Portugal

Chegou o Messias?

Vitória de Guimarães contra Braga, no Estádio Alfonso D. Henrique, no Minho. Os vimarinenses, em quinto na Liga Zon Sagres e com reais perspectivas de assumir o quarto lugar, podendo encerrar o primeiro turno invictos em seu estádio. Os figueirenses, praticamente encaminhados desde já à segunda divisão, após somar apenas 5 pontos em 14 jogos até o momento. Cenário difícil de prever algo que não fosse (com o perdão do trocadilho), vitória do Guimarães. Só esqueceram de avisar ao clube de Figueira da Foz e, em especial, ao novo comandante do lanterna do campeonato. Uma estreia fulgurante de um certo Carlos Mozer no banco do pequeno time tuga.

Campeão da Libertadores e do Mundial em 1981 e três vezes vencedor do Campeonato Brasileiro, em 1980, 1982 e 1983 – sempre pelo Flamengo. Em outras duas oportunidades, levou o Campeonato Português (1988/89 e 1993/94) pelo Benfica, onde foi ídolo. Na França, colocou no currículo um tricampeonato (1989/90, 1990/91 e 1991/92) pelo Olympique de Marseille. Era, ainda, nome certo para a Copa de 1994 (estivera no Mundial da Itália, em 1990), mas uma lesão o impediu de estar na equipe tetracampeã. Inquestionavelmente, um currículo invejável, com reconhecimento tanto em território brasileiro como – e talvez principalmente – português.

O ex-zagueiro trabalhara no país pela última vez em 2000, quando foi auxiliar de um certo José Mourinho, quando este ainda surgia como um treinador promissor, no Benfica. Em 2006, teve sua primeira experiência como treinador no Interclube, de Angola, conquistando em 2007 seu primeiro caneco nacional. Em 2009, por sua vez, esteve no Raja Casablanca, de Marrocos. Até por isso, a volta de Mozer ao futebol de Portugal foi recebida com alguma ansiedade, principalmente porque, ao invés de retornar para atuar em um grande (ou médio), mesmo como adjunto, aceitou justamente o desafio de tentar um milagre no comando do último colocado do Campeonato Português.

Mas Mozer tem, consigo, uma cartada importante. Se não é um treinador dos mais experientes, é sim, além de um nome conhecido e representativo, um grande conhecedor do futebol local. E se há algo que pode ser observado na liga portuguesa é que raramente um jogador ou um treinador recém-apresentados ao torneio, que não se preocupem compreender o modus operanti da competição e seu estilo de jogo, dificilmente darão certo. Diego e Luís Fabiano, que estouraram em outros centros, são exemplos claros. Na própria Naval, o francês Victor Zvunka, campeão da Copa da França pelo modesto Guingump, fracassou retumbantemente.

Logo em sua chegada, o ex-jogador mostrou isso. Não se preocupou em que sua Naval atuasse de forma plástica, no toque de bola que não tinha. Também não se colocou com um esquema excessivamente defensivo, como vinha sendo adotado, em que a retranca era a única ferramenta para que um time já em frangalhos saísse menos abalado. Mozer tinha noção das limitações de seu elenco, e determinou que, com a posse de bola, o ideal era lançá-la adiante. Quase que na famosa “ligação direta”, mas, obviamente, com algum bom senso e o principal: organização. No fundo, estava mais do que certo: não adiantava buscar um lance mais individual, pois este não haveria.

Em que pese a ineficiência ofensiva dos figueirenses, que em 14 jogos haviam marcado apenas 7 vezes, era necessário ter alguém para fazer os lançamentos almejados por Mozer. E foi o que o levou a Manuel Curto, que não havia jogado nem 20 minutos até então. Com Godemeche mais incisivo na marcação, Curto pode atuar a armador, sendo o principal lançador. Com a boa participação de Edivaldo nas jogadas e a velocidade de Marinho, auxiliando o principal atacante do grupo (Fábio Júnior), já era possível ver que, apesar das eventuais limitações de seus homens de frente, a Naval tinha suas ferramentas para tentar surpreender. Desde o começo já era uma equipe diferente.

Naturalmente, o primeiro acerto de Mozer não foi apenas na colocação de seu time para frente, mesmo com uma aparência mais defensiva. Além da própria abordagem da partida, foi destacável ver o impacto que sua vinda causou no elenco. O ex-jogador soube muito bem usar seu peso no futebol português e sua experiência para colocar em campo uma Naval muito mais ligada e interessada. Mesmo quando o time perdia por 1 a 0 e teve Carlitos expulso, não se mudou o modo de jogar. Pelo contrário. Os figueirenses se compactaram um pouco mais, mas mantiveram-se atentos ao ataque. Chegaram, com justiça, a uma virada inesperada, ante um rival tecnicamente superior.

É extremamente cedo para dizer se Mozer conseguirá tirar a Naval da situação atual. O time foi a 8 pontos, mas ainda está distante de sair da zona de rebaixamento, além de ter uma equipe que, tecnicamente, está aquém de seus principais rivais. Mas como se sabe, o futebol não se limita apenas a planteis. Estende-se para o plano tático e psicológico com grande facilidade. A boa estreia deu sinais de que os figueirenses devem logo evoluir nos dois pontos. Será o suficiente para uma arrancada digna de Fluminense em 2009? Com a palavra, o segundo turno, que vai começar.

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Equipe Trivela

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