Portugal

Bicampeão. Mas…

É até injusto fazer uma comparação do Porto que, neste domingo, garantiu o bicampeonato português com duas rodadas de antecipação após o empate em 2 a 2 de Benfica e Rio Ave, com o time que varreu Portugal na temporada passada e, ainda por cima, arrebatou a Liga Europa com enorme autoridade. Primeiro pelo natural fato de que a equipe deste ano perdera seu líder (André Villas Boas) e o principal goleador (Radamel Falcão Garcia), e a probabilidade de que os substitutos encaixassem no lugar da dupla tão bem quanto ela própria já era pequena. E segundo porque embora os Dragões dominem o futebol local há pelo menos vinte anos, uma campanha tão eficiente como a presenciada em 2010/11 dificilmente seria repetida, tanto pela forma como o clube seria encarado pelos rivais como pela maior competitividade em solo europeu, com a disputa da Liga dos Campeões.

No entanto, é possível fazer algumas comparações, bem diretas. A primeira é que o título portista desta temporada é tão justo quanto o da anterior, mesmo que a pontuação ou o número de gols marcados esteja distante dos números alcançados em 2010/11. E a segunda é que se na época passada a conquista foi absolutamente incontestável, a sensação que fica é de que o bicampeonato veio mais porque o Porto foi capaz de ser mais regular que os rivais na reta final do que por uma ampla superioridade técnica. Regularidade essa que faltou ao longo da temporada. Nem tanto na própria Liga – na qual a equipe perdeu apenas uma vez em 28 jogos e só encarou um jejum de vitórias mais “longo” entre a 5ª e a 6ª rodada (dois empates) – mas principalmente no que parecia ser o “sonho” portista: repetir 2003/04 e emplacar um título de LC na sequência de uma conquista europeia secundária (à época, a Copa da UEFA).

Daí a dizer que o Porto alcançaria o título tendo a dura concorrência de Real Madrid, Barcelona, Chelsea ou Bayern Munique é outra história. Mas é fato que se esperava muito mais do que uma eliminação precóce ainda na primeira fase da competição, especialmente em um grupo com Zenit St. Petersburgo, Shakhtar Donetsk e APOEL. Muito em virtude de um início de temporada que não convenceu ninguém, mesmo com as quatro vitórias nos quatro primeiros jogos. O mês de setembro, aliás, foi bem tenso pelos lados do Dragão, com os empates ante Feirense e Benfica e a derrota para o Zenit. Em comum nos três jogos, a impressão de que aquele “novo” Porto perdera a “química” e a empolgação que o marcaram na temporada anterior. Além de pouco vibrante, era um time que dependia cada vez mais de Hulk, dada a queda de produção do meio-campo e a carência de um centroavante que resolvesse.

Foi quando o cerco começou a apertar em torno de Vítor Pereira. Auxiliar de Villas Boas, foi alçado à condição de treinador após a saída inesperada do português para o Chelsea. Iniciou sua jornada no Dragão bem cotado pelo trabalho desenvolvido ao lado de seu antecessor, mas a dificuldade em fazer o time emplacar irritou a torcida. A falta de vibração, a demora em encontrar um onze que pudesse ser considerado “ideal” e as substituições bem questionáveis derrubaram a moral de Pereira, cuja situação ficou mais complicada em novembro, após as inexplicáveis derrotas para APOEL (2 a 1) e Acadêmica (3 a 0), por LC e Taça de Portugal, respectivamente, e quase insustentável depois do 0 a 0 com o Zenit, em casa, que culminou no adeus portista à Liga dos Campeões. A equipe até liderava o Português, perder a ponta para o embalado Benfica parecia questão de tempo.

Mas contra tudo o que se apontava, Vítor Pereira seguiu no cargo, bancado pelo presidente Pinto da Costa. O que, apesar de tudo, parecia fazer algum sentido. À época, o Porto já esboçava alguma evolução, e a tendência era de melhora. Afinal, reconhecendo o momento inconstante do meio-campo – que tinha João Moutinho sobrecarregado desde que Freddy Guarin colocara na cabeça que seu futuro estava na Itália – e a ausência de um camisa 9 confiável – Kleber se esforçou, mas a irregularidade levou Hulk a ser deslocado para aquela posição, onde pouco rendeu – os Dragões se mexeram e acertaram a vinda de Marc Janko e, principalmente, o retorno de Lucho González. Com as duas novas peças, o Porto ainda não empolgava, mas o elenco melhorou (muito) tecnicamente quando a dupla esteve em campo – o que talvez explique a inércia nos jogos diante do Manchester City, pela Liga Europa.

As peças se acertavam, o time evoluía e tirava e, aproveitando-se da dificuldade do Benfica em manter a regularidade com a disputa simultânea da LC e da Liga Portuguesa, aproximou-se mais uma vez do maior rival. Mas Vítor Pereira seguia questionado. Foi preciso chegar o duelo contra o Benfica, na Luz, para que o treinador enfim desse o ar da graça. Neutralizou as principais apostas ofensivas encarnadas, fez sua equipe sufocar as Águias ao longo de boa parte do confronto e ter o controle das ações. Além disso, viu Maicon, sua grande aposta na temporada, brilhar com uma boa atuação defensiva e o gol da vitória, no fim da partida. A surpresa com a atuação portista e com a postura tática da equipe foi tamanha que Pereira foi considerado o grande vencedor daquela noite – a ponto do confronto ter motivado até uma coluna especial do colega Rodrigo Weber, em março.

