A situação do Desportivo das Aves é de caos e abandono, mas os jogadores seguem em frente e desafiam os donos

Nenhum final de temporada é mais caótico do que o atravessado pelo Desportivo das Aves. Campeã da Taça de Portugal em 2018, a equipe amarga a lanterna na atual edição do Campeonato Português e conquistou míseros 17 pontos em 33 rodadas, rebaixada com louvores. E antes a questão se limitasse apenas ao péssimo rendimento dentro de campo. A crise se estende ao redor da agremiação, com rescisões de contratos e descumprimento de acordos. Os alvirrubros estão sob ameaça de até mesmo boicotar os últimos jogos da liga. Nesta terça, a série de tumultos incluiu o desaparecimento do troféu da Taça de Portugal e o sumiço da chave do ônibus que levaria os jogadores para enfrentar o Benfica. No fim das contas, a derrota por 4 a 0 diante dos encarnados parece até barata, considerando tudo o que se vive com o Aves.
Para entender o imbróglio, antes de mais nada, é preciso conhecer um pouco da estrutura do futebol português. Os clubes profissionais são constituídos por Sociedades Anônimas Desportivas, responsáveis por administrar o departamento de futebol no país. As chamadas SAD’s detém o capital dos times e cuidam de receitas, contratos, tudo o que estiver ligado à parte gerencial do esporte profissional. Paralelamente, o clube de associados continua existindo. Ele tem poder de veto sobre parte do que a SAD define, bem como obrigatoriamente permanece com ao menos 10% do capital. Além do mais, continua como dono dos bens materiais (como o estádio, o centro de treinamentos) e dos imateriais (como símbolos, títulos, história). Em suma, a SAD é o lado empresarial do futebol em Portugal e o clube atua como um guardião da tradição.
O crescimento do Desportivo das Aves nos últimos anos teve a ver com a SAD. Em 2015, a agremiação estava afundada em dívidas e receberia uma injeção de capital a partir do grupo Galaxy Believers, de donos chineses – ligados ao Shanghai Shenhua. Os novos investidores adquiriram inicialmente 75% das ações, saldaram parte das dívidas, passaram a melhorar as estruturas e montaram times competitivos à segundona. O presidente da SAD neste momento era o brasileiro Luiz Andrade – ao mesmo tempo administrador de uma empresa responsável pela exportação de pedras preciosas em Rondônia e que também atuava com bens imobiliários em Portugal.
O Desportivo das Aves, que havia disputado a elite do Campeonato Português apenas três vezes em sua história, conquistou o acesso pela quarta vez em 2017. Um ano depois, os novatos chegariam ao ápice quando derrotaram o Sporting de Jorge Jesus na final da Taça de Portugal. A aposta da SAD se concentrava na formação de jogadores e no intercâmbio com equipes chinesas. Para tanto, com apoio financeiro da federação chinesa, montou um moderno centro de treinamentos que receberia as equipes asiáticas durante intercâmbios na Europa. Pareciam ideias promissoras para sustentar a estrutura.
O primeiro sinal da má gestão do Desportivo das Aves aconteceria após a conquista da Taça de Portugal. O time teria vaga na Liga Europa, mas não iniciou o processo de licenciamento junto à Uefa a tempo e acabou perdendo seu lugar. Na mesma época, Luiz Andrade travava uma disputa interna com os investidores chineses, acusando-os de ingerência e descontente com o planejamento feito pela Galaxy Believers. Em junho de 2018, Andrade deixou a presidência da SAD e quem assumiu o posto foi Wei Zhao, empresário que começou a trabalhar com futebol no Brasil e já fazia negociações de jogadores. Seu plano inicial era levar atletas chineses ao futebol português, mas então decidiu comprar um time para si através da Galaxy Believers.
Já existiam denúncias de atrasos salariais e rombos financeiros desde 2019, mas Zhao garantia que a situação da SAD era estável. Em entrevista a’O Jogo, o presidente declarava que seu investimento passara dos €10 milhões e que sua intenção era lucrar com o passar dos anos. Depois de valorizar a agremiação, cogitaria vendê-la. Porém, que a permanência pela terceira temporada consecutiva na elite do Campeonato Português já representasse um feito tremendo, a situação nos últimos meses não favoreceu. Como um time pequeno, os alvirrubros não veem muitos caminhos para alavancar seu público. Dependem basicamente dos bons desempenhos em campo e, desde o princípio, a equipe ocupou a lanterna nesta edição da liga.
