Portugal

A nova sensação

Dono de um dos menores orçamentos da Liga Portuguesa, o Rio Ave sempre é visto como candidato ao rebaixamento. Até o começo de fevereiro, era bem isso que se desenhava – ainda que o colunista, pelo elenco formado em Vila do Conde, indicava que não seria agora que a equipe dos Arcos desceria de divisão. Para se ter uma ideia, entre 18 de dezembro e 6 de fevereiro, foram seis derrotas seguidas, sendo cinco pelo campeonato nacional. Foi então que a equipe comandada por Carlos Brito ascendeu de forma inacreditável, colocando-se com uma das melhores campanhas do segundo turno, sondando até as vagas portuguesas para a Europa.

Nos últimos 9 jogos, o saldo impressiona, especialmente em se tratando do clube que é: foram 7 vitórias, um empate (Sporting) e uma derrota (Braga, fora). Nesse período, um resultado inesperado e, para muitos, inacreditável: 6 a 1 no competente Paços de Ferreira, na Mata Real. Foram 22 pontos conquistados nessa sequência – que se somaram aos 14 somados nas 17 rodadas anteriores, quando o time estava em antepenúltimo lugar. Desempenho que tirou a equipe do perigo do rebaixamento para as seis primeiras posições da tabela, com o sonho real de, ao menos, repetir a campanha da temporada 1981/82, quando terminou a época em 5º lugar.

Não é só isso. Dos 16 clubes da primeira divisão, apenas cinco têm saldo positivo: Porto, Benfica, Braga, Sporting e… Rio Ave! E a equipe tem, ainda, a terceira melhor defesa da competição, com 28 gols sofridos, perdendo a parada somente para Porto (13) e Benfica (26). Para se ter uma ideia, nestes 9 jogos, a equipe sofreu somente 2 gols, marcando 14 vezes. Sem contar que, pela primeira vez, o Rio Ave alcançou uma sequência de quatro triunfos consecutivos na elite. Números que ratificam a reação e evidenciam o perfil coletivo do elenco, aplicado taticamente e coeso principalmente sob a ótica defensiva. Para muitos torcedores, já vem o pensamento: “Ah, se isso começasse duas rodadas antes…”.

Algumas razões ajudam a entender a reação. A primeira é a manutenção de Carlos Brito no cargo. Treinador, aliás, bastante identificado com os vilacondenses. Esteve no Rio Ave como jogador entre 1990 e 1996, assumindo a equipe em seguida, permanecendo no cargo até 2000. Voltou de 2002 a 2005, retornando de vez em 2009. Ao todo, portanto, cerca de 15 temporadas dedicadas ao emblema de Vila do Conde. Além disso, há confiança da diretoria no trabalho de Brito, que precisou lidar com a perda de pelo menos três jogadores essenciais – os laterais Sílvio (Braga) e Fábio Faria (Benfica) e o meia André Villas Boas (Marítimo) –, teve dificuldades para entrosar o grupo com os reforços, mas encontrou o time ideal a tempo da fantástica ascensão. O que não deixa de ser um exemplo para equipes grandes (e mesmo médias e pequenas) do Brasil.

O atual time conta, de fato, com valores interessantes. Nenhum deles fora de série, como há de se observar, mas jogadores úteis e taticamente bem disciplinados. Alguns mais conhecidos, como o incansável João Tomás, já retratado nesta coluna. Tomás, aliás, é um dos principais goleadores da atual temporada, com 15 tentos, atrás somente de Hulk e a frente de nomes muito mais badalados, como Radamel Falcão Garcia (14), Javier Saviola (9) e Oscar Cardozo (9). Outros nomes também vêm fazendo uma boa temporada, como o meia Braga, e o meia-atacante Bruno Gama – que busca recuperar a badalação de seus anos como jovem promessa do Porto. Além, claro, dos responsáveis pelo eficiente sistema defensivo do time, como o experiente goleiro Paulo Santos, os defensores Gaspar, Tiago Pinto e Jeferson e o volante Wires.

