Portugal

E alguém duvidava?

No domingo, o Porto confirmou o que todos já esperavam desde, aproximadamente, a sexta rodada do certame: garantiu o título português da temporada 2010/11. Conquista que veio com ainda cinco jogos pela frente, com 16 pontos abertos ao segundo colocado e arquirrival Benfica, e incríveis 31 de vantagem ao Braga, terceiro colocado.

Campanha invicta, com 23 vitórias e somente dois empates, na qual os Dragões contam, ainda, com o artilheiro do certame (Hulk, com 21 gols) e o terceiro principal goleador (Radamel Falcão Garcia, 11 gols). Têm o ataque mais positivo (58 gols) e a defesa menos vazada (apenas 9 tentos sofridos). O maior campeão português dos últimos 20 anos – período no qual conquistou 14 títulos nacionais – retomou o comando do futebol tuga.

A reconquista da liderança em Portugal, perdida na temporada passada após a grande temporada do Benfica, veio após o clube contar com alguns fatores importantes, que passam pelo planejamento, desempenho dentro de campo e, naturalmente, a sorte. Mesmo levando em conta a possibilidade de ter esquecido alguma outra questão relevante, a coluna levantou sete “motivos” para a tranqüila conquista portista na Liga Zon Sagres.

Planejamento pré-temporada

O Porto soube se armar para a temporada. Trouxe um treinador jovem (André Villas Boas) identificado com o clube e que já havia trabalhado na equipe (fora auxiliar de José Mourinho e atuou também com Bobby Robson), que deu sangue e alma novos ao time. No mercado, trouxe, dentre suas contratações de mais impacto, nomes pontuais.

Vejamos: um meia-armador (João Moutinho); um atacante que pudesse ser uma opção a Falcão (Walter); um volante para disputar posição com Freddy Guarin que vinha em má fase (Souza); um zagueiro para o lugar de Bruno Alves (Nicolas Otamendi) e um ponta de potencial, capaz de disputar posição com Silvestre Varela ou Hulk, conforme andasse a temporada (James Rodrigues).

Destes, apenas Walter verdadeiramente não rendeu o esperado, já que Souza, embora tenha feito algumas boas partidas, não teve espaço com a regularidade de Fernando e a ótima retomada de Guarín. E de quebra, ainda se viu a boa surpresa de Emídio Rafael, trazido como opção a Álvaro Pereira pela esquerda e que, até se lesionar, colocou a titularidade do uruguaio em dúvida.

Acerto tático

Villas Boas tem o mérito de não ter feito grandes modificações. Na pré-temporada, não se preocupou com resultados e se atentou essencialmente aos testes com os jogadores que possuía. Diferentemente do Sporting, por exemplo, que teve uma pré-temporada até vitoriosa, mas na qual, ao mesmo tempo, o então treinador Paulo Sérgio não encontrara aquele que julgaria ser o time ideal.

E foi nesse período que o técnico fez a primeira modificação que faria diferença: adiantou Belluschi para cuidar do apoio ao ataque, encaixou Moutinho na armação. O argentino viveu seus melhores momentos no clube, enquanto o ex-Sporting mostrou o futebol que o destacou em Alvalade anos antes.

Mais adiante na temporada, mais uma mudança: aproveitou um ascendente Guarín no lugar de Belluschi, dando-o menos responsabilidade defensiva e permitindo que atuasse mais a frente, mantendo a liberdade de armação com Moutinho. Mais equilibrado que Belluschi no tocante ao apoio ofensivo, o colombiano viveu grande momento. À frente, sem invenções: três homens, um mais avançado (Falcão) e dois pontas de apoio (Hulk e Varela). Deu certo.

André Villas-Boas

Há muitos que questionam a importância de um treinador em uma equipe, mas reconhecem que José Mourinho é capaz de mágica em seus times. Embora não admita e desconverse quando as perguntas feitas a si envolvem o treinador do Real Madrid, André Villas Boas não esconde que é “seguidor” do Special One. Boa parte da conquista dos Dragões passa pelo comandante de apenas 34 anos.

É capaz de mudar a alma e a determinação de seu time, além de ser um profundo conhecedor técnico e tático do material que tem em mãos. Já mostrara isso na Acadêmica, e confirmou seu talento – como já comentado na coluna passada – no Porto. Soube mexer quando necessário em sua equipe, e não mudou sua forma de atuar independente do rival (fosse Benfica, Besiktas ou Naval), sempre se postando à frente.

Com vibração no banco, nos treinamentos e nas coletivas – até nelas, seu discurso, por vezes ácido, lembra o do técnico ao qual é comparado e tido como sucessor – “mister André” não foi exatamente uma revelação. Mas mostrou que, mesmo tão jovem, já é uma realidade. Não à toa, seu nome é colocado na mira da Internazionale antes mesmo dos italianos apostarem em Leonardo.

