Portugal

Chororô leonino

No Brasil, já faz parte do anedotário futebolístico nacional a utilização do termo “chororô”, que costuma ser atribuído a clubes, dirigentes, treinadores ou atletas que ficam lamentando as derrotas – quase sempre delegando à arbitragem ou a um “complô” de dirigentes a causa de seu insucesso. Tudo remonta ao choro literal do Botafogo após uma derrota polêmica para o Flamengo em decisão do campeonato estadual. Pois não há clube português mais botafoguense nesse sentido do que o Sporting.

O emblema de Alvalade, na última década, tem insistido na tese de que é perseguido pela arbitragem e de que é a vítima maior do “sistema” – conceito difundido por seu ex-presidente Dias da Cunha, numa alusão a uma estrutura viciada da arbitragem e da cartolagem portuguesas, que beneficiaria o Porto, em primeira instância, e o Benfica, por conseguinte. O atual técnico leonino, Paulo Bento, tem-se esmerado em reclamar de tudo e de todos, quase sempre apontando para os árbitros o insucesso de sua equipe dentro de campo.

Essa situação voltou a pautar a imprensa esportiva portuguesa por causa da nomeação do árbitro Duarte Gomes para apitar o jogo com o Porto no último sábado (26 de setembro). Na temporada passada, Duarte Gomes havia discutido com o preparador de goleiros do Sporting antes do início de uma partida em Alvalade – e quase partiram para a agressão física. Desta vez, sobraram novamente para o árbitro as queixas referentes ao insucesso leonino no clássico (vitória dos Dragões por 1 a 0). Paulo Bento foi novamente expulso após dirigir vários protestos ao juiz – e, para surpresa geral, foi suspenso por apenas 12 dias.

Chefe da arbitragem é sportinguista 

A questão torna-se “surrealista” a partir do momento em que as farpas da diretoria dos Leões passaram a ser dirigidas a Vítor Pereira, ex-árbitro Fifa português e atual chefe da comissão de arbitragem portuguesa. Detalhe: Vítor Pereira é sócio do Sporting há quase cinco décadas. O surrealismo da história passa agora para o fato de que há quem defenda sua expulsão do quadro associativo sportinguista. E começam a relembrar de partidas arbitradas por Vítor Pereira em que, em nome da isenção, o juiz teria prejudicado involuntariamente seu time do “coração”.

Bom, em primeiro lugar, seria bom que Vítor Pereira tivesse se desvinculado de qualquer associação esportiva no momento em que passou a atuar como árbitro de futebol profissional. Atualmente, faz-se ainda mais necessário que esse vínculo não continue a existir. Em sua defesa, porém, surgiram os comentários de que seria seu pai o responsável por ter associado o filho e de estar fazendo o pagamento das mensalidades durante todos esses anos.
Em segundo lugar, o Sporting deveria olhar para seus problemas internos e tentar resolver questões que não dependem de arbitragens falhas ou polêmicas. O zagueiro brasileiro Anderson Polga está longe de mostrar a segurança que o fez integrar a seleção campeão mundial de 2002, e Miguel Veloso é de uma inconstância sem igual – não é à toa que os dois foram expulsos, novamente, na partida contra o Porto. O elenco dos Leões é fraco e não tem peças de reposição. Paulo Bento há muito que está desgastado no clube, que se encontra endividado e sem condições de investir no futebol.

Nos últimos anos, nem a venda milionária de alguns jogadores (como Cristiano Ronaldo e Nani para o Manchester United) foi capaz de conter a sangria financeira do Sporting. Isso explica, em parte, porque o clube é o que menos se reforçou nos últimos cinco anos, em comparação com os rivais Porto e Benfica. Explica, ainda, porque os Leões não conseguem manter-se competitivos na Liga dos Campeões (nesta tempora, foram eliminados na pré-eliminatória pela Fiorentina). Não há soluções imediatas para conter o chororô em Alvalade. Talvez olhar-se no espelho deixe à vista que o problema é menos dos árbitros e das comissões de arbitragem. Do mesmo modo como acontece com o Botafogo – o Sporting brasileiro.

Golo de Letra 

Onde me levas, rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me leva?, que me custa tanto.

(Trecho de poema de Eugénio de Andrade)

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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