Afinal, Cristiano ou Ronaldo?

Após a final da Liga dos Campeões na semana passada, Luiz Felipe Scolari (técnico da Seleção Portuguesa) voltou a mostrar sabedoria ao tratar de Cristiano Ronaldo. Sabendo que o craque português poderia colocar em causa sua carreira com o pênalti desperdiçado contra o Chelsea, Felipão usou a falha do “menino prodígio” para mostrar como um grupo precisa chegar unido à fase final da Eurocopa-2008.
Scolari afirmou, num tom alegórico-filosofal tantas vezes adotado pelos treinadores mundo afora, que um atleta não pode jogar por outros 20, mas 20 atletas podem jogar por um. A metáfora referia-se ao grau de união dos jogadores do Manchester, que souberam superar o tropeço de Cristiano Ronaldo para alcançar o título.
Mas o que o treinador queria dizer com isso? Primeiramente, mostrar que em sua equipe não poderá haver estrelismos solitários (algo muitas vezes cultivado por Cristianoi Ronaldo), já que a força coletiva é o mais importante. Por outro lado, por mais paradoxal que seja, Scolari acabou por elevar o mesmo Cristiano Ronaldo à categoria de ser único, que pode receber ajuda de 20 outros colegas de seleção.
Na conquista do Manchester diante do Chelsea, chama a atenção que, enquanto a totalidade dos jogadores corria em direção ao goleiro Van der Sar para comemorar o título, Ronaldo jogava-se ao gramado para chorar aliviado – e sozinho. Na verdade, para ele o título teve um sabor de anti-clímax, apesar de o português ter anotado o gol de sua equipe na final. O pênalti decisivo, cobrado de forma bisonha, quase deitou por terra uma certa empáfia futebolística que ameaça apoderar-se de Ronaldo, caso ele não se aperceba disso a tempo.
Eurocopa pode ser divisor de águas
Cristiano Ronaldo chegou a um ponto em que precisa mostrar que é mais Ronaldo do que Cristiano. Por sinal, em sua camisa do Manchester, o jogador preferiu anotar nas costas o segundo nome – Ronaldo –, numa possível alusão aos outros Ronaldos brasileiros, o Fenômeno e o Gaúcho. Felipão, por sua vez, prefere chamar o principal astro de sua seleção de Cristiano – talvez até por já ter trabalhado na Copa de 2002 com os outros Ronaldos e até para tirar-lhe dos ombros tamanha responsabilidade.
Certo é que a próxima Eurocopa terá um peso muito grande nas costas de Cristiano Ronaldo. O jogador luso, apontado como favorito ao título de melhor do mundo em 2008, terá que mostrar que pode fazer a diferença em partidas decisivas, e contra adversários de peso. Chega de fazer gols antológicos contra Boltons e Fulhams. Até agora, o craque tem falhado quando mais se exige dele (basta lembrar seu desempenho na final da Eurocopa de 2004 contra a Grécia, na semifinal do Mundial-2006 contra a França e na semifinal da LC de 2007, contra o Barcelona.) Se o “menino” fizer uma bela Eurocopa, entretanto – e mesmo que Portugal não seja campeão –, poucas vezes uma eleição de melhor do mundo terá sido anunciada com tanta antecedência como neste ano.
Golo de Letra
A longa história de Portugal, incluindo nela a anterior a seu nascimento como reino, é a de uma deriva e de uma fuga sem fim. Isso explica a dispersão dos portugueses e a sua presença no mundo.
(Eduardo Lourenço, Mitologia da Saudade, Companhia das Letras)



