Portugal

Crônica da morte anunciada

O Sporting andava vencendo e se mantendo no terceiro lugar da Liga Zon Sagres. O que nem de longe apagava o momento tenso que estava instalado em Alvalade. Era como se qualquer tropeço, contra quem quer que fosse e independente do torneio, pudesse provocar uma hecatombe nos Leões. Na estreia do segundo turno, jogando em casa, atuação pífia e derrota para o Paços de Ferreira, que vem apenas no meio da tabela e marcara até então apenas 12 gols em 15 jogos. E a crise, que parecia quieta, explode de vez, com José Eduardo Bettencourt entregando o cargo de presidente.

O adeus de “JEB”, como era conhecido e tratado inclusive pela imprensa do país, encaixa-se naquele típico “já vai tarde” que você evita falar ao amigo chato que te visita no momento mais inoportuno. Bettencourt não acertou boa parte do que tentou. Errou em contratações de jogadores e técnicos (Carlos Carvalhal e Paulo Sérgio nunca foram unanimidade), além de não conseguiu contornar problemas internos, como a polêmica saída de Ricardo Sá Pinto após este quase ir às vias de fato com Liedson, após uma vitória (!!) sobre o Mafra, pela Taça de Portugal.

Um cenário diferente, por exemplo, daquele em que foi alçado à chefia máxima leonina, em 2009, quando obteve quase 90% dos votos na eleição presidencial do clube. Bettencourt era considerado um profissional de carisma e intimamente ligado ao último grande momento de glória sportinguista: o título nacional de 2001/02. Combinações que acabaram determinantes para que ganhasse o pleito, mas que, como se viu, não o ajudaram a administrar as exigências para a temporada. A primeira delas: resolver o imbróglio Paulo Bento, cuja permanência na equipe era uma incógnita.

Sem pestanejar, Bettencourt soltou que era “Paulo Bento Forever”. A frase é até hoje recordada na imprensa portuguesa como uma daquelas “pérolas” do futebol. No entanto, mesmo com a situação do treinador ficando insustentável, JEB insistia em remar contra a maré e defender a permanência do comandante. Sem o hoje técnico da seleção, o dirigente correu atrás de novos nomes e já dava como certa a vinda de André Villas-Boas, então comandante da Acadêmica e profissional, inclusive, bem aceito pela torcida na ocasião. Acabou, porém, com a recusa de Villas-Boas (talvez por saber o que lhe esperava) e com Carlos Carvalhal, questionado desde que foi ao banco pela primeira vez.

Ainda no plano dos técnicos, também não conseguiu administrar bem o trabalho com o novo treinador. Curiosamente, algumas rodadas antes do fim da temporada, quando Carvalhal enfim engrenava com os Leões, acertando o padrão de jogo e levando a equipe à decisão da Taça da Liga após uma bela goleada sobre o Porto, Bettencourt anunciou que o técnico não continuaria em Alvalade. Por mais profissional que o possa ser um treinador – e por mais questionável que tenha sido o serviço de Carvalhal, como um todo –, concordemos: é bastante difícil trabalhar sem perspectivas de futuro.

Paralelamente, passou longe de se acertar em reforços. Notadamente, o Sporting não vivia a melhor das circunstâncias financeiras, devendo aplicar recursos de forma mais pontual. No entanto, o pouco dinheiro em caixa foi para contratações que, em sua maioria, fracassaram. Dentre os poucos que deram certo, estão Pedro Mendes (já bem rodado), e João Pereira, que depois de uma temporada difícil, tem mostrado potencial no atual campeonato. Nos demais casos, como Sinama Pongolle e mesmo Matias Fernandez (não pela ótica técnica, mas pela irregularidade), o tiro saiu pela culatra.

Não bastasse, acabou negociando os dois principais jogadores da equipe: Miguel Veloso, vendido ao Genoa para aliviar os cofres, e João Moutinho, a quem chamou de “maçã-podre” pela forma como saiu, quando era visível que, nos Leões, o meia não estava mais conseguindo crescer (a ausência do Mundial da África do Sul é um exemplo bem claro) no clube que o formou e que já havia rejeitado duas boas propostas de fora por ele. Basta dizer que, no Porto, Moutinho é um dos destaques da temporada.

O “maçã-podre” dirigido ao meio-campista, porém, não foi o único momento que Bettencourt deixou a emoção tomar o controle das ações. Em conversa com o colunista, o jornalista André Carreira de Figueiredo, do jornal online Academia de Talentos e bastante ligado aos bastidores do Sporting, resumiu, em algumas palavras, o que qualificou como “déficit de inteligência emocional” do ex-comandante leonino. Embora o termo seja forte, a leitura é de se fazer pensar:

“Desde que foi eleito, sua postura foi-se alterando para comportamentos cada vez mais erráticos e emocionais. O momento em que mudou foi após a eliminação do Sporting pela Fiorentina, em agosto de 2009 (na Liga dos Campeões). Ele sempre tinha sido uma pessoa bastante informal, sociável e afável a lidar com adeptos e com a imprensa, mas a partir desse jogo ele começou a mandar calar os torcedores, chamou alguns deles de terroristas, anormais e cretinos, disse que não era “corno manso”, prometeu expulsar sócios, tentou agredir um associado do Sporting no Hall VIP do estádio após Paulo Bento apresentar a sua demissão, ameaçou acionistas nas assembleias…”.

Adicionem-se a isso as constantes mudanças na diretoria de futebol (primeiro Sá Pinto, depois Costinha e, recentemente, a companhia de José Couceiro), a mudança no discurso de valorizar atletas revelados na Academia de Alcochete, tida como uma das prioridades no clube nos últimos anos, e os próprios resultados: a distância para Benfica, Braga e Porto, em 2009/10, e a briga incessante pela vaga à Liga Europa até quase as últimas rodadas, beirou ao ridículo para uma equipe acostumada a disputar a parte de cima da tabela.

O Sporting se vê hoje em um momento complicado. Está longe, inclusive, de brigar por vaga na Liga dos Campeões e precisa fazer sua parte na Liga Europa para tentar levar Portugal a recuperar o terceiro posto na principal competição do continente. A torcida não está das mais confiantes, e a eleição interna está marcada para 26 de março. A temporada não está perdida, já que ainda se está na briga real pelo título em dois torneios, um deles internacional. Resta acompanhar e ver os possíveis e naturais efeitos da saída de Bettencourt.

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Equipe Trivela

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