, Benfica, com 51. Diferença de onze pontos, com oito rodadas em disputa. Em tese, os Dragões teriam que perder quatro vezes para o título escapar. Não é impossível que o Benfica vença os próximos oito jogos. No entanto, é extremamente difícil, mesmo ainda tendo pela frente os clássicos ante Encarnados e Sporting, que o Porto perca tanto, especialmente por, até o momento, estar invicto e apresentando um futebol que, se não é aquele brilhante do começo da época, é cada vez mais eficiente.

Por outro lado, há pelo menos sete times brigando pelas três vagas portuguesas à Liga Europa oferecidas pelo campeonato nacional. Considerando o Sporting (que soma 36 pontos) na lista, não podem ser excluídos Paços de Ferreira (33), Guimarães (32), Braga (31), Nacional (30) e até mesmo União de Leiria (29) e Olhanense (28). Dos algárvios aos Leões, apenas oito pontos de diferença. E a julgar pela irregularidade dos lisboetas, não será nada estranho ver o clube alviverde brigando até as últimas rodadas para assegurar o passaporte europeu.

De qualquer forma, é difícil imaginar uma queda maior do Sporting, a ponto de comprometer o retorno à Liga Europa. O que coloca seis times de olho em duas vagas. Os minhotos Braga e Guimarães têm os melhores elencos no papel, e o encontro de 10 de abril, em Braga, promete ser decisivo nesse sentido. O Paços, porém, vem com o futebol mais aprazível dos três até o momento, algo que vem sendo recompensado com a invencibilidade no returno e o quarto lugar na tabela. Os três despontam, no momento, como os favoritos.

O Nacional, em tese, poderia ser enquadrado no hall dos principais candidatos. No entanto, o time peca pela irregularidade. É por demais dependente das defesas de Bracalli e tem um dos piores ataques do campeonato. Vive um momento de incertezas. Já Leiria e Olhanense são, em tese, os maiores franco atiradores. Afinal, nem de longe eram cotados para estarem nesta disputa. Ainda assim, a matemática e a imprevisibilidade impedem seus descartes. Entre os dois, talvez os algárvios surjam com mais força, pelo melhor rendimento em casa.

Outra perspectiva

Apesar da vitória, o Braga anda mais irregular do que poderia e deveria. É fato que a diferença de perspectiva do clube na atual temporada, em relação às anteriores, tem se mostrado. Hoje, pelo que fez em 2009/10, o time do Minho se tornou um daqueles “a serem batidos”, e encontram visível dificuldade ante rivais mais fechados, muito pela falta de elementos criativos, que deem aquele toque diferenciado. Basta dizer que algumas das melhores atuações bracarenses na época foram ante equipes superiores ou niveladas, porém mais abertas.

Tomemos como exemplo as partidas contra Sevilla e Celtic, ou a apertada derrota para o Porto no primeiro turno. Ou mesmo o 2 a 0 aplicado no Arsenal. Em todos os casos, o Braga teve o campo aberto para jogar, e soube atuar bem dentro de seu 4-3-3, armado por Domingos Paciência. Já em duelos como contra Beira-Mar ou União de Leiria, o time mostrou que sofre ante equipes mais retrancadas ou que apostavam firmemente nos contra-ataques – tal qual Paços de Ferreira ou Rio Ave.

Ainda que se pondere que o foco na Liga dos Campeões e a carência de um elenco – até por razões financeiras – capaz de suportar com eficiência as duas competições tenha comprometido o rendimento bracarense, o Braga poderia – e deveria – viver um melhor momento no Campeonato Português. Dos pontos perdidos, pesam as derrotas em casa para Beira-Mar e Paços (em que pese a boa campanha dos Castores), e o empate com o Vitória de Setúbal. Foram pelo menos sete pontos, em tese aguardados, deixados no caminho.

O fato de o time de Paciência crescer em jogos decisivos e importantes (e aí, há de se considerar que, vendo o histórico recente do clube, o 6 a 0 sofrido para o Arsenal foi uma exceção) aumenta a perspectiva de que, ante o Liverpool, possa-se ver um Braga ao estilo 2009/10: aguerrido, marcador, inteligente e ciente de suas limitações. O mesmo, porém, não se pode dizer da equipe que, no próximo dia 21, enfrentará um fechado Rio Ave, em casa, e terá que assumir as rédeas da partida desde o começo.

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Equipe Trivela

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