Antilusitanismo

O leitor já deve saber como foi o sorteio dos grupos da Copa do Mundo de 2010 realizado pela FIFA na última sexta-feira (4 de dezembro). Para quem não lembra, Portugal caiu no Grupo G, ao lado de Brasil, Coréia do Norte e Costa do Marfim. Obviamente, ter que enfrentar a Seleção Brasileira não era o desejo nem de Portugal, nem de nenhuma outra equipe que não fosse cabeça-de-chave. Logo, não dá para dizer que o sorteio foi camarada com os Tugas. De todo modo, também não dá para dizer que o sorteio foi calamitoso.
A imprensa portuguesa mostrou apreensão mais pelo fato de ter o Brasil no meio do caminho do que pelos outros dois adversários. A Coréia do Norte – apesar de ser desconhecida totalmente no ocidente – não deverá ser páreo para nenhuma equipe da chave. Portugal tem a sorte de enfrentar os norte-coreanos na segunda rodada do grupo, no dia 21 de junho. Trata-se do adversário ideal para sacramentar a classificação ou para redimir-se de um possível mau resultado na estréia, no dia 15 de junho, diante da Costa do Marfim. E, desta vez, coube ao técnico Carlos Queiroz o melhor diagnóstico das possibilidades lusas: a vaga será decidida logo no jogo de estréia.
Em condições normais de temperatura e pressão, o Brasil deve vencer a Coréia do Norte e a Costa do Marfim. Daí que um bom resultado de Portugal na estréia faria com que a seleção canarinho e os Tugas chegassem já classificados à última rodada (25 de junho), apenas com a obrigação de decidir quem será o primeiro do grupo – algo de inestimável importância, já que o segundo colocado provavelmente enfrentará a Espanha (uma das pré-favoritas) nas oitavas-de-final. Os leitores brasileiros da Trivela, no entanto, parecem não acreditar nas chances portuguesas no Mundial.
Lampejos da Semana de Arte de 1922
Até a Eurocopa de 2000, a seleção portuguesa era mera coadjuvante das competições que disputava. Tinha pouca tradição internacional, a despeito do terceiro lugar na Copa de 1966, posição que a Espanha nunca conquistou em mundiais. Quando Figo foi eleito o melhor do mundo pela Fifa em 2001, parece que se iniciou uma certa rejeição no Brasil ao futebol português (como é que um Tuga poderia fazer sucesso num futebol europeu repleto de craques brasileiros?). Na Copa de 2002, então, não foram poucos os brasileiros que festejaram a eliminação lusa na primeira fase, após campanha lastimável. O antilusitanismo, algo que de tempos em tempos se reacende na mente do país ex-colônia, estava redivivo.
Esse sentimento, entretanto, ficou submerso durante o reinado de Luiz Felipe Scolari à frente da seleção lusa, desde o final de 2002 até junho de 2008. Portugal era a “equipe do Felipão”. Na Copa de 2006, quando o Brasil foi eliminado pela França nas quartas-de-final, os Tugas passaram a ser “o Brasil na Copa”. Mas o período de bonança foi logo sepultado com a saída de Scolari. E nem mesmo a naturalização interesseira de Deco, Pepe e Liedson conseguiram reconquistar os amores do Brasil pela ex-Metrópole. Algo que, agora, parece ainda mais potencializado pelo fato de Cristiano Ronaldo – principal estrela lusa – ser um jogador “marrento”, capaz de criar as maiores antipatias de torcidas várias.
Pois eis que o antilusitanismo voltou a florescer com força entre alguns torcedores brasileiros às vésperas do próximo Mundial. Primeiro, na repescagem européia, surgiu a idéia entre alguns “entendidos” de que Portugal era inferior à Bósnia-Herzegovina. Agora, pelo que se pode ver entre os posts de leitores neste site, Portugal não terá chances contra a Costa do Marfim de Drogba. Os modernistas da Semana de Arte de 1922, no Brasil, queriam eliminar qualquer marca na cultura que remetesse à Antiga Metrópole. Os “modernistas” futeboleiros do Século XXI parecem querer fazer o mesmo.
Menos prognósticos e mais diagnósticos
Não se pede aqui que se torça por Portugal ou contra Portugal nas Copas e Eurocopas. Pede-se apenas que as análises não sejam injustas, em favor de uma passionalidade obtusa. Jornalistas e torcedores, ao fazerem prognósticos, apenas projetam em seus palpites os desejos e anseios que quase sempre acabam por não se realizar. Já disse isso várias vezes: se jornalistas esportivos e “torcedores profissionais” fossem bons em dar palpites, todos já estariam milionários na Loteria Esportiva ou em casas de apostas. É só rever as opiniões de todos eles por volta de abril e maio deste ano: quem previu que o Flamengo seria campeão brasileiro e que o Sport ficaria em último e rebaixado?
Daí que procuro defender o diagnóstico, no lugar do prognóstico. Não é fácil – e mesmo eu me furto a fazê-lo vez ou outra. Mas é duro lidar com opiniões tão pouco embasadas. Às vezes, o fato de uma equipe contar com excelentes jogadores, como Drogba, não faz desse conjunto um time consistente. No lado inverso, uma equipe sem grandes estrelas, mas com equilíbrio e coesão entre os setores, pode ser mais eficiente em competições curtas como o Mundial. Foi o caso da Itália campeã em 2006 e a Alemanha em 1990. A Costa do Marfim deve ser lida sob este paradigma. Tem um ou dois craques. Será o bastante para assustar Brasil e Portugal na Copa?
Para finalizar, cabe referir mais uma vez que o estilo de jogo das seleções africanas não é de todo incômodo para a seleção brasileira e a portuguesa. A Costa do Marfim tem fragilidades defensivas um pouco maiores do que Portugal, que, entretanto, não tem o ataque demolidor comandado por Drogba do outro lado. Portanto, será no meio-de-campo que essa disputa se resolverá. Não dá para prever o futuro. Dá para analisar o presente. E, nesta análise momentânea, Portugal está sendo alvo novamente de um antilusitanismo atávico e histórico. Sinal de que incomoda por um motivo ou por outro.
Golo de Letra
Lá de onde vem a luz
Longe do meu lugar
Eu encontrei um trevo de mil tons
E já na minha mão
Sem crer eu procurei
Se era para mim a rara folha a mais
Há gente rara que és tu
Há gente rara que sou eu
A mesma fonte o mesmo olhar
A minha sorte
Pode também ser tua
Eu vou seguindo regando o coração
(Canção “O mesmo olhar”, na voz de Susana Félix)



