Portugal

Dois lados da moeda

Ainda faltam dois anos para a próxima grande competição entre seleções que Portugal tomará (ou não) parte, mas já se sabia que a primeira convocatória pós-Copa do Mundo começaria a esboçar uma ideia do que pode ser a equipe das Quinas para uma possível Eurocopa em 2012 e, claro, para o Mundial de 2014. Até por isso, pode-se dizer que a lista de 19 jogadores para a estreia nas eliminatórias do torneio continental é promissora, ainda que, naturalmente, um ou outro nome possam ser questionáveis, e outros pudessem começar desde já a marcar presença.

Ao mesmo tempo, porém, as boas perspectivas que poderiam não só surgir, mas se estabilizarem, com a convocação, acabam ficando sob algumas dúvidas, já que o responsável pelos nomes, Carlos Queiroz, está na corda bamba junto à Federação Portuguesa de Futebol (FPF). O treinador foi suspenso por um mês pela federação e agora teve a pena aumentada para seis por uma entidade antidopagem, após ser acusado de destratar profissionais da equipe médica da FPF durante a preparação da seleção para o Mundial. Teve até uma demissão por justa causa sondada. Difícil crer que permanecerá por muito mais tempo oficialmente no posto.

Mas antes de falarmos de Queiroz, vamos observar brevemente a lista dos jogadores que atuarão contra Chipre, neste sábado, em Guimarães, e Noruega, em Oslo, na terça-feira. Lista esta que conta com 13 remanescentes da Copa do Mundo e seis “novidades” – ainda que apenas um seja efetivamente um estreante (Sílvio, do Braga).

Goleiros: Eduardo (Genoa-ITA) e Beto (Porto) / Rui Patrício (Sporting, na espera)

Nenhuma surpresa quanto ao primeiro nome, já que Eduardo fez uma Copa do Mundo muito boa e vem de temporada extremamente elogiada pelo Braga. O nome de Beto é que pode até ser questionado, ainda que gere uma reflexão sobre a falta de goleiros de qualidade no futebol português. O goleiro não é titular de seu clube, e portanto não tem o mesmo ritmo que outros arqueiros, talvez até semelhantes sob a ótica técnica, mas que teriam mais intensidade de jogo. Rui Patrício, por mais questionável e irregular que seja, talvez fosse um jogador mais adequado para a convocação direta (e não ficar de standby), ou mesmo Daniel Fernandes. Mas inquestionavelmente, trata-se do posto mais preocupante na equipe, sem grandes perspectivas. Basta ver que os dois melhores goleiros até o momento do campeonato são brasileiros: Bracalli, do Nacional, e Nilson, do Vitória de Guimarães.

Laterais: Sílvio (Braga), Miguel (Valencia-ESP) e Fábio Coentrão (Benfica)

Sílvio é ao mesmo tempo uma surpresa e uma justiça. Surpresa porque apesar da boa temporada pelo Rio Ave, chegou ao Braga como reserva de Miguel Garcia. Mas bastaram as duas exibições inquestionáveis contra o Sevilla para que o lateral, que pode atuar tanto pela esquerda como pela direita, se sobressaísse. Com a saída de Paulo Ferreira, o caminho está bastante aberto para que o bracarense, de apenas 22 anos, encontre seu espaço. Coentrão já nem precisa de muita apresentação, haja vista sua Copa do Mundo e sua preponderância hoje no Benfica. Miguel é que pode ser considerado um nome incompreensível. Já tem seus 30 anos e não se firma no Valencia, além de outros jogadores para o setor, mais jovens e com possibilidade de crescimento, merecerem uma observação. Caso de João Pereira, por exemplo. Até porque Bosingwa, recuperado, é o natural nome para a direita.

Zagueiros: Rolando (Porto), Ricardo Carvalho (Real Madrid-ESP), Bruno Alves (Zenit-RUS) e Nuno André Coelho (Sporting)

A base da Copa acabou mantida, como o esperado, com destaque à surpreendente chamada de Nuno André Coelho. Surpreendente em termos, já que o jogador, mandado pelo Porto ao Sporting como um “plus” no “pacote” da compra de João Moutinho, faz belo começo de temporada, entrosando-se rapidamente com Daniel Carriço, justificando plenamente a aposta, especialmente porque se trata de um jogador que entra num projeto de futuro na seleção. Este último, aliás, é um que merecia ter sido lembrado, e só se consegue imaginar que a ausência de seu nome se dá pela oportunidade dada a Coelho. Uma ausência sentida, diga-se, especialmente pela grande partida que fez ante o Brondby, no jogo de volta da Liga Europa. Mas oportunidades não devem faltar.

Volantes: Miguel Veloso (Genoa-ITA), Raul Meireles (Liverpool-ING) e Manuel Fernandes (Valencia-ESP)

Os dois primeiros nomes não surpreendem. Reserva na Copa, Veloso já se encaminharia naturalmente para ter mais preponderância na seleção, principalmente tendo em vista a natural perda de espaço que teria Pedro Mendes. Meireles, por sua vez, deve continuar a ser uma das peças principais da equipe nacional, como foi no Mundial. Já Manuel Fernandes, que até já fora convocado em algumas oportunidades anteriormente, terá nova chance mas agora terá a dura missão de justificar mais uma lembrança, especialmente por ter nomes como o já experiente Pepe – mesmo tendo uma Copa mais marcada pela violência do que pelo futebol – e o promissor Nuno Coelho, da Acadêmica, fazendo sombra – aliás, vale um olho atento neste último.

