Portugal

A (im)parcialidade dos tribunais

A novela do caso Apito Dourado (que investiga casos de manipulação de resultados em Portugal) não deve encerrar-se tão cedo. Tudo porque os órgãos de justiça desportiva têm mostrado especial competência para retardarem qualquer definição que ratifique ou não as decisões já apontadas. A questão ficou ainda mais anedótica após o triste episódio protagonizado na última sexta-feira (4 de julho) pelos membros do Conselho de Justiça (CJ) da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), que conseguiram “promulgar” dois resultados diferentes sobre a suspensão de Pinto da Costa (presidente do Porto) e sobre o rebaixamento do Boavista à segunda divisão.

Apenas para situar o leitor: em 9 de maio deste ano, a Liga de Clubes divulgou o resultado de um estudo, intitulado “Apito Final”, a respeito das investigações que envolvem o processo Apito Dourado (Obs.: a justiça comum portuguesa ainda não julgou os principais argüidos do caso). Entre as decisões da Liga, destacava-se o rebaixamento do Boavista, a suspensão de dois anos de Pinto da Costa e a perda de seis pontos do Porto (debitados no último campeonato por uma comodidade da lei, já que o clube ficou com o título assim mesmo). O objetivo da Liga de Clubes era dar alguma agilidade à questão, como forma de responder ao descrédito que já invadia a opinião pública do país face à impunidade reinante.

No entanto, para que essas punições fossem homologadas, era preciso que a Federação Portuguesa de Futebol ratificasse ou recusasse as indicações da Liga por meio de seu Conselho de Justiça. O Porto não quis recorrer da punição apontada pela Liga (daí o imbróglio em que está metido, sob o risco ainda de ser penalizado pela Uefa), mas o Boavista e Pinto da Costa entraram com recursos contra as decisões da Liga. Esses mesmos recursos deveriam ter sido julgados pelo Conselho de Justiça da FPF no dia 4 de julho, mas o inusitado então aconteceu.

E agora, justiça?

Durante a sessão, o presidente e o vice-presidente do CJ ausentaram-se da reunião, sob alegada discordância com o andamento dos trabalhos. Uma das discordâncias tem a ver com o fato de o presidente do CJ, António Gonçalves Pereira, querer impedir que um dos membros, João Abreu, tivesse poder de voto. Contestados pelos demais integrantes do órgão, o presidente e o vice deram a reunião por encerrada, mas os outros cinco membros presentes à sessão continuaram o encontro à revelia. Ao final, rejeitaram os recursos de Boavista e Pinto da Costa, mantendo as punições anteriores.

A questão agora é saber se a decisão tomada tem valor jurídico ou não. Para o presidente do CJ, que apresentou a ata da reunião até o momento em que esteve presente, “o que se passou depois do final da reunião, que terminou às 17h55, foi um mero encontro formal entre cinco conselheiros. Tudo o que ali se decidiu é inexistente do ponto de vista jurídico”. Para complicar, a direção da FPF não tem poder legal para intervir no caso, pois o CJ é um órgão independente. Espera-se que nesta segunda-feira a entidade analise os documentos resultantes da reunião, a fim de divulgar uma nota oficial.

Para além do inusitado, fica ainda a nódoa da acusação de que o presidente do CJ tenha tentado coagir os membros do órgão no sentido de que favorecessem Pinto da Costa e o Boavista. O pior de tudo é que o caso pode voltar a complicar as coisas para o Porto, já que sua presença na próxima Liga dos Campeões está sendo contestada pelo Benfica junto ao Tribunal Arbitral do Desporto (TAS). A Liga de Clubes, por sua vez, realiza também nesta segunda-feira o sorteio da tabela da Primeira Divisão do futebol português. O Boavista deverá aparecer acompanhado de um asterisco, dando conta de sua “instável” condição (em seu lugar, entrará – ou não – o Paços de Ferreira).

Carlos Queiroz já se sente treinador da Seleção

Carlos Queiroz concedeu entrevistas no último final de semana como virtual treinador da Seleção Portuguesa. Preferido pelo presidente da FPF, Gilberto Madaíl, o atual adjunto de Alex Ferguson no Manchester United esteve em Portugal nos últimos dias – talvez para reunir-se com o próprio Madaíl. Instigado por jornalistas, Queiroz foi categórico: “Já não tenho muito a conversar, tudo tem que ser resolvido pelas duas instituições”, referindo-se à Federação Portuguesa e ao clube com o qual mantém contrato. Imagina-se ainda que, nessa frase, esteja embutido o real motivo da indefinição: a multa rescisória que deverá ser paga ao Manchester pelo treinador ou pela FPF.

De acordo com a imprensa inglesa, o clube inglês chegou a propor a Queiroz um salário anual de cerca 1,9 milhões de euros (o que representa 50% por cento de aumento, numa tentativa de “cobrir” a proposta da FPF). Além disso, a direção do Manchester tem acenado também com a possibilidade de Queiroz ocupar o lugar
Alex Ferguson, que poderá aposentar-se daqui a duas temporadas. Fato é que o técnico está sedento por ocupar o posto deixado por Luiz Felipe Scolari. À frente da Seleção Portuguesa, não deve apresentar os mesmos resultados de seu antecessor. Ao lado de Ferguson, porém, deve continuar fazendo do Manchester uma das maiores potências mundiais.

Golo de Letra

Como queiras, Amor, como tu queiras.
Entregue a ti, a tudo me abandono,
seguro e certo, num terror tranqüilo.
A tudo quanto espero e quanto temo,
entregue a ti, Amor, eu me dedico.

Nada há que eu não conheça, que eu não saiba
e nada, não, ainda há por que eu não espere
como de quem ser vida é ter destino.

(Poema “Como queiras, amor”, de Jorge de Senna)
 

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Equipe Trivela

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