Portugal

E o Dragão rugiu. De novo

Não há torcedor do Porto que após a conquista da Liga Europa, na quarta-feira, que não tenha lembrado de 2002/03, quando os Dragões, à ocasião comandados por José Mourinho, garantiram o título da então Copa da UEFA, tendo um ainda aprendiz André Villas Boas na comissão técnica. Até aí tudo bem, não fosse o fato que o mesmo Porto, em 2003/04, chegaria ao título da Liga dos Campeões e, alguns meses depois, ao Mundial de Clubes, também com Mourinho e Villas Boas. E tantas são as comparações entre os dois treinadores que agora, com “Mestre André”, mais jovem treinador campeão no Velho Continente, no comando, já se aposta no repeteco da “mística”.

Razões para tal existem nem tanto pelo visto na decisão contra o Braga, mas pelo conjunto da obra do que é o Porto na temporada. Quatro competições finalizadas, três títulos e um futebol cuja análise transcende as fronteiras lusas – onde sempre haverá o questionamento da qualidade da liga nacional. Se as 27 vitórias e três empates nos 30 jogos disputados no Português, não bastarem, ou o recorde europeu de 37 tentos assinalados na vitoriosa campanha concluída em Dublin forem “irrelevantes”, a tranquilidade com a qual os portistas bateram seus rivais dão o apoio que falta à tese de que, hoje, o Porto é uma das potências da Europa. Como se verá mais adiante.

Primeiro, o jogo…

Mesmo sem uma partida vistosa, o Porto não chegou a ser seriamente ameaçado pelo Braga. Na primeira etapa, os bracarenses conseguiram impor seu jogo, dificultando o rival com uma marcação bastante forte que emperrou o setor de criação portista. Domingos Paciência viveu, por assim dizer, dois momentos. Acertou ao surpreender e mandar a campo dois volantes (Custódio foi titular com Vandinho, rendendo Leandro Salino), que pudessem anular a armação com João Moutinho e principalmente Freddy Guarin. Mas errou ao arriscar Alberto Rodriguez no miolo defensivo, visto que o peruano, como se viu, estava longe de seu melhor ritmo e destoando do que foi na temporada.

Durante 43 minutos, a mudança de Paciência no meio deu certo. Guarin até vinha bem, visto que mesmo fortemente marcado, buscou se movimentar e, de alguma forma, “liberou” espaços para Hulk comandar as ações portistas caindo pela direita. O brasileiro fez da vida de Sílvio – que embora tenha qualidade, teve atuação infeliz na decisão – um inferno, por vezes passando em suas costas, mas ainda sem encontrar Radamel Falcão Garcia, bem visado pela zaga do Braga. Os minhotos pouco avançavam, é verdade, mas como conseguiam conter o ímpeto portista, ganhavam o meio-campo. O homem da ligação seria Hugo Viana, mas o meia, em má atuação, não conseguia achar o ataque.

Aos poucos, porém, Guarin começava a achar mais brechas, caindo mais próximo da direita, e em uma delas, após um passe errado de Rodriguez, cruzou a bola na cabeça de Falcão, sem o acompanhamento de Paulão. Gol, do título, e para muita gente, veio o pensamento: agora o Porto vai atropelar, tal qual ante Spartak e Villarreal. Não foi bem assim, muito porque os dois times se conheciam bem. De um lado, o Braga sabia que não adiantava se abrir e mudar o sistema de jogo. Do outro, o Porto também sabia que o Braga não iria se alterar e até por isso preocupou-se essencialmente em manter o jogo dominado a buscar desenfreadamente outros gols, como em jogos anteriores.

E os Dragões souberam controlar o jogo. Nem tanto por uma atuação brilhante, visto que apesar de Hulk e Guarin puxarem os contra-ataques e terem uma atuação de destaque, o time não os acompanhou, deixando-os, por vezes, quase isolados contra a defesa bracarense – em especial Paulão, que fez grande partida, falhando apenas e justamente ao não acompanhar Falcão no gol. Na verdade, o time portista, se não deu na técnica, administrou a partida do jeito que ela de fato estava — truncada — fazendo disso algo favorável, aproveitando-se da falta de um talento que pudesse desequilibrar o jogo para o Braga e do principal: tranquilidade, mesmo no alto da pressão minhota, para decidir.

Não foi, como já dito, uma atuação “à Porto”. Mas foi a atuação de uma equipe que, mesmo quando não estava bem, adaptou-se às suas dificuldades e às impostas pelo rival para tomar conta de uma partida em que os nervos, naturalmente, ficam mais aflorados, que é o caso de uma decisão. O Braga, por sua vez, fez o que pode. Marcou bem, truncou a técnica portista e teve apenas uma (e fatal) falha. Domingos Paciência ainda mexeu bem para o segundo tempo, corrigindo-se ao substituir Rodriguez e lançar Kaká e mandar a campo Márcio Mossoró, que fez muito mais do que Hugo Viana, a quem rendeu. Alan, porém, de quem muito se esperava, esteve sumido. E Lima, chegou a seu 15º jogo sem marcar…

Muito tem se falado que foi um jogo sem graça, abaixo do esperado. De fato, a partida não foi emocionante e os momentos de desespero dos minhotos, no fim do jogo, pouco assustavam Helton. Porém, já era aguardado que o Braga fosse atuar firme na marcação – como o fez – e que o Porto seria o time a atacar – como ocorreu. E já se sabia que não seria uma partida para muitos gols, visto que dificilmente Paciência abriria mão da defesa e que Villas Boas, por sua vez, teria mais problemas para superar a já conhecida marcação bracarense que para encarar “novidades”, por assim dizer, como eram Villarreal ou Spartak. Mas se faltou brilho, é inegável que o jogo em si é motivo de orgulho para Portugal.

