Portugal

Dois terços de confiança

 O embate entre Portugal e Brasil era bastante esperado, e até por isso é compreensível a insatisfação de torcedores de ambos os lados com o placar inalterado. Muito motivado, é verdade, pela situação da dupla na tabela do grupo e pelo clima de “revanche” dos 6 a 2 do ano passado. No entanto, os tugas até podem olhar de forma positiva para o empate sem gols em Durban. Pela ótica meramente do resultado, além da vaga ser selada, a equipe das Quinas chegou a 19 jogos sem derrotas, tendo sofrido somente três gols nesse período. Já observando o desempenho em campo, pode-se dizer sim que os portugueses fizeram uma boa partida, dentro do que se propuseram a apresentar.

Boa, mas não ótima. Apesar da atuação segura da defesa e do meio-campo, ficou claro que o resultado só não foi melhor porque faltou um pouco mais de ousadia ao time de Carlos Queiroz, nem tanto pelo esquema aplicado no início da peleja, mas por não ter aproveitado as brechas que surgiram ao longo do jogo. Algo crucial para quem afirma estar na briga pelo título. Aliás, mais uma vez, o treinador tido como previsível surpreendeu. Mexeu no esquema e nas peças de seu tabuleiro. Não foi tão eficiente na mudança dos jogadores como na goleada sobre a Coreia do Norte, mas, pode-se dizer, acertou a mão na tática, contando com as limitações brasileiras para anular as ações dos rivais.

Queiroz levou a campo seu 4-3-3 adaptado para uma forma mais defensiva. Para quem esperava – como este que vos escreve – que a dúvida ficasse em quem seria o atacante mais centralizado (Liedson ou Hugo Almeida), os burros foram para a água. Nem um, nem outro. O treinador português levou a campo Danny e Duda e tirou Simão e o eventual centroavante, jogando, na verdade, em um 4-5-1. Manteve Tiago e Raul Meireles na armação, mas atuando com mais cautela e se revezando em eventuais subidas. E mesmo já tendo visto isso não dar certo em outras oportunidades, deixou Cristiano Ronaldo sozinho no ataque. Sozinho mesmo.

Não foi só isso. Inicialmente, imaginava-se que Queiroz fosse apostar nas limitações do lado esquerdo brasileiro, devido aos espaços que deixava Michel Bastos em suas constantes subidas. Curiosamente, o técnico tuga levou a campo sua terceira opção para a lateral direita: o zagueiro Ricardo Costa (que até que não comprometeu). Ou seja: nada de avanços, pelo menos dos laterais. Estes teriam mesmo funções mais de contenção, para que os pontas fossem os responsáveis por auxiliar o ataque. Como se sabe, porém, Duda voltou a fazer uma partida fraca, e aí coube ao lateral Fábio Coentrão, de excelente Copa até o momento, fazer as vezes à frente quando necessário.

Em campo, Portugal passou bocados complicados no primeiro tempo. Chegou pouco e teve seu esquema mais defensivo testado. Testado e aprovado, pode-se dizer. Bruno Alves e Ricardo Carvalho foram bastante seguros e Eduardo ganhou moral com a torcida, especialmente após a grande defesa no chute de Nilmar, que conseguiu bloquear para as traves, num lance que misturou uma dose de eficiência com outra de bastante sorte. Quem quase comprometeu foi Pepe, outra surpresa na escalação de Queiroz, que mostrou estar visivelmente sem ritmo para substituir Pedro Mendes (que acabou entrando em seu lugar na segunda etapa) e optou em ter uma briga particular com Felipe Melo.

Na segunda etapa, porém, a seleção das Quinas cresceu e teve seu melhor momento. O meio-campo e a defesa portuguesas anularam de vez qualquer tentativa ofensiva de um Brasil sem criação alguma, deixando claro que o plano de Queiroz deu resultado. Rechear o meio e impedir a penetração da equipe canarinha. Além disso, Simão (entrou no lugar de Duda) e Danny saíram um pouco mais para o jogo, e até Cristiano Ronaldo, que esteve totalmente apagado no primeiro tempo, apareceu, ainda que claramente necessitando de um outro companheiro para o ataque. Poderia até ser o veloz Liedson, mas o técnico português, quando mexeu, optou em trocar seis por meia dúzia, sem arriscar.

O placar inalterado bastou para levar Portugal à segunda fase pela quarta vez na história, e deixou uma boa impressão sobre a capacidade defensiva da equipe. A campanha também mostrou que Raul Meireles e Tiago, embora não sejam brilhantes, sabem intercalar partidas jogando mais recuados mas com algumas chegadas perigosas (como contra o Brasil), ou mais avançados e com mais liberdade para auxiliar o ataque. Confirmou também que Fábio Coentrão é o grande nome dos tugas no Mundial, apesar de Cristiano Ronaldo ter sido eleito pela FIFA o melhor em campo nas três partidas realizadas até o momento e de ser, na verdade, um lateral improvisado há apenas um ano.

Da mesma forma, porém, mostrou que Carlos Queiroz não precisa ser tão cauteloso. Conta com um atacante como Ronaldo, que mesmo sem brilhar pela seleção, consegue criar lances perigosos e assustar as defesas rivais, e até por isso, não pode deixá-lo sozinho à frente. Também não é legal colocá-lo fixo em uma ponta do campo – geralmente, o camisa 7 tem caído pela a esquerda, justamente um dos setores mais congestionado do ataque luso. A questão não é nem tanto Ronaldo jogar centralizado, mas não ficar sozinho à frente. Na segunda etapa, em certos momentos, só se via o atacante na metade brasileira do campo, andando.

Não que Queiroz tenha “evitado o jogo”, como alguns insistem. Pelo contrário, tanto que teve um dos lances mais perigosos da partida, e pelo menos um lance questionável – um suposto toque de mão de Juan na grande área – não marcado. Acontece que se contra um Brasil remendado, bastava um empate, contra a Espanha só a vitória vai interessar. E será uma partida bem mais complexa, tendo em vista o poderoso meio-campo da Furia e o ataque Torres-Villa. Após essa sexta, é difícil não crer que o técnico voltará a congestionar o meio e confiar na até agora impenetrável defesa. Tudo bem. No entanto, precisará de mais alguém com Ronaldo à frente. Dar mais liberdade a Coentrão, voltar com Simão ou até manter um Danny mais ofensivo são possibilidades.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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