Em clima tenso

Portugal conseguiu a virada para cima da Holanda, classificou-se para as quartas de final da Eurocopa com uma bela atuação de Cristiano Ronaldo e chega à disputa de uma vaga na semifinal, no mínimo, em condições de igualdade com a República Tcheca – embora possa até ser considerado favorito. Por tudo isso, deve-se imaginar que o time vai para a partida eliminatória recheado de tranquilidade, certo?
Errado. Ou, pelo menos, meio errado.
Pois se o ambiente pode até estar bom dentro do grupo dos jogadores, a maior parte das declarações dadas à imprensa pelos atletas e pelo técnico Paulo Bento vai sempre no sentido do confronto, do partir para o ataque como forma de responder às críticas.
Paulo Bento e seus comandados fizeram questão de deixar bem claro que não gostaram da veemência como foram criticados, especialmente pela mídia portuguesa, após as duas primeiras partidas na Euro. Mas, tirante um ou outro exagero de algum jornalista, o fato é que as análises eram corretas em sua maioria: Portugal vinha mal, mostrava-se dependente demais de Cristiano Ronaldo e o craque não aparecia para resolver.
Por isso, depois da virada sobre a Holanda e da consequente classificação às quartas, resolveu-se fazer silêncio na zona mista. As poucas declarações foram dadas em entrevistas obrigatórias pelo regulamento da Uefa, como no caso da coletiva do técnico Paulo Bento. Entre os jogadores, Miguel Veloso e João Pereira falaram à emissoras de televisão parceiras da Uefa, assim como Cristiano Ronaldo – este por ter sido eleito o melhor em campo. Ao site brasileiro da ESPN, o próprio CR7 explicou que não poderia falar, pois havia sido feito um acordo entre todos os jogadores.
Obrigado pelo protocolo a responder às perguntas, o técnico Paulo Bento deu o tom de quão descontente estavam elenco e comissão técnica. Reclamou do que considera excesso de críticas sobre os jogadores, pediu para que elas fossem direcionadas a ele próprio e disse até ter certeza de que, enquanto a maioria dos portugueses comemorava a vitória diante da Holanda, alguns “já compravam cachecóis da República Tcheca”.
O alvo não declarado do treinador era Carlos Queiroz, ex-técnico da seleção portuguesa e atual comandante do Irã. Contratado por um canal de televisão para comentar a Euro, ele não vem poupando críticas ao treinador atual, o que claramente incomoda Paulo Bento.
Tanto Queiroz sabe que o desabafo era direcionado a ele que, quando o viu durante o programa de TV que participa, mesmo que seu nome não tenha sido citado, comentou com os colegas de bancada: “Não estamos aqui para falar de mim e sim para comentar sobre Portugal na Eurocopa.”
A atitude da seleção lembra um pouco o que fez a Itália na Copa do Mundo de 1982. Revoltados com as críticas, os jogadores italianos elegeram a imprensa do país como vilã e não deram entrevistas do final da primeira fase até a conquista do título. A diferença, agora, é que uma mera entrevista coletiva tem interesses comerciais, além dos jornalísticos. Quem paga para estampar sua marca exige que os encontros com a imprensa aconteçam.
Também por isso, o silêncio terminou nos dias que se sucederam ao jogo diante da Holanda. Mas o mal-estar, não. Escalado para conversar com os jornalistas, Raul Meireles, claro, foi questionado sobre o assunto. E respondeu secamente: “Todos temos o direito à liberdade. Se entendemos não falar ao final do jogo, os portugueses só têm de nos respeitar, como nós também respeitamos as críticas boas e más que têm surgido”, disse.
A continuidade ou não do clima ruim entre Paulo Bento e jogadores de um lado e imprensa do outro depende mais da qualidade do futebol que Portugal apresentar contra os tchecos do que do resultado da partida. Esteja a seleção classificada ou eliminada, é na coletiva obrigatória e zona mista desta quinta-feira que será medida a temperatura dos nervos dos dois lados. Um capítulo interessante, para conferir depois do jogo.
CURTAS
– Dono de inúmeras tatuagens pelo corpo, Raul Meirelles admite fazer mais uma, caso Portugal conquisto o título da Eurocopa. “Seria um bom motivo”, acredita.
– O goleiro brasileiro Helton, de 33 anos, renovou contrato com o Porto até 2014.
– O Olhanense anunciou o atacante Nuno Silva, 25 anos, ex-União da Madeira, como o quarto reforço para a temporada 2012/13.
– Pedro Proença foi eleito o melhor árbitro da temporada 2011/12 pelo Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol. Ele apitou a final da Liga dos Campeões e está trabalhando também na Eurocopa.
– Oito anos depois de fechar seu time B, o Sporting anunciou a retomada do projeto. A ideia dos Leões é que a equipe sirva como um estágio preparatório para os atletas da base que forem jogar pelo time principal.



