Benfica bipolar

Do céu ao inferno: esta tem sido a trajetória do Benfica ao longo da temporada, com a alternância de belos resultados no Campeonato Português e de placares humilhantes na Taça Uefa. Algo natural para uma equipe em formação, em virtude da mudança de elenco e de equipe técnica no meio do ano. Mesmo assim, dica difícil aceitar uma derrota por 5 a 1 para o Olympiakos, fora de casa. Foi o que aconteceu no último dia 27 de novembro, em Atenas. O resultado praticamente eliminou o clube da Luz da competição européia.
Com apenas um ponto em três partidas pelo Grupo B da Taça Uefa, o Benfica descansa na próxima rodada, a ser realizada no dia 3 de dezembro. E pode até dar adeus ao torneio sem entrar em campo. Para isso, basta que o Olympiakos vença o Metalist, e o Hertha Berlim vença o Galatasaray. Assim, na última rodada, os Águias apenas cumpririam tabela ao receber o Metalist em casa. Tudo isso fruto de uma campanha lastimável, em que a derrota na Grécia representa apenas o ápice do desaire benfiquista. Sim, pois é preciso não esquecer que, na rodada anterior, o clube encarnado já havia perdido em casa por 2 a 0 para o Galatasaray.
A rigor, o Benfica fez apenas uma partida digna na Taça Uefa em 2008: foi o jogo de volta com o Napoli, em Lisboa, quando venceu categoricamente a equipe italiana por 2 a 0, na pré-eliminatória do torneio (no jogo de ida, uma série de trapalhadas resultou numa derrota por 3 a 2). O técnico Quique Flores ainda não conseguiu dar consistência à sua defesa, e até a ausência do zagueiro Luisão (longe da regularidade e da eficiência do início em Portugal) foi amplamente sentida diante do Olympiakos. Já há até quem deseje a saída do goleiro Quim, cujo mês de novembro não será guardado em boa memória – foi ele o “privilegiado” de levar seis gols no último amistoso entre Brasil e Portugal.
Se os ventos europeus têm trazido tempestade para os lados da Luz, os ventos nacionais têm trazido calmaria. Caso vença o Vitória de Setúbal em casa nesta segunda-feira (1º de dezembro), o Benfica chegará aos 24 pontos e conquistará, pela primeira vez na temporada, a liderança do Campeonato Português. Isso porque o líder até então, o Leixões, apenas empatou com a Naval por 1 a 1 e estacionou nos 23 pontos. Até agora, o clube da Luz é único que não perdeu no campeonato. Com a iminente saída da Taça Uefa, o título nacional passará a ser obrigatório para o clube que mais gastou dinheiro em contratações no meio do ano.
Goleadas recentes têm manchado o futebol português
Os 5 a 1 sofridos pelo Benfica em Atenas fizeram par, na semana passada, com outra derrota sonante de um clube português: o Sporting perdeu em casa por 5 a 2 para o Barcelona, em partida válida pelo Grupo C da Liga dos Campeões. A diferença, aqui, é que os Leões já estavam classificados para as oitavas-de-final do torneio. De todo modo, tratou-se de uma nova goleada sofrida para um clube espanhol, já que, em agosto deste ano, o Sporting já havia perdido por 5 a 3 para o Real Madrid, em amistoso disputado na capital espanhola (detalhe: os cinco gols dos merengues saíram logo no primeiro tempo). Se somarmos a esses resultados os 6 a 2 do Brasil sobre Portugal (a 19 de novembro) e os 4 a 0 do Arsenal sobre o Porto (a 30 de setembro), fica a pergunta: o que tem acontecido com a zaga das equipes portuguesas nos jogos internacionais?
No fundo, a vulnerabilidade defensiva do futebol português é histórica. Poucos zagueiros e poucos guarda-redes têm-se notabilizado ao longo dos anos nos clubes e na seleção nacional. E tudo fica mais complicado quando, somada a essas dificuldades, acrescenta-se a pouca eficiência dos ataques, e isto quando eles existem (o técnico Carlos Queiroz, por exemplo, optou por escalar a Seleção Portuguesa sem nenhum centroavante contra o Brasil).
Quando falta a sorte, sobra o azar
Se não bastassem essas deficiências, a falta de sorte também tem pontuado o destino de alguns clubes lusos. Que o diga o Braga, que poderia ter sacramentado sua classificação no Grupo E da Taça Uefa na última quinta-feira (27 de novembro). Vencia em casa o Wolfsburgo por 2 a 1, quando levou o empate do time alemão faltando sete minutos para o final – resultado que não seria de todo ruim para as duas equipes. Mas, à semelhança do que ocorreu diante do Milan, quando perdeu por 1 a 0 na Itália sofrendo um gol no finalzinho da partida, o Braga voltou a sucumbir, desta vez aos 48 minutos do segundo tempo. Tomou a virada de 3 a 2 e agora precisa ganhar na Holanda do Heerenveen, no dia 4 de dezembro, para poder sonhar com a vaga.
Se puder contar com a sorte, o Porto ainda tem chances de ficar em primeiro lugar no Grupo G da Liga dos Campeões. “Basta” para isso vencer em casa o Arsenal, no próximo dia 10 de dezembro. Como os dois clubes já estão classificados, os Dragões têm todas as possibilidades para conquistar a liderança do grupo e, assim, devolver os 4 a 0 do jogo de ida.
Golo de Letra
Havemos de conhecer quanta estrada se frustra,
Quanta não leva a nada
Quantos dias nos custa a boca calada
E quanto tempo falta até se cumprir cada coisa adiada
Havemos de conhecer o lugar mais belo
Onde nos encontraremos todos e onde a cada manhã se juntam
Homens e mulheres à força da nossa voz,
Homens e mulheres felizes no mais fundo de nós.
(Canção “À força da nossa voz”, de Paulo Praça)