Tropeços do Benfica

Todo campeão precisa de sorte. Com o Porto, não foi diferente. E a sorte aí se viu logo nas primeiras rodadas. Atual campeão e mais popular e badalado clube português, o Benfica teve um começo de temporada tétrico. Somou somente três pontos em quatro partidas, ficando desde então nove pontos atrás dos Dragões. Tudo dava errado aos principais rivais portistas na briga pelo caneco.

A derrota em casa, com um gol quase do meio campo, sofrido nos acréscimos da segunda etapa, para a Acadêmica, mostrou que a temporada não seria um piquenique às Águias. O tropeço ante o Nacional assustou ainda mais. A vitória contra um combalido Marítimo não convenceu. E a derrota para o Vitória de Guimarães, onde o time foi dominado, parecia o cúmulo do inacreditável. Era o pior início encarnado de sempre.

Em dado momento, o Benfica acordou e emplacou uma grande série de vitórias. Parecia determinado a “assustar” o Porto. Eis então que apareceu o Braga no caminho, e com um petardo de Márcio Mossoró, os Arsenalistas limaram as chances de título benfiquistas, a ponto de o próprio Jorge Jesus, embora sem essas palavras, “entregar os pontos” do campeonato.

Decisivo no clássico

Os clássicos são, em torneios com poucos candidatos ao título, partidas decisivas. Claro que, geralmente, são os detalhes (leia-se: partidas contra times pequenos) que costumam ser cruciais para o campeonato. No entanto, mais do que os três pontos, o duelo contra o rival é aquele que dá a letra da motivação para o desenrolar do torneio. Até por isso, o Porto-Benfica do primeiro turno, até mais que o de domingo, foi determinante.

Muito do título portista passa pelo 5 a 0 aplicado no Dragão sobre o Benfica. O placar quase derrubou o elogiado técnico encarnado e expôs a diferença dos dois times, nem tanto no patamar técnico, mas na ótica da motivação e da eficiência. O Porto dominou o jogo como quis, e quando teve a oportunidade, raramente perdeu as chances.

No returno, no jogo do título, novamente faltou ao Benfica a motivação necessária. E tal qual no Dragão, o Porto foi extremamente eficiente. Ainda que com uma ajudinha de Roberto no lance do primeiro gol, os portistas atacaram o necessário para confirmar a vitória. Comandaram as ações mesmo no Estádio da Luz, trocaram bolas e envolveram o rival. Segunda vitória no clássico, 25º título na estante.

Hulk

O “Incrível” viveu uma temporada de sonho. Disparado o melhor jogador do Campeonato Português, o brasileiro revelado pelo Vitória, dono de um futebol de velocidade, força e oportunismo, encantou inclusive equipes das ligas espanhola (Real Madrid declarou interesse) e inglesa (Manchester United e principalmente Manchester City manifestaram vontade de contar com o jogador).

Hulk não é exatamente um goleador. Nem centroavante é. Mas conta com faro de gol e ótimo posicionamento. Atributos que o tornaram, desde os primeiros jogos, o principal artilheiro da equipe e do campeonato. Tanto que na ausência de Falcão, por lesão, Villas Boas optou em confiar em Hulk para o posto de centroavante – que não é sua posição de origem, diga-se – a apostar, por exemplo, em Walter.

Paralelamente a seu desempenho no Porto, o “Incrível” entrou de vez na luta por uma vaga na seleção brasileira para 2014. É, ao menos, um reserva imediato a um dos pontas que Mano Menezes levará a campo (como Neymar, possivelmente). Se seguirá no Dragão para 2011/12, não se sabe – sua cláusula é absurda aos olhos internacionais (100 milhões de euros) –, mas que os Dragões receberão inúmeras sondagens, não é impossível prever.

Sucesso europeu

O Schalke 04 faz ótimo papel na Liga dos Campeões, mas, paralelamente, tem desempenho pífio europeu. Não que seja raro um clube ter campanhas distintas assim, mas quando estas andam em uníssono, é evidente que o ambiente e o resultado são bem melhores. É exatamente o que se passou no Dragão. O futebol mostrado na Liga Europa não deixa mentir, a ponto do Porto ser hoje o grande favorito ao título do torneio.

A campanha é excelente. São 12 jogos e 10 vitórias, com apenas uma derrota, para o Sevilla. O time tem, ainda, o vice-artilheiro (Falcão, com 7 gols), com um tento a menos que o principal goleador do certame (Giuseppe Rossi, do Villarreal). E o importante nessa história: o clube soube levar os dois torneios de forma paralela, tendo aproveitado o belo começo de temporada e o tropeço dos rivais a seu favor, para conduzir o certame.

Claro que é difícil prever se com uma Liga dos Campeões ocorrendo ao mesmo tempo, o Porto teria o mesmo desempenho. O que não desmerece o trabalho que foi feito para que as duas principais competições da equipe na temporada fossem disputadas em pés semelhantes de aplicação.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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