Portugal

Efeito imprevisto

O cenário era bastante propício para o Benfica. Além de ter um jogo da 20ª rodada adiantado, em virtude da partida contra o Herta Berlim, pela Liga Europa, no dia 18, os encarnados fariam, ainda, a partida de abertura da 18ª jornada. Ou seja: quando Braga e Porto, rivais diretos pelo título, entrassem em campo no final de semana, estariam com dois jogos a menos, e caso as Águias vencessem os dois duelos, “pressionariam” a dupla de concorrentes a também triunfarem em seus confrontos de toda e qualquer forma, para que os lisboetas não sumissem de vista.

Tudo indicava uma oportunidade perfeita para as Águias jogarem um grande peso psicológico aos adversários diretos. O que pareceu se desenhar, já que os benfiquistas, como era de se esperar, atropelaram o União de Leiria no jogo adiantado, em mais uma bela atuação da dupla Saviola-Cardozo, assumindo a liderança parcial, com 45 pontos. O resultado fez com que bracarenses e portistas não poupassem críticas à Liga, alegando que as circunstâncias beneficiavam o Benfica.

As reclamações foram ainda mais fortes no Minho, já que o Braga tinha acabado de ter dois de seus titulares suspensos devido ao já comentado caso da briga na saída de campo do Braga-Benfica do primeiro turno. Além disso, os jogadores encarnados acusados pelos arsenalistas acabaram livres de suspensão, o que provocou uma grande revolta entre os minhotos, que se colocaram como “os maiores prejudicados” do campeonato.

Mas, de volta à rodada, as preocupações de Porto e Braga tinham motivos. Afinal, o time da capital — que ainda inauguraria os embates da 18ª rodada contra o Vitória de Setúbal —, poderia abrir seis pontos para a dupla. E sabia-se que vencer os sadinos seria como dizer aos rivais: “fizemos a nossa parte para as próximas duas rodadas. Agora se virem”.

No entanto, o roteiro que se desenhava favorável às Águias acabou abreviado. Sem o mesmo brilho de partidas anteriores, com direito a um gol contra bisonho do superestimado David Luiz, um pênalti perdido e um gol (legítimo) anulado do adversário, os benfiquistas ficaram apenas no empate em 1 a 1 com o Vitória. Os dois pontos perdidos pelo hoje temporariamente líder, por consequência, tiveram o efeito mais indesejado pelo Benfica: passou tranquilidade a Porto e Braga, que arrebataram ótimos resultados na rodada.

Os portistas voltaram a vencer com facilidade, fazendo 3 a 0 em um razoável Naval, que dificultou as atividades na segunda etapa. Já os bracarenses, também sem dificuldades, levaram a melhor (3 a 1) contra o desesperado Belenenses, no Restelo, mesmo sem os suspensos Mossoró e Vandinho e atuando 75 minutos com um jogador a menos. Desnecessário dizer que a vitória injetou ainda mais ânimo aos minhotos e evidenciou a inteligência de Domingos Paciência, que acertou nas alterações pós-suspensões e expulsão.

A reação de equipes e torcedores — principalmente arsenalistas — com as vitórias mostrou que, se havia alguma pressão, esta já rumara à capital, já que o Benfica viu um cenário que poderia ser positivo se complicar. Mesmo o contido Domingos demonstrou mais abertamente uma grande confiança no título, além de “cutucar” a decisão encarnada em antecipar o jogo contra o Leiria. “Se (o Benfica) antecipou para gestão de esforço, fez bem, mas se depois vêm dizer “somos primeiros agora os outros que joguem” então assumam”, disse.

O passado recente das Águias é outro fator que veio à tona após o tropeço em Setúbal. Nesse período, os benfiquistas colecionaram expectativas e viram diversos tropeços em horas inadequadas serem decisivos. Com o atual elenco, o mais forte e competente dos últimos anos, tal medo ainda não é efetivamente notado, mas a fraca exibição de sábado, pelo momento em que ocorreu, deu o susto. E na atual circunstância do campeonato, foram dois pontos que não poderiam ter sido ignorados. Vencer o Belenenses, agora, é ainda mais obrigação do que normalmente seria.

Goleada motivadora

Por outro lado, é fora da Liga Sagres que o Benfica ganhou nova força. Se o tropeço contra os sadinos caiu do céu para Porto e Braga, o triunfo diante do Sporting, no Alvalade, por 4 a 1, nas semifinais da Taça da Liga, foi uma resposta bem significativa. Sim, era outro torneio — este sem o mesmo peso dos demais —, e sim, os Leões vivem uma temporada melancólica. Ainda assim, golear em um clássico, tendo amplo domínio sobre o rival, na casa do adversário e jogando boa parte do tempo sem cinco dos principais titulares, é um motivador e tanto.

O domínio não ficou apenas no placar: os encarnados tiveram quase 70% da posse de bola na partida, e administraram como quiseram grande parte do confronto. O Sporting, que teve João Pereira expulso no começo do jogo, viu Adrien ser sacrificado ainda na primeira etapa, para que Pedro Silva entrasse na lateral direita. Além disso, Pedro Mendes e João Moutinho saíram menos para jogo que o previsto. Sem contar que, efetivamente, o Sporting foi Sporting durante apenas aproximadamente 30 minutos: os quinze finais da primeira etapa e os quinze iniciais do período complementar. Nos outros 60 minutos, não foi sombra de sua tradição.

Esta coluna, há duas semanas, previu o pior para os Leões em caso de derrotas para os rivais nas taças. Mas os tropeços frente Braga e — o mais inesperado de todos — Acadêmica (em pleno Alvalade), foram tão graves quanto. A situação de Carlos Carvalhal é tão delicada que há torcedores já pedindo a volta de Paulo Bento. O meio-campo, que demonstrava ter evoluído em dezembro, voltou a ficar engessado, e mesmo a defesa, que parecia corrigida, voltou a dar problemas. Mesmo o regular Carriço tem falhado. Tonel e Polga, nem se fala.

Já pelos lados da Luz, além da vitória, a boa atuação de alguns dos substitutos, como Ruben Amorim, Cesar Peixoto (ainda que ande irregular) e Carlos Martins, pode incentivar Jorge Jesus a dar maior rotatividade ao plantel em jogos teoricamente menos complexos, especialmente agora que a temporada afunila, e o ritmo de partidas fica mais intenso. Até em virtude do visível cansaço que alguns do elenco já apresentam. Tal rotatividade é muito usada no Porto há um tempo, e veio dando resultados.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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