Meias: João Moutinho (Porto) e Tiago (Atlético de Madrid-ESP) / Paulo Machado (Toulouse-FRA, na espera)

Nomes que não chegam a surpreender. A saída de Deco era a deixa – se é que isso era necessário – para que Moutinho voltasse à equipe. Não tem rendido na mesma proporção dos colegas de Porto, mas é sabidamente um jogador de qualidade pelo meio. Tiago, por sua vez, tem o bom desempenho na Copa para dar forças a novas chamadas. Paulo Machado, por sua vez, foi uma surpresa interessante, ainda que lembrado apenas para a lista de espera. Revelado pelo Porto, nunca recebeu grande espaço no Dragão, mas fez temporada muito boa pelo Toulouse. O setor, porém, promete mudanças com o passar dos jogos. Nomes ausentes, como Ruben Amorim (machucado), Carlos Martins ou Ruben Micael, não seriam nada absurdos de surgir em novas chamadas.

Atacantes: Yannick (Sporting), Quaresma (Besiktas-TUR), Liedson (Sporting), Hugo Almeida (Werder Bremen-ALE), Danny (Zenit-RUS), e Nani (Manchester United-ING)

Não dá para passar despercebido pelo retorno de Quaresma à seleção, ainda que com a lesão de Cristiano Ronaldo. É a chance do atacante voltar a figurar com maior preponderância na equipe e confirmar a volta por cima que tenta dar na carreira, com o bom momento que vive no futebol turco. A presença de Yannick também é positiva, haja vista o momento de ascensão que vive, passando de um dos jogadores mais criticados do Sporting – muito por jogar bastante deslocado – para um dos mais importantes e visados do time. Varela perdeu vaga por lesão, mas é nome para próximos testes. Hugo Almeida, Danny e Nani não surpreendem. Liedson é que surpreendeu todos novamente. Não vem sendo efetivo e já não rendera como o esperado na Copa. A falta de centroavantes, porém, é um dos pontos que ainda contam a seu favor. Se um Orlando Sá, com uma maior sequência de jogos pelo Nacional, chegar a pelo menos um pouco do que dele se espera como homem de área, o ex-jogador de Corinthians e Flamengo está com os dias contados na seleção das Quinas.

O dilema Queiroz

Independente do final, judicial ou não, do imbróglio de Carlos Queiroz, é fato: não há mais clima para o treinador na seleção. Os jogadores, como fez Quaresma, tentam jogar panos quentes, dizendo que “seria bom estar sob o comando de Queiroz”, mas o ambiente, tanto perante o torcedor como ante a federação é dos piores, especialmente com o técnico (dentro de seus direitos, claro) recorrendo das punições (já levara um mês de gancho da FPF, e agora ganhou mais seis da Autoridade Antidopagem de Portugal – ADoP, entidade governamental) por “ter perturbado um controle antidoping durante estágio da seleção em Covilhã”.

Em linhas gerais, Queiroz se desentendeu de maneira ácida com representante do departamento antidopagem quando a seleção estava se preparando para o Mundial. O treinador alega que o horário em que a equipe chegou para o exame anti-doping era cedo demais, e os jogadores seriam acordados desnecessariamente fora do horário. No dia 19 de agosto, o comportamento foi punido pelo Conselho Disciplinar da FPF. Queiroz recorreu ao Conselho de Justiça. O processo acabou arquivado após CD considerar uma nota de culpa emitida pelo comandante da seleção. A ADoP, porém, não recuou e seguiu contra o treinador.

Gilberto Madaíl, presidente da FPF, evita ao máximo se meter mais do que está no impasse. No último dia 30, perguntado sobre o futuro de Queiroz – que, em suas declarações de defesa, dissera que contava com o apoio do mandatário -, limitou-se a dizer: “Não sei, vamos ver” E em visita à concentração da equipe, declarou somente que a federação lamentava o que estava a acontecer. Cenário geral dá a sensação de que as preocupações das partes envolvidas com a seleção não estão no nível de urgência que a situação demanda, ou então de que não se está tendo a habilidade ou sensibilidade para tratar o impasse.

Agora, Queiroz, revoltado com a nova punição, quer levar a polêmica ao Tribunal Arbitral do Esporte. Mas para tal, talvez fosse mais interessante a ele deixar o cargo, num processo que poderia muito bem ser discutido entre as partes envolvidas. Não somente pela ótica dos resultados (avançar às oitavas foi o objetivo mínimo estabelecido pela FPF alcançado pelo treinador, mas o desempenho ficou aquém de muitas expectativas dos torcedores), mas para que possa avançar com o processo da forma como entender ser melhor, colocando a seleção nacional a frente de questões pessoais e políticas.

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Equipe Trivela

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