Daí em diante, o Porto engrenou. Não foi avassalador, mas apostou na maturidade de um elenco campeão, acostumado a decisões – que faltou a Benfica e Braga, que acumularam tropeços em partidas cruciais e caíram nos confrontos diretos ante os próprios Dragões. Não se chegou ao ponto de ser um título “perdido” pelos rivais. Contudo, a forma com as coisas se desencadearam mostra que o Porto fez por onde para ser campeão, mas que a recaída dos principais concorrentes teve um peso razoável na conquista. Prova disso é que mesmo com o título, Vítor Pereira ainda é questionado por imprensa e torcida. Além disso, jogadores como Rolando e Alvaro Pereira caíram de produção, e não há opções de banco totalmente confiáveis para os lugares de peças essenciais, como João Moutinho, Hulk e Janko. Dos reservas, aliás, só Steven Defour e Silvestre Varela passam efetiva confiança.

As vitórias geralmente ofuscam as carências. Foi o que aconteceu com o Benfica de 2009/10, como bem se lembra. Não é bem o caso do bicampeonato portista. Apesar do título, há ciência de que o Porto deve aprimorar seu elenco se quiser ratificar o domínio em casa e dar maiores saltos além das fronteiras lusas. Quanto à Vítor Pereira, a melhora de seu trabalho no segundo turno do Português, quando o time já não tinha mais competições em disputa (havia ainda a Taça da Liga, mas, convenhamos, ela não conta…), mostra que é um treinador que precisa de tempo para maturar. Talvez até não fosse o momento certo dele ser alçado à equipe principal – mesmo que sua estreia tenha vindo com um título. Mas a estratégia acabou dando certo, e Pereira chega mais amadurecido e preparado para a nova época. O que vale observar é se o próprio Porto também o estará. Não só na busca pelo tri, mas por voos maiores. E apenas manter o atual plantel não bastará.

Oito contra onze. O fim?

 

Além de presenciar o título portista, o futebol português presenciou um episódio que ao mesmo tempo foi curioso e triste, envolvendo o União de Leiria, que entrou em campo contra o Feirense, mas com apenas oito jogadores – sendo seis deles emprestados. O motivo, já se falou aqui, foi a rescisão em massa de jogadores da equipe após cinco meses de salários atrasados — vale lembrar, inclusive, que a própria presença do Leiria em campo era uma grande incógnita. Os oito chegaram até a resistir por 47 minutos, mas sucumbiram ao sofrer o primeiro gol. E a derrota, por 4 a 0, poderia ter sido até mais acentuada, considerando a superioridade de um adversário com três atletas a mais em campo. Não fosse o jovem goleiro Jan Oblak, responsável por heróicas defesas ao longo da partida, provavelmente o Feirense teria saído de Marinha Grande com um massacre histórico.

Mas a polêmica continua, e mais uma vez não há certeza sobre a entrada em campo do Leiria — que neste final de semana encara o Benfica na Luz. O presidente da agremiação, Mário Cruz (João Bartolomeu preside a sociedade anônima desportiva – SAD – do clube) já sentencia que a equipe não irá a Lisboa com os juniores e que a desistência do campeonato — que pode jogar o time nas últimas divisões do país, além de provavelmente afastar os investidores da SAD — será a realidade mais provável. Nessa última semana, a diretoria leiriense ainda fez um último esforço, lançando um ultimato para que os jogadores reconsiderassem a rescisão e defendessem a equipe nessa reta final da Liga. No entanto, a cúpula do Leiria foi informada de que os agora ex-jogadores do clube não pretendem rever a decisão — o que, convenhamos, faz algum sentido, após tantos meses sem os devidos salários em caixa.

“Não há nada a fazer. Agora é mesmo o fim. Para a SAD, é o fim dela própria e do futebol profissional. Espero que possamos ter apoios suficientes para minorar, no clube, os efeitos desta desistência. Vivemos das receitas vindas da SAD, que vão deixar de aparecer, mas temos 300 garotos à nossa responsabilidade (nas categorias de base) e um trabalho em mãos que gostaríamos de continuar”, analisou Cruz, à imprensa. Paralelamente a isso, o time treina e está relacionado pelo técnico José Dominguez (com 14 jogadores, estando incluídos aí os juniores inscritos de última hora) para encarar as Águias — muitos, inclusive, emprestados pelo próprio Benfica. No entanto, ainda à noite, Bartolomeu virá a público para anunciar o futuro do União de Leiria. E considerando os acontecimentos desta e da última semana, a perspectiva é de que a notícia não será nada positiva ao futebol português.

Não aprendem…

 

Mesmo com a triste situação vivida pelo União de Leiria — e que já vitimou outros tantos clubes nos últimos anos, sendo o Estrela da Amadora o mais recente deles — a Liga de Clubes tornou a aprovar o alargamento do campeonato de 16 para 18 clubes já para a temporada 2012/13. A diferença em relação à proposta anterior é que dessa vez haverá a “liguilla”, envolvendo os dois últimos colocados da primeira divisão e o terceiro e o quarto da Liga de Honra, eliminando a ideia inicial de não haver rebaixamentos. A medida ainda precisará ser aprovada na Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Se o alargamento vingar, equipes como Naval, Leixões e até mesmo o Belenenses voltam a sonhar com o acesso, já que o trio trava uma disputa aberta pelo quarto lugar na “Segundona”. E volta-se o questionamento: se com 16 times já tem equipe às portas de desistir do futebol, que dirá com 18?

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Equipe Trivela

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