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Águia forte, Dragão vivo

Semana feliz para o futebol português na Liga dos Campeões, e possibilidade real de que os dois clubes do País fiquem entre os 16 finalistas da competição – com doses de sorte nos jogos de ambos, diga-se. De um lado, um Benfica cada vez mais autoconfiante teve uma atuação exemplar diante do Manchester United em pleno Old Trafford e arrancou um empate que assegurou a presença encarnada nas oitavas de final com uma rodada de antecipação e a liderança do grupo bastante próxima. De outro, um Porto ainda com problemas mas dando sinais de que não só está vivo como realmente tem capacidade de abandonar o “caixão”, que bateu o Shakthar Donetsk e agora depende só de si para também atingir o próximo estágio da competição.

Ante o United, acreditava-se que as Águias fossem adotar uma estratégia comum às equipes portuguesas em solo inglês: retranca e contra-ataques afobados. Uma visão estereotipada do 4-5-1 de Jorge Jesus poderia reforçar essa dedução. Mas o Benfica tem mostrado ao longo da temporada que tal conclusão somente a luz de números era um engano, já que Nico Gaitán, Bruno César e Pablo Aimar são peças que se aproximam constantemente do atacante Rodrigo. E evidenciou isso repetindo contra os Red Devils, mesmo fora de casa, a postura ofensiva que adota nos primeiros minutos de jogo. O primeiro gol saiu justamente em um lance assim, com Gaitán recebendo de Maxi Pereira na entrada da área pela esquerda, cruzando e contando com a falha de Phil Jones, que desviou para o gol.

Na primeira metade da etapa inicial, o Benfica administrou bem o placar e, aproveitando-se da lentidão rival, manteve-se soberano do meio para frente, só tendo dificuldade para segurar os avanços de Nani. Contudo, aos poucos, os mancunianos começaram a se encontrar em campo. Melhores tecnicamente que os portugueses, os ingleses passaram a ganhar espaço e obrigaram o goleiro Artur Moraes a brilhar, principalmente nas saídas de bola. Ainda que tivesse sofrido um gol (irregular) ainda na etapa inicial, o arqueiro brasileiro fez pelo menos três intervenções importantes entre os últimos 10 minutos do primeiro tempo e os movimentos iniciais da etapa complementar. Quase fez a quarta, nos pés de Darren Fletcher, porém o escocês deu sorte no rebote e conseguiu virar o marcador.

A tendência era até de que, mantido aquele ritmo, os Reds Devils fossem “engolir” as Águias, pela diferença técnica entre os dois times. Mas novamente a postura ofensiva encarnada – e mais uma dose de sorte – surtiu efeito. Tanto que após a pixotada do goleiro David De Gea, que bateu nos pés de Bruno César, Aimar e Rodrigo já estavam indo em direção a área. E foi justamente o meia argentino que se aproveitou do rebote de Rio Ferdinand para igualar novamente o placar. Daí em diante, os lisboetas retomaram as rédeas do confronto e até tiveram a nova virada nos pés de Rodrigo, que costurou a zaga do United da direita para a esquerda e bateu ao lado de De Gea. O gol da vitória não saiu, mas a bem da verdade, o 2 a 2 em Old Trafford pode e merece ser visto como um triunfo às Águias.

Vitória não só pela classificação, mas porque viu-se uma equipe que não se intimidou ante um dos grandes favoritos ao título. Buscou o ataque desde o começo, encontrou dificuldades quando o rival passou a se acertar no confronto e fazer valer a superioridade técnica, e quando pareceu que iria recuar diante da crescente inglesa, surpreendeu e voltou a se postar além da linha do meio-campo. Se o ponto negativo da noite foi a lesão de Luisão, há vários pontos positivos, como a confirmação da eficiente linha de frente sem os irregulares Oscar Cardozo e Javier Saviola, a segurança debaixo das traves com Artur Moraes, e a reiteração do ótimo momento vivido pelos lisboetas, que ganham motivação extra para o clássico deste domingo contra o Sporting.