… e novamente, o Porto

Independente de esta fase final ter sido conquistada mais “na raça” do que “na qualidade”, pode-se concluir que o processo europeu portista foi concluído com êxito. Mais do que nos números (além dos 37 gols, foram 12 vitórias, dois empates e apenas duas derrotas), no futebol apresentado. Ou não é plausível considerar que o Porto de Villas Boas possa estar, hoje, entre os 5 melhores times da Europa? Especialmente do meio para frente, com a segurança de Fernando, a visão de Moutinho, o grande momento de Guarin e os gols de Falcão e Hulk – sem esquecer a regularidade de Varela –, é difícil ver outras equipes muito melhores no continente. Até existem, mas não o demonstraram como fez o time tuga.

Até por isso, imaginar o Porto repetir a “dobradinha” de 2002/03 e 2003/04 e surpreender na Liga dos Campeões 2011/12 é palpável, já que André Villas Boas e a (ótima) base do elenco – inclusive Hulk e Falcão – permanecerão no Estádio do Dragão. Mas é algo que exigirá um ou outro ajuste. É necessário, por exemplo, um zagueiro que seja uma opção mais segura que Maicon a Otamendi e Rolando. Outro setor a ser observado é a lateral direita, já que Sapunaru (que é reserva) é limitado, e, além dele, há apenas Fucile. Para o ataque, já há movimentações: chegam para 2011/12 o talentoso Iturbe e os bons Kleber Pinheiro e Djalmir (ambos ex-Marítimo) para “concorrer” com Walter e James Rodrigues.

Do ponto de vista técnico, o Porto de Villas Boas é até melhor que o de Mourinho, ainda que este último tivesse um grupo mais seguro na defesa, com Ricardo Carvalho e Jorge Costa, e contasse com Deco em grande fase. Os resultados de “Mestre André”, por sua vez, já superam os do “Special One” no comando dos Dragões, tanto pelos resultados na Liga Zon Sagres como pela série de conquistas na mesma temporada. Sinais, naturalmente, que só atiçam mais a confiança portista para a época que virá. E após uma série tão avassaladora de títulos – agora inclusive continentais –, e a regularidade acima da média apresentada em 2011/12, fica a dúvida, para dentro e fora de Portugal: quem vai segurar o Porto?

Vice, mas campeão

Apesar da derrota, o Braga se despede da temporada com o orgulho inabalado. Durante quase a primeira etapa inteira, a equipe, embora dominada, soube neutralizar um rival muito superior. Errou uma vez e acabou sem o título. No segundo tempo, sem um jogador mais “cerebral”, sofreu para encontrar brechas e não passou pela zaga portista. Muitos ainda vão dizer que Custódio, aos 4 minutos do primeiro tempo, perdeu o gol do título, ou que Mossoró, no começo da segunda etapa, mandou nas pernas de Helton o empate. Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. O Braga, como dito acima, fez o que pode e dentro de suas opções e de sua conhecida forma de jogar, foi guerreiro e fez uma boa partida.

Claro que a derrota suscita as críticas a um elenco tecnicamente bem inferior a outros que deixou pelo caminho. Algumas não deixam de ter fundamento, visto a ineficácia de Lima, o nervosismo de Hugo Viana e a apagada atuação de Alan, de que muito mais se esperava. Mas não se pode esquecer o que esse Braga, como “time”, mostrou. Foi mais “time”, por exemplo, do que Benfica, Dynamo Kiev e Liverpool. Todos bem superiores sob a ótica técnica (alguns mais do que outros), mas que como grupo, não se acertaram em campo e sucumbiram à organização bracarense. Observe-se aqui que foram falados os nomes de três equipes européias fortes e perigosas – duas delas muito tradicionais – que foram eliminados pelos minhotos.

O saldo da aventura bracarense é altamente positivo. Um vice-campeonato continental – que certamente provocará reações no rival Vitória de Guimarães (o que é positivo, diga-se) —, uma estreia em Liga dos Campeões com triunfos contra equipes tradicionais, como Celtic, Sevilla e Arsenal, e, naquele que, talvez, foi o momento mais bonito da decisão, os aplausos dos enfileirados jogadores do Porto e de todo o estádio de Dublin, quando a equipe recebeu a medalha de prata. O reconhecimento de um campeão e da Europa à sensação do Velho Continente na temporada. Além da certeza de que voltará à Liga Europa em 2011/12, ainda que sem grande parte dos que estiveram na Irlanda nesta quarta.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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