E embora menos incidente na atual época, o Rio Ave é, também, dono de um interessante perfil formador – que, naturalmente, lhe é importante para geração de recursos, quase sempre tão escassos. O histórico da fornalha vilacondense tem jogadores de seleção, como o meia Paulinho Santos, que rumou dos Arcos para o Porto na década de 90; o lateral esquerdo Fábio Coentrão, melhor da posição da última Copa do Mundo e destaque do Benfica; e até mesmo um certo José Mourinho, que se nunca despontou como jogador, é hoje o grande treinador do futebol internacional. As mais recentes promessas forjadas nos escalões inferiores do clube foram o brasileiro Alípio, que chamou atenção do Real Madrid com apenas 16 anos e acabou contratado por 600 mil euros pelos merengues; e os laterais Fábio Faria (Benfica, contratado por 2 milhões de euros) e Sílvio.

É fato que Carlos Brito e o Rio Ave deverão sofrer com a saída de seus destaques – algo difícil de não ocorrer. O próprio Brito vem sendo sondado pelo Cluj, da Romênia. No entanto, a atual campanha pode pesar na permanência dele e de mais alguns atletas, de olho em “algo mais” para 2011/12. E aí, o rendimento nestes três jogos finais – inclusive na última partida em casa, ante o Benfica, na 29ª rodada – podem ser importantes para o planejamento da época. Se com seu orçamento, o Rio Ave era candidato à queda (mas soube formar um elenco capaz de torná-lo um time por demais perigoso), entrosado e com uma base já seguramente capacitada assegurada para a temporada seguinte, pode ser uma séria ameaça à parte de cima da tabela.

Porto 4 a 1

Foi o quinto jogo entre Porto e Benfica na temporada. Todos eles, de alguma forma, foram decisivos. No primeiro, pela Supercopa, vitória portista tranquila por 2 a 0 e o primeiro título azul na época. No segundo, pela Liga, massacre do Porto por 5 a 0. No terceiro, justamente no momento de renascimento encarnado na época, o único triunfo das Águias (2 a 0), na partida de ida das semifinais da Taça de Portugal – curiosamente, no Estádio do Dragão. No quarto, um apertado 2 a 1 que sacramentou o já há muito cantado título nacional aos Dragões, em plena Luz.

O quinto – que só não era mais derradeiro porque a dupla ainda pode se encontrar na final de Liga Europa mais aguardada dos últimos anos –, porém, tinha teoricamente tudo para brilhar ao Benfica. Afinal, mesmo que o Porto viesse a simplesmente ganhar, o triunfo de nada podia valer, já que não bastava vencer: era preciso fazer pelo menos três gols (e sofrer no máximo um). Mas os Dragões mostraram que não fazem a temporada que fazem à toa, e “rebobinaram” o vídeo de duas semanas atrás, quando conquistaram o título nacional na Luz, fazendo 3 a 1 e derrubando os campeões portugueses de 2009/10.

O jogo em si pode ser dividido em duas partes. Na primeira, um Benfica mais presente ante um Porto, embora tivesse posse de bola, não conseguia transformá-la em gol. Pelos encarnados, a determinação de Carlos Martins – melhor benfiquista em campo, armando e atacando com vontade e intensidade – e a boa partida de Javi Garcia dava a sensação de que, ao menos, o confronto seguiria equilibrado. O que era bom ao Benfica, que mesmo sem Sálvio e com o nada especial Jara improvisado, vinha até bem.

