Ai, Jesus!

Quem acompanha o futebol português nesta temporada deve estar espantado com a volúpia ofensiva do Benfica: 48 gols marcados até agora (escrevo este texto em 28 de outubro) em 14 partidas (somando-se Campeonato Português, Liga Europa e Taça de Portugal) – média de 3,4 gols por jogo. Os bons resultados já valorizaram as ações do clube em 67,9% , segundo dados do Diário Económico, jornal português especializado na área de economia. Tudo isso desde que o técnico Jorge Jesus assumiu o comando do clube encarnado. Um cenário bastante diferente do que se via sob as ordens do espanhol Quique Flores, treinador até o mês de junho deste ano.
As campanhas do Benfica nos últimos 15 anos vinham mostrando, temporada após temporada, uma equipe quase sempre sem brilho, sem alma, sem poder de explosão. Após conquistar o Campeonato Português de 1994, os encarnados só voltaram a levantar o caneco em 2005. Nunca em sua história haviam ficado dez anos sem sagrar-se campeão nacional. E, para um clube de massa como o da Luz, é impensável iniciar um campeonato acreditando que o título é algo inalcançável. Jorge Jesus parece ter entendido o compromisso de estar à frente de um emblema com a dimensão do Benfica – algo que Quique Flores parece não ter entendido em sua breve passagem pelo clube.
E olha que Jorge Jesus, com 55 anos, nunca havia treinado antes uma grande equipe e não conta em seu currículo com nenhum título no escalão principal do futebol português. Seus maiores feitos, até então, tinham sido o título da terceira divisão com o Amora e o acesso do Felgueiras à primeira divisão. Depois, fez boas campanhas à frente do Belenenses e do Braga – mas só. Como jogador, atuou uma temporada no Sporting (1975-1976) e depois perambulou por equipes de menor expressão. O que faz dele, hoje em dia, um divisor de águas na história recente do Benfica?
Jesus arrumou o ataque e a defesa…
Basicamente, Jesus compreendeu que o Benfica é uma instituição nacional, com um peso simbólico desconcertante (algo semelhante ao que representa o Flamengo no Rio de Janeiro e o Corinthians em São Paulo). Mais do que isso, ele assumiu o compromisso de devolver ao clube a mística vencedora de outrora (não é à toa que a revista oficial do clube chama-se “Mística”). Fazer o time buscar o gol o tempo todo da partida é uma das estratégias usadas para levar os encarnados às vitórias. A outra estratégia é arrumar o setor defensivo e evitar os gols inacreditáveis que o Benfica sofreu na temporada passada.
Com Quique Flores, o Benfica havia anotado 14 gols até a 8ª. rodada do campeonato nacional; com Jesus, já são 30 gols, com o mesmo número de jogos. Na Liga Europa, com Quique foram 6 gols feitos, contra 12 nesta temporada. E na Taça de Portugal, enquanto o time de Quique jogou três vezes e anotou três tentos, o de Jesus já fez seis gols em apenas um jogo. Na defesa, os números também são eloqüentes: com Quique, foram 19 gols sofridos nesta altura da temporada passada; com Jesus, apenas 8 gols até agora.
Esses números apenas traduzem a forma como Jorge Jesus encarou o desafio de deixar o Braga e assumir o Benfica em junho passado: ao chegar ao clube da Luz, o técnico logo disse que estava ali para ser campeão – algo bem diferente da postura dos técnicos anteriores. Encarar esse desafio tem incluído ainda uma boa dose de polêmica, com provocações a adversários e frases de efeito que acabam incendiando as disputas. Jesus tem feito isso com maestria, servindo de pára-raios para o elenco – que assim, pode dedicar-se integralmente ao jogo com mais tranqüilidade.
… mas esqueceu-se do Fair Play
Na verdade, o que mais surpreende no atual Benfica é a vontade infinita com que a equipe se lança ao ataque. E mesmo quando alcança a vantagem no placar, a equipe permanece buscando continuamente o ataque. Isso resultará em títulos para o clube da Luz? Não se sabe. Pode até ser que a equipe seja um fiasco ao final da temporada. Pode até ser que perca para o Braga no próximo sábado (31 de outubro) e despenque no campeonato. Mas há muito tempo não se via em Portugal uma equipe tão vistosa e eficiente em campo.
Nesse projeto do treinador benfiquista, também há lugar para comportamentos no mínimo deselegantes, em que o fair play passa ao largo. Na partida contra o Nacional, disputada no último dia 26 de outubro, Jesus foi extremamente indelicado com o treinador adversário, Manuel Machado – os dois são inimigos históricos em Portugal. Gestos provocativos, comemorações desmedidas e frases menos amistosas ao fim do jogo, de lado a lado, deram o tom do encontro. Só que os 6 a 1 que o Benfica encaixou sobre o clube madeirense são incontestes da superioridade encarnada.
Até nesse aspecto Jorge Jesus encaixa-se perfeitamente no projeto de um clube de massa e popular, que por vezes exige mais emoção do que razão no tratamento das coisas. Quique encarnava muito a imagem do gentleman europeu, sempre com ternos bem cortados e écharpes da moda. Jesus agita-se no banco de reservas como Mourinho e Luxemburgo, e até abandonou o paletó que usava quando treinava o Braga. Tem aparecido com a camisa amassada e um chiclete que masca de “boca aberta”, segundo o mesmo Manuel Machado. Resta saber qual o fôlego dos milagres que este Jesus é capaz de continuar realizando.
Golo de Letra
Um espírito habita a imensidade:
Uma ânsia cruel de liberdade
Agita e abala as formas fugitivas.
E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha…
Almas irmãs da minha, almas cativas!
(Trecho do poema “Redenção”, de Antero de Quental)



