De calculadora na mão

Não dá para dizer que os resultados de Portugal nos últimos dois jogos do Grupo 1 das eliminatórias européias para a Copa de 2010 tenham sido ruins. Afinal de contas, os Tugas somaram quatro pontos em seis possíveis, em duas partidas fora de casa: contra a líder Dinamarca (empate em 1 a 1 no dia 5 de setembro) e a então vice-líder da chave, a Hungria (vitória por 1 a 0, no dia 9 de setembro). A lamentar, apenas, as duas vitórias que a Suécia alcançou no final de seus dois encontros – o que deixou os nórdicos com o segundo lugar do Grupo.
Portugal, agora, está na terceira posição do Grupo (13 pontos e 5 gols de saldo), ao lado da Hungria, que perde no primeiro critério de desempate (saldo de gols). A Suécia tem 15 pontos (6 gols de saldo), enquanto que a Dinamarca lidera com 18 (11 gols de saldo). Os Tugas têm apenas uma opção a partir de agora: vencer as duas últimas partidas, ambas em casa (Hungria, no Estádio da Luz, a 10 de outubro, e Malta, em Guimarães, a 14 de outubro). Além disso, ainda precisam torcer para que a Suécia perca para a Dinamarca na próxima rodada do grupo. Mesmo assim, só daria para alcançar a repescagem.
Se os dinamarqueses tivessem ganhado da Albânia em 9 de setembro (empataram em 1 a 1), estariam com 20 pontos e poderiam complicar as coisas para Portugal. Tudo porque já se especulava um acerto nórdico no próximo encontro do Grupo, entre Dinamarca e Suécia, no dia 10 de outubro: os dinamarqueses facilitariam as coisas para os vizinhos geográficos, que ficariam com a segunda colocação e iriam à repescagem. Agora, se perder para a Suécia, quem corre o risco de ir para a repescagem e a própria Dinamarca.
Caso o confronto nórdico fique empatado, a Suécia pode chegar a 19 pontos – contando com a vitória sobre a Albânia na última rodada. Mesmo número de pontos a que pode chegar Portugal, se este vencer os dois jogos que faltam. Aí, a vaga na repescagem seria decidida no saldo de gols. Neste caso, a equipe lusa, em tese, levaria uma pequena vantagem, já que é mais fácil para ela golear Malta do que a Suécia golear a Albânia.
Lusos-brasileiros resolvem
A grande ironia desta seleção lusa é o fato de os elementos nascidos no Brasil continuarem sendo os responsáveis por manter a equipe viva nas eliminatórias européias. Contra a Dinamarca, o “levezinho” Liedson resolveu – e salvou o time da derrota anotando um gol de cabeça no meio da alta defesa nórdica. Contra a Hungria, um passe de Deco chegou à cabeça do zagueiro Pepe, que anotou o gol solitário. Após a “Era Felipão”, são os luso-brasileiros que vão concedendo mostras de eficiência nos resultados da equipe.
O jornal Record não ficou alheio a isso e, na edição do dia 10 de setembro, estampou com ar esperançoso: “Talvez nos safemos – Mais um golo luso-brasileiro mantém Seleção na corrida”. A Bola colocou em sua primeira página: “Ainda vivos – golo madrugador de Pepe deu-nos a vitória em Budapeste”. Já o diário esportivo O Jogo preferiu intitular “Pepe rápido – sonho vivo”. A forma efusiva como Pepe comemorou o gol, realçando o emblema de Portugal na camisa, não passou despercebida pela imprensa lusa, o que dá mostras da garra do jogador na defesa da seleção dos Tugas.
A rejeição dos portugueses com relação à presença de brasileiros na seleção começa a arrefecer diante dos resultados. Prova disso é o texto do mesmo diário O Jogo, no dia 10 de setembro: “A chamada de jogadores naturalizados tem fomentado enorme discussão ao longo dos tempos, mas é com a contribuição de jogadores como Pepe, Deco e Liedson que Portugal continua a alimentar o sonho de estar no Mundial'2010.”
A par os luso-brasileiros e os resultados, permanece a impressão de que Portugal não tem atuado bem. Contra a Dinamarca, dominou as ações e atuou melhor, mas por pouco não ficou com a derrota. A ineficiência do ataque luso ainda é preocupante – e o fato de essa eliminatória poder ser resolvida no saldo de gols não pode passar ao largo das preocupações do técnico Carlos Queiroz, que ainda não convenceu no cargo. Se não tivesse desperdiçado tantos pontos em casa (somou apenas dois pontos em três jogos), Portugal estaria com as contas mais fáceis agora e não precisaria recorrer a calculadoras para especular sobre sua ida ao Mundial da África do Sul em 2010.
Golo de Letra
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza…
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.
Poema “Fim”, de Mário de Sá-Carneiro.



