Portugal

Agora sim, o sucessor?

Minuto 36 do segundo tempo no confronto entre Sporting e Nacional, no Alvalade, no último sábado (16). O camisa 14 dos visitantes sai de campo para a entrada do 27, Pedro Pacheco. Cena inusitada: o estádio aplaude e saída o jogador substituído, que, aliás, fizera o gol (então solitário) dos madeirenses na partida. Se havia alguma dúvida da boa fase que Ruben Micael vivia, o público no estádio leonino fez questão de saná-la.

Só que, curiosamente, o jogador, desde a janela do verão europeu pretendido pelos lisboetas e exaltado por seus adeptos, foi parar, dois dias depois, no rival Porto, onde terá uma missão árdua, mas que, se cumprida, não tardará em ter como consequência algo que já é pedido por fãs portugueses, que é uma chance na seleção. A missão? “Apenas” ser o sucessor “real” de Lucho Gonzalez.

Mas por que sucessor “real”? Primeiramente, pela dificuldade em outros nomes utilizados para o setor, trazidos ou já jogadores da equipe, em se firmar no posto antes ocupado pelo argentino. Belluschi, também argentino e mais vezes usado por Jesualdo Ferreira no setor, não chega a ser uma decepção, mas tem atuado fora de sua verdadeira posição, o que o impede claramente de exercer seu melhor jogo.

Belluschi tem um estilo próximo ao de um camisa dez. Joga melhor quando está mais próximo do ataque, na ligação, sem necessariamente ter que recuar para colaborar na armação e na contenção, fazendo-o em seu setor do campo. Para tal, o ideal seria atuar com maior proteção na retaguarda — pelo menos dois volantes (considerando o 4-3-3 de Jesualdo) —, especialmente porque os alas portistas têm o costume de avançar.

Só que o triângulo treinado por Jesualdo para o meio-campo conta, na verdade, com um volante (Fernando) e dois meias que atuam tanto no auxílio ao ataque como, se necessário, à defesa. Foi aí que o incansável Lucho se destacou e se firmou como a principal referência portista. Do atual elenco, Guarin seria o jogador mais indicado ao setor, mas vem tão mal que mesmo o deslocado Belluschi acabou rendendo melhor.

Ruben Micael também exercia uma função semelhante a do argentino, hoje no Olympique de Marselha, quando no Nacional, ainda que o time atuasse no 4-4-2. Jovem, habilidoso no passe e bom no arremate, além de, até pela liberdade que tinha na Madeira, ter o costume de atuar em um ritmo mais frenético que Belluschi, Micael dá pinta de que, como Cissokho na última temporada, cairá “como uma luva” no planejamento tático portista.

Micael, aliás, vive o maior momento de sua carreira. Já surgira com destaque no ano passado, quando foi um dos comandantes da campanha que levou o Nacional ao quarto lugar e, meses depois, a eliminar o favorito Zenit na última etapa classificatória da Liga Europa, garantindo aos madeirenses uma inesperada vaga na fase de grupos. Já há um bom tempo, seu nome é pedido a Carlos Queiroz, ainda que para testes, na seleção tuga.

Jogar no atual tetracampeão português — cujo esquema é semelhante ao de Queiroz em Portugal e que conta com o agora companheiro Raul Meireles em uma das pontas do triângulo central — será uma chance de ouro para Micael ainda sonhar com a África do Sul. O Porto, por sua vez, parece ter detectado o nome ideal para manter seu estilo de jogo. E apesar de perder sua referência, o Nacional poderá se acertar em seu balanço financeiro de final de temporada. Pode-se dizer que, “na média”, um negócio que acabou bom para quase todo mundo.

Em aberto

De fato, a venda de Ruben Micael teve benefícios economicamente positivos ao Nacional. Porém, do ponto de vista do campeonato, pode ter uma representatividade considerável — e negativa para os madeirenses. Os alvinegros estão em queda, há cinco jogos sem vencer e ainda sem o treinador Manuel Machado, em recuperação após ter ficado em coma induzido no Hospital de Funchal.

A saída do melhor jogador dos madeirenses será sentida, e pode levar o clube deixar a briga pela virtual última vaga portuguesa às competições europeias. Matematicamente, de fato, os alvinegros estão na parada. Mas, dos pontos de vista técnico e motivacional, não há como negar que o Nacional, que acumulara uma boa gordura na quinta posição, não perdera o Sporting de vista e ainda sonhava com a Liga Europa, chega defasado e “magrinho” a esse novo turno que se iniciou.

Quem se enche de esperança com isso são União de Leiria e Vitória de Guimarães, equipes que vêm logo atrás na tabela, ainda que ambas apresentem deficiências a serem analisadas. Por exemplo: Os leirienses, que voltaram nesta temporada à primeira divisão, contam com um desempenho ainda irregular em casa, onde atuarão na maior parte das vezes neste segundo turno. Até o momento, foram apenas duas vitórias em sete partidas disputadas no Magalhães Pessoa.

O Guimarães, por sua vez, sofre com a deficiência de seu ataque (16 gols em 16 jogos), excessivamente dependente do jovem Targino. Mesmo as interessantes atuações de Nuno Assis (um dos meias mais vezes selecionado para as seleções das rodadas pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional) e Desmarets não se mostraram suficientes para dar mais regularidade aos vimaranenses.

Ainda assim, a dupla vive um momento mais positivo, e, em especial, o Leiria. Vale lembrar que o clube ainda segue sob o efeito da espetacular ascensão da última temporada, em que, de 15° colocado, ao término do primeiro turno, arrancou o vice-campeonato da Liga Vitalis. Se o Nacional não se restabelecer tática e emocionalmente, será difícil brigar de forma parelha com os rivais, que parecem mais dispostos do que o próprio a alcançar o Sporting. E, tendo o novo baque no balneário leonino (veja curtas), não parece ser algo muito impossível.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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