Dois lados da moeda

O futebol de clubes português viveu nesta rodada da Liga dos Campeões momentos distintos. Na terça, presenciou uma vitória histórica do Braga, uma das equipes mais questionadas da competição, sobre o Arsenal, que tornou reais (mesmo que dependentes de um verdadeiro milagre) as chances de classificação dos minhotos às oitavas. Na quarta, porém, o Benfica, talvez o clube do país em que se recaiam as maiores esperanças na competição, decepcionou, sendo inacreditavelmente goleado pelo Hapoel Tel-Aviv e já estando eliminado na LC.
Parafraseando Augusto dos Anjos (1884 – 1914), comecemos pela “mão que bate“, para depois acionar “a que apedreja“. Ninguém no time encarnado conseguiu explicar o tropeço em Israel. Justamente contra o rival mais fraco da chave. Um Benfica irreconhecível, que teve infinitamente mais chances de gol, mas contou com uma ineficiência enorme dos atacantes Javier Saviola (que volta a apresentar a grande irregularidade que antecedeu sua chegada à Luz) e Alan Kardec, e uma tensão que beira o bizarro da antes segura defesa, em partida tétrica de Luisão e David Luiz.
Além do fracasso em campo, mais uma vez, Jorge Jesus deu sua parcela de contribuição. Carlos Martins fez uma partida memorável contra a Espanha pela seleção, mas foi apenas opção para segundo tempo, sendo preterido por Eduardo Salvio. Nada contra o jovem argentino, mas não era partida para apostas, tendo em vista o discurso do próprio Jesus de que a perda de pontos contra o Hapoel poderia ser crucial para uma eliminação. Outro ponto inexplicável foi a saída de Saviola – para a entrada de um Oscar Cardozo que estava há semanas sem jogar – logo no intervalo.
Some-se aos equívocos táticos e à fraca atuação ofensiva e defensiva das Águias a péssima preparação da equipe para uma Liga dos Campeões. Criou-se uma aura em Lisboa de que o time campeão nacional em 2009/10, com um futebol que realmente foi bastante eficiente e vitorioso, era suficiente para uma campanha de sucesso na Europa. Só esqueceram de lembrar que Ángel Di Maria e Ramires, principais e reais motores encarnados, não estavam mais na Luz. E isso fez muita diferença, algo que não foi observado na janela de transferências.
O Benfica preparou-se mal. Não se diz que Salvio ou Nicolas Gaitán são jogadores fracos. São jovens e com potencial. No entanto, era necessário, em virtude do torneio que se aproximava, de reforços à altura. Sobrecarregou-se os nomes de maior virtude no elenco, como Carlos Martins, Pablo Aimar e Fábio Coentrão, e a equipe não vingou. Com a queda de produção da dupla de zaga e de Saviola, outros atletas de confiança, a consequência é essa que se viu em Tel-Aviv. Algo que, à bem da verdade, já era desenhado pelo que o Benfica vem deixando de fazer na própria Liga Zon Sagres.
Por sua vez, o Braga foi responsável pelo “afago” ao futebol português na principal do Velho Continente européia. Uma vitória histórica sobre o clube ao qual os bracarenses se inspiraram na década de 20, adotando as cores vermelha e branca, e que mantém os arsenalistas na briga, ainda que dependendo de um verdadeiro milagre, para chegar às oitavas de final. Ainda assim, já é a melhor campanha de um português estreante na Liga dos Campeões. O único do país, aliás, que hoje pode sonhar em alcançar a próxima fase.
O jogo em si não foi dos melhores. Se no jogo de ida o Arsenal encontrou facilidade para se aproveitar do nervosismo e da limitação técnica dos portugueses, na terça foi a vez dos bracarenses mostrarem uma resistência defensiva bastante positiva. A dupla Moisés e Alberto Rodriguez voltou a apresentar a segurança que a caracterizou nos últimos tempo, e até mesmo o questionado Miguel Garcia, que atuou no lugar de Sílvio (que até poderia jogar, mas Domingos Paciência preferiu resguardá-lo um pouco mais, tendo este voltado de lesão recente) teve atuação convincente.
Os ingleses tiveram maior domínio de posse de bola, mas não conseguiam impor sua velocidade, ante à forte marcação bracarense, que apostava firmemente nos contra-ataques e em um veloz Matheus, que começava a ganhar espaço à medida que os Gunners tentavam ganhar espaço. E foi o brasileiro, em duas arrancadas, que explodiu o AXA, mantendo os portugueses mais vivos do que nunca, mas dependendo de um milagre: uma vitória por pelo menos quatro gols de diferença contra o Shakthar Donetsk, na Ucrânia, ou resultado melhor do que o Arsenal ante o Partizan, lanterna e já eliminado.
O que os arsenalistas precisam atentar, porém, é a campanha que fazem no campeonato nacional. Os fracos resultados nas últimas rodadas – com derrota inclusive no clássico do Minho para o Vitória de Guimarães – evidencia que a cabeça da equipe está totalmente voltada para a Liga dos Campeões. Os números, porém, são preocupantes no tocante a 2011/12. Afinal, já são seis pontos atrás de Benfica e Guimarães, que dividem o segundo lugar. O equilíbrio entre os dois torneios é um dos pontos de amadurecimento pelos quais times como o Braga necessitam passar para crescerem.



