Portugal

Em Portugal, o Benfica resolveu transmitir seus jogos e brigar contra a emissora dominante

Os clubes de futebol terem o seu próprio canal se tornou comum no mundo inteiro. Em geral, trazem informações sobre os esportes do clube, festas em sua sede e, claro, informações sobre o time de futebol. Em alguns casos, esses canais são uma forma de os torcedores que moram fora do país assistiram aos jogos do time, normalmente pagando um valor mensal de assinatura. É assim, aliás, que alguns canais compram os direitos de transmissão de alguns jogos do futebol internacional. Mas, e se o canal do seu time começa a transmitir os jogos do principal campeonato nacional? Mais do que isso: e se esse canal entra no mercado para disputar a compra de direitos de transmissão de diversos campeonatos, como uma emissora comum? É o que está acontecendo em Portugal.

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A briga pelos direitos de transmissão no futebol é sempre acirrada. As emissoras querem o campeonato de futebol do país como uma atração e uma forma de ganhar dinheiro. Claro, transmitir os jogos do principal campeonato do país geram atração, além de audiência, e, portanto, patrocinadores. Mas quando o Benfica TV resolveu transmitir os jogos do clube, e não vender os direitos para a detentora, Sport TV, o caldo engrossou em Portugal. Porque o canal do clube mudou completamente de função e gerou enormes discussões.

Vamos ao começo: direitos de TV são normalmente uma forte fonte de renda dos clubes de futebol. Em Portugal, o Benfica é o time da maior e mais importante cidade do país, Lisboa, além de ter a maior torcida, à frente do rival Sporting e do Porto. Assim como também acontece em outros lugares do mundo, o Benfica, por ter mais torcida e uma marca forte, considera que tem que ganhar mais do que os demais das receitas de TV. Mais do que isso, estava constantemente insatisfeito com o dinheiro que recebia dos detentores dos direitos de transmissão, a Olivedesportos, dona de 10,01% das ações do Porto.

Soma-se a isso outro ponto importante. A diferença do rendimento do Benfica para os rivais, Sporting e Porto, estava grande. Em 2011/12, por exemplo, o Porto recebeu €12,4 milhões pelos direitos televisivos, o Sporting € 11,7 milhões e o Benfica € 7,9 milhões. Os encarnados, com razão, reclamavam de receberem menos. Ao usar o seu canal para transmitir, o Benfica não fatura na venda de direitos de transmissão, mas sim na comercialização dos jogos, como qualquer emissora. E a fórmula tem funcionado para o clube.

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“No mês de janeiro atingimos os 300 mil assinantes. Este número diminui naturalmente quando o campeonato acaba, mas só no primeiro ano tivemos receitas que rondam os € 30 milhões”, afirmou Domingos Soares de Oliveira, responsável pela TV Benfica, ao jornal Record, em julho. “Quando não éramos nós a cuidar das transmissões recebíamos € 7,5 milhões”, disse ainda o dirigente. O objetivo, segundo Oliveira, é chegar ao faturamento de € 40 milhões anuais.

O Benfica recebeu uma proposta de € 22 milhões da Olivedesportos para seus direitos de TV de 2013/14 a 2016/17. Recusou. Sabia que poderia ganhar mais, porque o Benfica TV já transmitia outros campeonatos. Criado em 2008, o canal de TV do Benfica comprou direitos de transmissão pela primeira vez em 2012, com a compra do Campeonato Brasileiro. A audiência do canal subiu 155% em relação a 2011. Em outubro daquele ano, a TV Benfica anunciou que na temporada seguinte os jogos do Benfica em casa seriam mostrados pelo canal, com exclusividade.

Em 2013, a TV Benfica comprou os direitos de transmissão da Premier League para as temporadas 2013/14 até 2015/16. Naquele mesmo ano, a Benfica TV anunciou a criação de um segundo canal. Já em 2014, a emissora encarnada adquiriu os direitos do UFC. O canal também comprou a Taça de Honra, campeonato jogado entre equipes de Lisboa. Isso gerou uma situação inusitada: durante a vitória do Sporting por 1 a 0, o canal interrompeu a transmissão, o que, claro, gerou muita controvérsia.

Nesta temporada, o Benfica TV mudou a sua marca para BTV, uma forma de evitar a repulsa dos rivais, que passaram a ser também seus clientes. Afinal, além dos jogos do Benfica em casa e da Premier League, o BTV transmite ainda os jogos do Benfica B em casa e do Farense, ambos da segunda divisão, a Major League Soccer e o Campeonato Grego, além de alguns jogos das Eliminatórias da Eurocopa e da Copa do Mundo.

Valor anuais para a temporada 2014/15

Porto: € 20 milhões
Sporting: € 27 milhões
Benfica: € 22 milhões (proposta não aceita)

A divisão dos direitos de TV na temporada 2011/12 (Foto: jornal Record)
A divisão dos direitos de TV na temporada 2011/12 (Foto: jornal Record)
Pressão pela venda coletiva

A ideia de centralizar a venda de direitos de TV é forte em Portugal. O presidente da liga, Mário Figueiredo, já falou sobre a venda coletiva de direitos e que isso beneficiaria todos os clubes, especialmente os menores. Atualmente, se paga cerca de € 75 milhões pelos direitos de transmissão, pagando individualmente a cada clube. A expectativa da venda coletiva é que esse valor chegue a € 120 milhões, podendo alcançar até € 145 milhões. Os grandes clubes passariam a ganhar cerca de € 40 milhões e os menores aumentariam suas receitas desse quesito.

O presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes, também declarou ser favorável à centralização da venda dos direitos. Uma tendência que é seguida em boa parte dos países, exceto a Espanha. Mas mesmo por lá, é provável que em um futuro próximo esse modelo seja seguido.

O problema é que o modelo que conseguiu sucesso da Benfica TV fará o clube exigir mais. O próprio Benfica sabe que a centralização da venda direitos televisivos é uma tendência, mas sabe que se colocou em uma posição muito mais confortável com o seu canal de TV. E sabe que ele mesmo é forte o suficiente atualmente para concorrer até com a Sport TV, que é cada vez mais acusada de monopólio. Tudo porque a Zon Optimus e a PT (Portugal Telecom), duas das maiores operadoras de TV por assinatura do país, tornaram-se acionistas do Sport TV. Os órgãos regulatórios portugueses estão analisando a questão e querem impor barreiras para que esse não seja um empecilho no surgimento de novos canais esportivos. Por enquanto, a questão ainda está sob análise e não houve conclusão. A própria Liga Portuguesa condena o Sport TV por seu abuso de poder, como em comunicado divulgado em junho.

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“O monopólio da Sport TV no mercado dos direitos de transmissões televisivas das competições nacionais configura um atentado à economia de mercado e à livre concorrência e propicia abusos como o que agora é punido”, diz o texto divulgado após o canal receber uma multa de € 2,7 milhões por abuso da posição dominante. Só o canal fechado transmite o Campeonato Português e sua assinatura custa € 29,90.

A questão em Portugal ainda está longe de ser resolvida e o fortalecimento da agora BTV tornará tudo ainda mais complicado. A venda coletiva é uma tendência que o próprio Benfica já admite, embora diga que precisa do reconhecimento devido e que “o número de assinantes mostra o tamanho da importância do Benfica”, como descreveu Domingo de Oliveira. Lá, como em boa parte do mundo, quem sofre com essas disputas são os times pequenos.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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