Já o Porto foi a Donetsk ciente de que precisava dar fim ao que já começava de fato a se configurar como crise. Afinal, por mais que se tratasse da Taça de Portugal, sofrer 3 a 0 da Acadêmica e ser eliminado tão cedo do torneio – e justo no atual momento de enorme irregularidade vivido pelos Dragões – foi pesado demais. Vítor Pereira sabia que um novo revés, que custasse a vaga às oitavas de final e deixasse inclusive o passaporte à Liga Europa sob dúvida, poderia culminar em sumária demissão. Ainda assim, o treinador não abriu mão de surpreender no onze. Nem tanto com o zagueiro Maicon fazendo a lateral direita – como já ocorrera em outras ocasiões – mas com a escalação de Djalma no ataque, com Hulk e James Rodriguez ao lado e rendendo o brasileiro Kleber.

Se em partidas anteriores faltou empolgação e “alma”, desta vez os Dragões não decepcionaram nesse quesito. O problema é que o posicionamento defensivo ainda não era o ideal. Apesar de um jogo bem truncado no primeiro tempo, em pelo menos três oportunidades um jogador do Shakthar recebeu com liberdade pelo meio da perdida zaga portista – sem a bola, Maicon até buscava se alinhar com Rolando e Nicolas Otamendi, mas encontrava dificuldade nessa aproximação. A trave e Helton vinham segurando as pontas. A frente, Hulk fez as vezes de centroavante – posição essa na qual não rende como quando cai pelas pontas – e era o jogador mais acionado, tanto por Steven Defour como por João Moutinho. Mas tal qual os companheiros de ataque, o brasileiro era bem marcado.

Mas se o Benfica teve duas jogadas “de sorte”, com o gol contra de Jones e a bobeada de De Gea, o Porto também teve uma noite bem afortunada. Além da bola na trave de Luís Adriano na etapa inicial, os ucranianos ainda acertaram o poste mais uma vez (em rebote de Helton após chute de Fernandinho) no segundo tempo – a bola ainda esbarrou nas costas de Helton e saiu. A marcação dos Dragões mostrou evolução à medida que os últimos 45 minutos ocorreram, bem como a própria atuação dos portugueses. E a melhora, aliada à fadiga do Shakhtar, culminou nos gols. Ambos com participação de Hulk. O brasileiro fez o dele em passe providencial de João Moutinho e, após belo drible, acabou fazendo a abertura para Maicon fuzilar e contar com o desvio de Razvan Rat para a própria meta.

A vitória não veio da forma como o torcedor portista esperava – firme, com uma chuva de gols. Foi sofrida e assegurada com o principal atleta em atividade na Liga Portuguesa, que tem mostrado ser capaz de, mesmo fora de posição, ser decisivo. Mas surge justamente em um momento crucial, logo após uma derrota trágica, e se há algo a se destacar na partida é a aplicação dos jogadores, visivelmente com mais vontade e raça que em partidas anteriores. Por um lado, Vítor Pereira ainda não encontrou seu time ideal – manter Hulk como centroavante não é a melhor saída, e Maicon, apesar do esforço, não tem cacoete de lateral – e ainda precisa ajustar a defesa. Por outro, ao menos até o confronto diante do Zenit, ganha tempo. Pouco, é verdade. Mas para quem tinha só 90 minutos até terça…

Ainda em quinto

Com o empate do Benfica e a vitória do Porto, Portugal manteve temporariamente o quinto lugar do ranking de coeficientes da UEFA. Hoje com 50.346 pontos, os lusos aproveitaram-se da derrota do Olympique de Marseille para reassumir a posição, perdida na terça com o triunfo do Lille sobre o CSKA Moscou. Na temporada, os portugueses também possuem o quinto melhor desempenho, atrás de, pela ordem: Inglaterra, Espanha, Alemanha e Holanda. Dos seis primeiros do ranking da UEFA, Portugal é o país com menos “sobreviventes” nas competições (4). Porém, está com dois desses times classificados a próxima fase em seus torneios (Benfica na LC, Sporting na Liga Europa) e outros dois brigando por vaga (Porto na LC, Braga na Liga Europa).

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Equipe Trivela

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