Como se não bastasse, a própria Galaxy Believers vivia disputas internas, com o presidente Zhao (ao lado de sua esposa, Estrela Costa) se contrapondo aos demais acionistas da empresa. Costa atuava como executiva da SAD e virou acionista da Galaxy Believers em março, dando a ela e ao marido o poder de decisão por maioria do capital. Isso tudo aconteceu bem no início da pandemia, que impactaria profundamente nas finanças dos alvirrubros. E, com um cenário péssimo, o caos provocado pela SAD ficou exposto ao longo dos últimos dias.
Estrela Costa soltou a primeira bomba no fim da última semana, ao anunciar que o Desportivo das Aves não enfrentaria o Portimonense na última rodada do Campeonato Português – um duelo vital na briga dos adversários contra o rebaixamento. Segundo a acionista da SAD, os alvirrubros não teriam condições para “salvaguardar a verdade esportiva e a transparência na luta pela permanência”. Com a crise, a SAD já vinha atrasando os salários dos funcionários. A solução a Estrela Costa seria, então, não atribuir os pontos ao Portimonense pelo W.O.
A direção do clube associativo do Desportivo das Aves, então, condenou a postura da SAD – que poderia até provocar a exclusão dos alvirrubros das ligas profissionais. “O CD Aves, na pessoa do presidente António Freitas, prontifica-se a assumir todas as despesas de deslocamento e alojamento para que a equipe profissional tenha condições de marcar presença em Portimão e possa representar com brio e profissionalismo o emblema, salvaguardando a verdade desportiva e defendendo o futebol português. Foi com enorme surpresa que recebemos esta informação através da imprensa. O CD Aves desmarca-se totalmente desta decisão e considera deploráveis e descabidas as razões apontadas para esta tomada de posição, que em nada defende a verdade desportiva”, dizia a carta do clube.
Apesar do entrave relativo ao Portimonense, a SAD do Desportivo das Aves ainda garantia que o duelo contra o Benfica nesta terça-feira não seria afetado. Mas não demorou para que a verdade viesse à tona. Neste final de semana, Estrela Costa anunciou que o time não encararia os encarnados. A apólice de seguros dos jogadores foi cancelada por falta de pagamentos e isso impediria o elenco até mesmo de treinar, sem proteção contra qualquer acidente de trabalho. A acionista afirmava que, “depois de uma reunião extraordinária, não conseguimos reunir uma verba para pagar os seguros”.
Presidente do clube associativo, António Freitas continuou segurando a bomba e garantindo que o Desportivo das Aves estaria em campo. Os jogadores se mostravam dispostos a enfrentar o Benfica, apesar da falta de seguro. Teriam que fazer um exame de COVID-19 às pressas, depois que a SAD cancelou os testes previstos para atender os protocolos sanitários. Enquanto isso, a liga e a federação em Portugal trabalhavam com o clube para evitar que o escândalo se tornasse maior e para que a ausência nos dois jogos não se consumasse. Outros que buscavam ajudar eram os próprios atletas profissionais de outros clubes. Bruno Fernandes e Ricardo Pereira entraram em contato com o capitão do Aves para ver se poderiam contribuir de alguma maneira, em meio aos quatro meses de salários atrasados.
“O que eu vejo é que nós damos uma solução e a senhora da SAD cria um entrave. Isso só tem um nome: chantagem. Vamos ter de falar com o departamento jurídico. Isto não se admite. Eles [SAD] estão a arruinar a história de um clube, uma história bonita que faz 90 anos em novembro. Estão a colocar em causa o futebol nacional, não só o Aves. Isto é uma vergonha, essa senhora mente com todos os dentes. Já não me acredito em nada. Nunca vi disto na minha vida. Isto é gente que não interessa, têm de ser banidos. Temos patrimônio, não temos nada hipotecado. A direção anterior, por muito respeito que tenha por ela, foi passiva. A SAD tem um protocolo, não cumpriu e não foi feito nada contra ela”, dizia António Freitas.
