A hora de Queiroz

Não há mais possibilidades de manobra para Carlos Queiroz, atual técnico da Seleção Portuguesa. Sua equipe não tem alternativa senão vencer a Albânia fora de casa, no próximo sábado (6 de junho), se quiser viajar para o Mundial da África do Sul em 2010. Portugal é apenas o terceiro colocado no Grupo 1 das eliminatórias européias, com seis pontos, ao lado da Suécia e da mesma Albânia. Muito à frente, aparecem a Dinamarca e a Hungria (ambas com 13 pontos, e os húngaros com um jogo a mais). Atualmente, ficar em segundo lugar na chave já seria uma bênção para os Tugas, que precisariam torcer para enfrentar alguma seleção acessível na repescagem européia.
No entanto, o risco de não se classificar para a próxima Copa é cada vez mais presente para a torcida portuguesa, em virtude da pífia campanha de sua seleção: em cinco partidas, conquistou-se uma mísera vitória (contra Malta), uma derrota em casa (para a Dinamarca) e três empates (dois com a Suécia e um com a Albânia). Pior do que isso é o número de gols marcados: apenas seis. Desse total, quatro foram anotados na partida de estréia, contra Malta. Outros dois, na derrota para a Dinamarca (2 a 3). Nos últimos três jogos, o time passou em branco e não anotou nenhum gol.
A cada resultado ruim nas eliminatórias, o técnico Queiroz saía-se sempre com alguma frase de efeito para explicar o desaire. E, quase sempre, tínhamos uma frase sem nexo, tentando justificar o injustificável. Desta vez, a tal frase foi proferida na conferência de imprensa antes da partida: “A equipe está forte e com muito entusiasmo. Aos portugueses digo para porem os olhos nos nossos jogadores na hora de começar o jogo porque vão sentir da parte deles uma grande vontade de não os desiludir. Não gostava de estar na posição dos albaneses.”
Queiroz deveria gostar de não estar na posição que ocupa hoje. Sem marcar gols há três jogos, sua seleção terá que mostrar algo que não se viu até agora para conquistar algo mais do que meros empates por 0 a 0. O pior é que a tabela das eliminatórias é extremamente complicada para Portugal: depois da partida de 6 de junho, os Tugas enfrentam fora de casa a Dinamarca (5 de setembro) e a Hungria (9 de setembro) – seus concorrentes diretos pela vaga. E ainda precisam ver do que será capaz a Suécia, que jogou apenas quatro vezes até agora.
As limitações de Queiroz na seleção
Queiroz fez uso de seu prestígio junto a Gilberto Madaíl, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, para assumir a seleção nacional no lugar de Luiz Felipe Scolari após a Eurocopa de 2008. Pegou uma equipe envelhecida em alguns setores e submetida a um processo de renovação forçado após o fim da Copa da Alemanha, em 2006, quando Figo e Pauleta se aposentaram da seleção. O problema é que o atual treinador ainda não conseguiu dar um padrão de jogo à equipe, nem resolver o problema crônico da falta de liderança em campo, a partir do vácuo surgido com a saída de Figo.
Nos últimos jogos, Portugal tem feito apresentações burocráticas, sem brilho e sem eficiência. Não adianta dizer que a equipe teve 65% de posse de bola, ou que finalizou 15 vezes, contra duas do adversário. Importa verificar que o meio-de-campo perdeu a consistência da Era Felipão e que o ataque (problema atávico dos portugueses) vem decepcionando continuamente. As opções de Queiroz em um e em outro setor também são discutíveis, e parece claro que Tiago e Dani – só para citar dois nomes preferidos pelo treinador – não têm estofo para representar algum tipo de solução para a equipe.
O único ponto positivo do reinado de Queiroz até agora é a defesa: em cinco partidas das eliminatórias, Portugal sofreu gols em apenas uma delas. O problema é que foram logo três gols diante da Dinamarca, em Lisboa, na derrota por 3 a 2. Outro desafio para o treinador: fazer com que Cristiano Ronaldo tenha na seleção um rendimento próximo ao que ele apresenta no Manchester United. Depois de fracassar com Portugal nas eliminatórias da Copa de 1994, Queiroz corre o risco de repetir o fiasco para a Copa de 2010. Parafraseando o “mister”, eu não gostava de estar na posição dele…
Golo de Letra
O mundo da cultura portuguesa arrasta há quatro séculos uma existência crepuscular.
(Eduardo Lourenço, Heterodoxia, ensaio publicado em 1949)