Aos poucos, porém, o Porto ia encurralando o rival, crescendo à medida que a etapa inicial decorria, obrigando o goleiro brasileiro Júlio César a aparecer. E no segundo tempo, veio o baile azul na Luz. Baile que se deu principalmente porque o espírito deste Porto é diferente. Porque o time soube a hora e como dar o bote, como soube não perder a cabeça quando o Benfica emplacou a série de vitórias pós-Liga dos Campeões, algumas rodadas atrás. A entrada de James Rodrigues deu mais velocidade ao setor ofensivo portista, que mesmo fora de casa, aproveitou-se da dificuldade encarnada em saber como jogar com o resultado e tomou conta.

Os três gols em um espaço de 10 minutos, que mudaram o roteiro da Taça de Portugal, evidenciaram a dificuldade do Benfica em assimilar momentos de se conter vantagens, especialmente quando o momento de ambos os clubes é distinto. Também mostraram a diferença dos elencos. As Águias, à bem da verdade, não têm um banco adequado e, já na temporada passada, dependiam muito de seu ótimo time titular. Enquanto estão com seus onze principais, fazem o que sabem. Sem eles, vêem-se em problemas – como improvisar Jara na função, teoricamente, de Sálvio, por exemplo.

Não que os reservas dos Dragões sejam fantásticos ou coisa parecida. Basta dizer que Walter, embora tenha potencial, ainda não é o substituto ideal de Falcão. Mas é inegável que as opções existentes, principalmente a um setor delicado que é o meio campo, são melhores no banco azul (que se dá ao luxo de ter Belluschi e Ruben Micael fora dos titulares na temporada) que no vermelho (onde a única real disputa nivelada está entre Carlos Martins e Aimar). O que pode ser encarado, na parte lisboeta, de outra forma: como um indicativo de algo que pode ser aprimorado à próxima época.

Restam duas

Mas ainda restam aos encarnados duas chances de título na temporada. Ambas, porém, longe de serem garantidas. A mais viável – mas não menos complicada – é a sempre contestada Taça da Liga, vencida pelo Benfica nos últimos dois anos. O rival, o Paços de Ferreira, caiu bastante de produção. Cenário positivo, certo? No entanto, se às Águias vencer é questão de honra, aos Castores este pode ser o jogo mais importante da história do clube, que nas últimas três épocas se viu em duas finais nacionais (Taça de Portugal em 2008/09 e Supercopa em 2009/10), e estreou em competições continentais. Muito, para um clube pequeno de uma pequena cidade, mas que mostra ser muito bem organizado. E um título, ainda que da Taça da Liga, pode ser extremamente signficativo e coroar um trabalho que se notabilizou pelo investimento pontual e a mescla de talentos jovens (alguns ignorados nos grandes) com outros mais rodados.

A outra, porém, que se tornou o grande objetivo benfiquista com o término das chances no Campeonato Português, é a Liga Europa. É também, todavia, a mais difícil das disputas, ainda que a mais gloriosa, já que há 49 anos o time não levanta um caneco europeu, e há 21 não chega a uma decisão continental. Primeiro, há de se bater um Braga cada vez mais motivado para fazer história. E em caso de classificação, a decisão pode ter novamente o duelo com o Porto, naquela que é a final mais aguardada para a atual edição do torneio europeu. Não se trata de um cenário impossível. O problema é que até Jorge Jesus sentiu o baque da eliminação, da forma como esta se deu, na Taça de Portugal, e ainda não se sabe exatamente como entrará o time ante os bracarenses.

É esperado, portanto, que o jogo deste sábado seja um termômetro. O título, dependendo de como vier, pode devolver confiança à equipe. Nem tanto por vencer o Paços – que levou cinco dos encarnados no último duelo entre ambos. Mas pela oportunidade de o grupo se reestruturar, partindo em alta para os duelos contra o Braga, principalmente porque o primeiro deles será na Luz. O que deve fazer com que Jesus leve para enfrentar os Castores o que tem de melhor, ainda que isso custe algum excesso. A chance, tendo em vista o mau rendimento recente dos Castores, é crucial para as pretensões vermelhas de que o final da temporada ainda seja motivo de alegria à maior torcida do país.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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