Desespero sadino

Depois dos três chamados clubes grandes em Portugal, há uma lista, também restrita, de times considerados médios. São aqueles que possuem uma boa parcela de torcedores e resultados relevantes em nível nacional. É onde está o Vitória de Setúbal, que, tal como o Corinthians, também tem em 2010 um ano teoricamente de festa: o de seu centenário.
A comemoração mais palpável, porém, dirá respeito a grandes contratações e eventos, e sim a ainda poder jogar, no dia 20 de novembro próximo, na primeira divisão. O que era considerado improvável após um início de temporada tétrico, tanto em campo como fora dele, mas que se mostra possível com uma sensível melhora no futebol apresentado.
A “virada”, por assim dizer, começou na 14ª rodada, em uma boa vitória, com gol aos 45 minutos da segunda etapa, sobre um ascendente Marítimo por 3 a 2, em casa. Nos treze jogos anteriores, eram apenas oito pontos somados e a lanterna da Liga Sagres em mãos. Isso porque, nas primeiras rodadas, o VFC ganhou a mídia da pior forma possível: sofrendo um vergonhoso 8 a 1 do Benfica, na Luz.
Tudo muito em virtude do plantel que foi formado após o sufoco da última temporada, em que o rebaixamento foi evitado na última partida. Apostando em uma renovação desenfreada, o Vitória trouxe o adjunto de Jesualdo Ferreira, Carlos Azenha, e uns punhados de atletas descarregados como água em Setúbal.
Junte isso à inexperiência clara do time, tanto em campo como no banco, e à situação financeira delicada, que, não há muito tempo, chegou a deixar o clube 10 meses sem pagar as comissões técnicas nas categorias de base. Já começa a ser possível compreender uma parte do que prejudicou a temporada sadina.
Chegaram ao Estádio do Bonfim jogadores com status de salvadores, como Guilherme di Paula e Álvaro Fernandez, além de muitos outros que “não sabiam nem andar direito”, como exagerou um diretor do clube ao presidente Fernando Oliveira. Ocorre que, como o Braga muito bem mostra na atual temporada, experiência de campo é importantíssima em Portugal. E isso faltou no time setubalense.
A instabilidade do elenco sadino ficou clara ao longo do primeiro turno, bem como a inexperiência de Azenha como técnico e o racha entre o próprio e alguns atletas do grupo, “marginalizados”, como disse o zagueiro Collin, pelo trenador. Só na preparação para a temporada, foram 60 jogadores testados, 33 mantidos no plantel e outros que, em duas semanas, já foram dispensados.
Segundo Fernando Oliveira, todos foram trazidos conforme pedido do treinador, apontado, à época, como sucessor de Quique Flores no Benfica, caso o oposicionista Bruno Carvalho conquistasse a eleição presidencial da Luz. A declaração de Oliveira veio pouco tempo depois de Azenha acusar a direção setubalense de ter indicado os jogadores.
Como se vê, era um relacionamento em que nenhum dos envolvidos se entendia, ou fazia questão de tal. Aos donos, faltou peito para impor limites ao técnico. Ao técnico, ficou evidente a falta de bom senso e experiência. O resultado, como se viu, foram mais custos à já delicada realidade dos bolsos sadinos, e decepção aos torcedores.
A chegada de Manuel Fernandes, quase dois meses depois, mudou bastante o balneário do Vitória. Primeiro pela já conhecida experiência do treinador em gramados lusos — Fernandes acabara de promover o União de Leiria à elite portuguesa. Em segundo lugar, o fato de ele ter jogado no próprio VFC. E, por fim, o fato de ser o comandante preferido por Oliveira desde 2008.
Mais do que novo gás, Fernandes recuperou jogadores desprezados por Azenha, como o experiente Bruno Ribeiro, revelado por ele no próprio Vitória, em 1997, junto de Frechaut e Mário Loja. O bom relacionamento com diretoria e jogadores trouxe confiança e, junto com ela, um padrão de jogo, além da indicação de nomes mais consistentes, como Ricardo Silva e Neca (ex-jogador da seleção). Boas expectativas permeiam também Henrique, ex-Corinthians.
A tática, ao que parece, deu certo, ainda que tenha demorado a pegar, em virtude da fragilidade de opções do elenco. Após a vitória sobre o Marítimo, vieram dois razoáveis empates — um sem gols contra o Belenenses (fora), outro em 2 a 2 contra o Vitória de Guimarães — e, mais recentemente, um terceiro empate, também em 2 a 2, com o complicado Rio Ave. Uma ainda frágil invencibilidade, mas que foi suficiente para tirar o clube da zona de rebaixamento e manter vivas as esperanças da permanência.
O cenário atual é bem oposto ao de duas temporadas, pelo menos do ponto de vista de resultados. Afinal, em 2007/08, os sadinos encerravam o certame com um honroso 6º lugar e o título da primeira edição da Taça da Liga, conquistado em cima do Sporting. O desempenho como um todo foi, sem dúvida, o melhor desde os grandes momentos nas décadas de 60 e 70, quando era nome constante em torneios internacionais.
Pelo menos em campo, escapar do retorno à segunda divisão ainda é viável, e pode ganhar novo gás no importante duelo de sexta, quando poderá ir à forra, em casa, contra o Benfica. Fora das quatro linhas, porém, a situação vem sendo de difícil controle. O clube vem encontrando dificuldades, por exemplo, para pagar as despesas com as demissões de Carlos Azenha e membros de sua comissão técnica, e já gastaram muito com contratações e dispensas.
O caminho, por hora, é do Vitória seguindo os passes do Belenenses, que, mesmo com sua tradição, amarga dívidas e decepções. Mas ainda há tempo de mudar, pelo bem do próprio futebol português, que corre risco de ver mais um de seus tradicionais clubes, haja vista a realidade dos azuis do Restelo e do Boavista, sucumbirem às impossibilidades financeiras enormes que, ano após ano, instalam-se na liga portuguesa.