Com os portões do estádio fechados aos jogadores pela SAD, o clube disponibilizou um pavilhão para que os testes de COVID-19 fossem realizados na noite deste domingo. Horas depois, a SAD demitiu por telefone os médicos Filipe Puga e André Couto, por terem ajudado a organizar os exames. A equipe também foi impedida de treinar no CT, com as chaves em poder da SAD. A situação patética se seguiu nesta terça-feira, quando a SAD desapareceu com as chaves também do ônibus e o time precisou se dirigir da concentração ao estádio em seus próprios carros para enfrentar o Benfica em casa. Já no estádio, um juiz compareceu e deu a autorização para que a polícia arrombasse as portas de duas salas, usadas na preparação dos times, que permaneciam trancadas por culpa da SAD.
Até o momento da partida contra o Benfica, oito jogadores do Desportivo das Aves haviam apresentado cartas de rescisão por causa dos atrasos salariais. Apenas 19 atletas estiveram à disposição no encontro. Já durante o minuto inicial do jogo, os dois times permaneceram de braços cruzados – em protesto dos futebolistas do Aves contra a postura da SAD. Quando a bola finalmente rolou, a vitória benfiquista por 4 a 0 foi mais branda do que poderia se imaginar – muito por causa da atuação aguerrida dos oponentes. Rafa Silva abriu o placar aos quatro minutos e somente no início do segundo tempo é que Pizzi ampliou, cobrando pênalti. Já os dois últimos tentos seriam de Gonçalo Ramos, depois dos 42 da etapa complementar.
Depois da partida, o defensor Afonso Figueiredo exaltou a postura de seus companheiros: “Queria enaltecer o grupo destes 19 homens que estiveram aqui. Comissão técnica, médicos e toda a gente que teve coragem para jogar. É de enaltecer a coragem que tivemos para estar aqui. Tem sido difícil, foi um ano bastante complicado. Neste momento as dificuldades estão mais expostas, mas queria agradecer às pessoas que nunca deixaram cair este clube. Nunca vi torcedores tao apaixonados, sem eles também não era possível. E também uma palavra para o presidente António Freitas, fez tudo para estarmos aqui”.
O técnico Nuno Manta também reforçou o comprometimento de todos com o fim da campanha: “Era fácil dizer muita coisa e arranjar muitas desculpas. Toda a gente sabe o contexto e a realidade do Aves. Acima de tudo dignificamos muito esta camisa, e vamos continuar a dignificar. E a prova é a maneira que jogamos hoje, apesar do resultado. Honramos muito o futebol português e vamos continuar, desde que nos deixem fazer isso. Tivemos um adversário muito forte, mas o mais importante era a verdade desportiva e a honra”.
Por ora, o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol optou por arquivar um processo contra a SAD por não pagar os salários. A administração não apresentou o demonstrativo relativo aos meses de março e abril à liga, que denunciou o caso à federação. Porém, segundo o conselho, “não há indícios de irregularidade” – quando toda a situação aponta para o contrário. Foi a terceira absolvição da SAD pelo mesmo tema apenas nesta temporada. E a novela se estenderá um pouco mais até o domingo, quando deverá acontecer o jogo contra o Portimonense. A promessa do clube e dos jogadores que permanecem na luta é de que não haverá desistência.
Entre os muitos sumiços das últimas horas, um deles chama especial atenção: o troféu relativo à conquista da Taça de Portugal, que ficava exposto na entrada do estádio, ao lado de outras honrarias, não estava no local antes do duelo contra o Benfica. O clube desconhece o paradeiro do objeto. Aparentemente, alguém tenta levar os espólios dos alvirrubros. A história do feito e a honra de tê-lo alcançado, porém, para sempre permanecerão com o Desportivo das Aves. É um bem imaterial e inalienável do clube. Resta saber como será o recomeço na próxima temporada: se ainda ligado à SAD ou depois de uma cisão como a ocorrida no Belenenses, se na segunda divisão ou numa reconstrução nos níveis regionais. Certo é que a mesma gestão que proporcionou a glória é a que provoca uma ruína muito maior, abandonando o clube em meio à crise. Torna mais questionável o modelo empresarial adotado pelo futebol profissional em Portugal.



