Dessa vez, sem volta?

As coisas vão mal no Restelo. Com a derrota para o Porto, em casa, por 3 a 0, e as vitórias dos concorrentes contra o rebaixamento, o tradicional Belenenses, considerado por muitos a quarta força do futebol português, caminha para um destino que, hoje, parece irremediável: a queda para a Liga Vitalis. Não que tal situação seja novidade na parte azul de Lisboa. Ocorre que, em questão de cinco temporadas, é a terceira vez que o clube, matematicamente, pode encerrar a temporada entre os “rebaixáveis”. Se efetivamente cairá ou não…
A situação é assustadora. Em 24 jogos, são apenas 14 pontos somados, sendo duas vitórias, oito empates e 14 derrotas. Somente 13 gols marcados. O último triunfo, aliás, veio há pouco tempo (3 a 1, no Olhanense, no Algarve), e até renovou as esperanças do clube do Restelo. No entanto, o massacre sofrido em casa para o Porto derrubou novamente a equipe, que, nos seis jogos restantes (18 pontos em disputa, portanto), está nove atrás do primeiro time fora da zona de descenso, o Vitória de Setúbal (23 pontos). Ou seja: terá que fazer, em meia dúzia de “finais”, o que não fez em 24 jogos.
A série de confrontos que a equipe de Belém (região de Lisboa) terá pela frente também preocupa. Quatro dos adversários ainda brigam por vaga na Liga Europa (Paços de Ferreira, Marítimo, Vitória de Guimarães e União de Leiria), um luta contra o rebaixamento (Setúbal) e só o Rio Ave aparece sem maiores pretensões. Contra esses mesmos seis times, no primeiro turno, foram apenas três pontos conquistados (empates com Rio Ave, Marítimo e Setúbal), o que deixa ainda mais clara a dificuldade esperada.
Há quem, certamente, vá fazer uma relação com o que se deu no Fluminense, na década passada, nos anos de 1996 e 1997. Porém, apenas dois pontos podem ser considerados coincidentes nesse caso: ambos, no ano em que inicialmente caíram, foram salvos por “fatores externos”; e os dois, em suas novas chances, erraram as mesmas coisas que culminaram no primeiro rebaixamento: prepararam-se mal para a temporada, trouxeram apostas furadas e passaram o campeonato todo nas últimas posições.
No caso do Belenenses, o último dos “fatores externos” chama-se Estrela da Amadora. Para quem não se lembra, o Estrela teve sua inscrição no campeonato de 2009/10 indeferida por supostamente não ter condições de cumprir os “pressupostos financeiros” exigidos pela Liga de Clubes. O time de Belém acabou se beneficiando, já que fora o primeiro da zona de rebaixamento em 2008/09. Ganhava, assim, uma nova chance para reformular o trabalho e fazer uma campanha digna de sua tradição.
Na última temporada, mesmo endividado, o time azul contratou em peso, mas muito mal, e ainda viu um dos piores trabalhos do nada barato Jaime Pacheco, campeão português com o Boavista em 2000/01. Foram mais de 50 jogadores inscritos na Liga, com um orçamento ridiculamente limitado para tal. Já no fim da época, Viana de Carvalho assumiu o cargo de presidente, demitiu Pacheco, promoveu Rui Jorge, então treinador dos juniores, e veio com um discurso de que ia valorizar as canteiras do Restelo, que vinham bem em torneios de formação.
A mescla de atletas mais experientes com valores da base, como Pelé e Tiago Almeida, mostrou um time bem superior ao visto ao longo de toda a temporada 2008/09, ainda que já fosse tarde para evitar o rebaixamento “matemático”. Veio o caso Estrela, a permanência na elite, e a expectativa de que a mentalidade, de se dar continuidade a Rui Jorge e a um trabalho que trouxesse menos rombos aos cofres belenenses, era grande. Mas a desilusão do torcedor foi ainda maior do que no campeonato passado.
Novamente, uma grande leva de jogadores desembarcou no Restelo — inclusive o badalado Freddy Adu, que fracassou de forma retumbante, sendo usado apenas quatro vezes no certame, sem sucesso. Veio também João Carlos Pereira para o comando técnico, mas que durou somente até dezembro, quando deixou o cargo para Antonio Conceição, que até hoje permanece no posto, mais pela dificuldade em se arcar com as despesas de uma nova demissão do que efetivamente pelo trabalho do treinador.
Algumas contratações até obtiveram resultados positivos, como Yontcha e Lima, mas, em números gerais, o caminho percorrido no certame mostrou uma equipe sem padrão de jogo, desmotivada, e muito prejudicada por lesões — o que, naturalmente, evidencia a falta de profundidade do time, que, normalmente, já era bem fraco. Reforços foram pedidos para a janela de janeiro, mas sem sucesso, haja vista as necessidades administrativas do clube (botar salários em dia, etc).
Claro que a derrocada do tradicional Belenenses não é de agora. Para muitos, o início de tudo se deu com a construção do Estádio do Restelo, nos anos 50, que acabou se dando “de próprio punho”, enquanto José de Alvalade e Luz tiveram apoio da prefeitura de Lisboa. Gastos que acabariam prejudicando investimentos em anos seguintes. Coincidência ou não, foi justamente após esse período que o Belém deu início à queda, passando longe dos títulos nacionais e vendo o crescimento da atual tríade que domina o futebol luso.
A “teoria da conspiração” que naturalmente existe no que diz respeito à liga portuguesa já projeta a manutenção do Belenenses pelas dificuldades financeiras que vivem Vitória de Setúbal e, principalmente, Naval. Supondo que ambos passem pelos mesmos problemas da Estrela da Amadora, uma consequência seria o resgate dos azuis, mais uma vez. Prefere-se aqui, porém, não acreditar que a displicência com a qual o time do Restelo vem sendo tratado não se deve à garantia eterna de salvações em tribunais.
O rebaixamento parece impossível de ser evitado, como já avaliado, por diversas razões, tanto de tabela, como administrativas. Claro, resgatando-se novamente a comparação com o Fluminense, ainda é possível um arranque ao estilo do tricolor carioca no Brasileirão do ano passado, ainda que as circunstâncias sejam ainda mais difíceis aos lisboetas. No Restelo, já se projeta até a direção que assumirá as rédeas do futebol profissional na próxima temporada (tal qual foi feito com o Flu), na segundona.
Daí vem a pergunta: é melhor rezar para uma virada de mesa, ou tentar voltar por cima, superando os desafios da Liga Vitalis? Como fez o Guimarães, rebaixado em 2005/06, vice-campeão da Liga de Honra em 2006/07, surpresa em 2007/08, ano de seu retorno à elite, quando ficou em terceiro. Ou, ao menos repetir o próprio desempenho do fim dos anos 90, quando desceu em 1997/98, subiu como vice em 1998/99, e retornou com campanhas regulares, até os fiascos que se iniciaram em 2005.
Sim, há casos como o do Boavista, que desceu após o escândalo do Apito Dourado e desceu a serra. Mas aí, há de se avaliar o péssimo legado deixado nos cofres do clube, em virtude da corrupção de seus dirigentes, que afundou de vez um time, hoje, fadado à extinção. A seu favor, o Belenenses tem uma situação (por enquanto) menos grave, e um peso (político) maior que o dos enxadrezados. Não que descer de divisão seja algo bom, mas, pelo andar da carruagem, seria mais triste ser rebaixado pela terceira vez “em campo” e não cair, do que ir ao inferno, reformular (e até mudar de vez), e se reerguer.



