Aqui e lá

Em meio à discussão sobre a Taça das Bolinhas – e que, naturalmente, recolocou em voga a famosa discussão sobre reconhecimento de títulos nacionais no Brasil -, o colega Ubiratan Leal, na coluna Espanha, levantou uma discussão existente no país ibérico acerca de uma “briga” de Levante e Barcelona para o reconhecimento de conquistas da década de 30 como títulos espanhois. Em Portugal, embora sem o mesmo alarde, já houve – e, mais para alguns torcedores do que para outros, ainda há – um debate acerca dos títulos nacionais obtidos até 1938, quando foi realizado o primeiro torneio considerado “oficial” pela Federação Portuguesa de Futebol. Em especial, sobre as conquistas que se deram entre 1934 e 1938.
Primeiro é preciso voltar à década de 20, quando teve início o chamado Campeonato de Portugal. O formato lembrava a nossa Taça Brasil. Tratava-se de um torneio mata-mata, para o qual as equipes se classificavam a partir de disputas nas regiões do país, como Lisboa, Algarve, etc. A primeira edição se deu na temporada 1921/22, ocorrendo até 1937/38. Nesse período, observava-se certo equilíbrio entre os campeões, com Porto e Sporting, donos de quatro conquistas cada, dominando o cenário, seguidos de perto por Benfica e Belenenses, com três títulos. Olhanense, Marítimo e Carcavelinhos (atual Atlético) venceram o torneio em uma ocasião.
Nesse meio tempo, mais precisamente em 1935, foi organizado, paralelamente ao Campeonato de Portugal, a primeira edição do chamado Campeonato das Ligas. A competição, disputada em pontos corridos, foi idealizada para que se seguisse os moldes do sistema de liga (todos contra todos), motivada logo após uma goleada histórica sofrida por Portugal nas mãos da Espanha (9 a 0) em 1934. O torneio foi desenvolvido de forma “experimental”. Afinal, era novidade planejar uma disputa na qual os clubes deveriam viajar por todo o país, e o objetivo era observar a viabilidade técnica, financeira e desportiva de uma liga portuguesa.
O fato de, em 1938, ter-se oficializado pela FPF após uma reestruturação do futebol no país, mostrou que a competição deu bem certo, ainda que, sob a ótica dos regulamentos, o Campeonato das Ligas fosse colocado “abaixo” do Campeonato de Portugal no tocante à importância. Nessa reestruturação, nasceu a liga nacional, no sistema de pontos corridos, criada com o intuito de forçar partidas entre os principais times sem que estes pudessem vir a ser eliminados antes, nos mata-matas. A ideia era, com isso, melhorar o nível técnico do que era praticado nos gramados lusitanos e, consequentemente, reforçar a seleção em partidas internacionais, para que massacres como o sofrido ante a Espanha fossem raros.
Na década de 80, os dois principais jornais do país começaram a colocar em maior discussão – ainda que, sem a mesma intensidade vista no Brasil nos últimos tempos – a validade das conquistas. De um lado, A Bola, que contava os campeões portugueses a partir do Campeonato das Ligas, pela semelhança de formatos. Tese, aliás, defendida pelo jornalista Ricardo Ornellas, um dos mais famosos do meio esportivo em Portugal, autor de diversos livros com números e dados sobre o futebol na terrinha. De outro, está o Record, que até um tempo, não contava os três títulos benfiquistas conquistados nas quatro edições do Campeonato das Ligas, considerando os títulos a partir de 1938. Neste caso, os Encarnados teriam hoje “somente” 29 títulos.
A tese defendida por A Bola, Ornellas (e evidentemente pelo Benfica) é a que, atualmente, é reconhecida pela UEFA e pela FIFA (que colocam as Águias com 32 títulos). O pensamento, porém, é visto como errôneo pelo estudioso Paulo Claro, que defende que o Campeonato de Portugal é que deveria ser “anexado”, na contabilização de títulos, ao Português, pelo fato de os materiais históricos da FPF qualificarem este era o chamado “torneio nacional”. Para o estudioso, aliás, é muito “reducionista” comparar o Campeonato de Portugal, “principal torneio do país nas décadas de 20 e 30) à Taça de Portugal, como é feito atualmente. A tese traria “benefícios” a Sporting, que passaria a ter 22 conquistas no palmarés e principalmente Porto, que “pularia” de 24 para 27 títulos – ou seja, ficaria apenas duas atrás do Benfica.
Por um lado, Leões e Dragões não entram em polêmica. Os primeiros contabilizam seus 18 títulos nacionais de forma separada ao Campeonato de Portugal, tal qual fazem os portistas com seus 24 canecos. Por outro, em especial os torcedores do Sporting (à bem da verdade, mais pela rivalidade do que por outra coisa) insistem que “foram-lhe roubados” quatro títulos. No fundo, a ideia de Claro é a mesma que Santos e Palmeiras, por exemplo, pleiteavam no tocante à Taça Brasil. Mas se por aqui a CBF se manifestou – ainda que, como muito já se mostrou, por razões eminentemente políticas -, a FPF prefere colocar panos quentes na questão, e não toma partido oficialmente.
Como se vê, rusgas no tocante a conquistas, movidas pelas paixões clubísticas, existem em todos os lugares. Mas, independente de se concordar ou não com Claro, parte de sua última frase na análise que fez ao blog Recordes da Bola vale reflexão: será que se, entre os maiores campeões do Campeonato de Portugal ou do Campeonato das Ligas, estivessem equipes menores, teria havido alguma discussão? Enquanto isso, Olhanense e Marítimo ignoram qualquer tipo de polêmica e fazem questão de destacar, até hoje, que são “campeões nacionais”, sem entrar no mérito se via Copa, Campeonato, Taça ou Liga – que de fato são, visto que, no ano em que se sagraram vencedores, foram realmente os melhores do país. O que parece muito mais saudável e ideal do que aguardar uma assinatura oficial de uma federação.



