Portugal

A ditadura da anarquia

Alguns dos últimos Natais foram muito parecidos para Liedson e para o Sporting. A cada fim de ano, o atacante brasileiro parece criar um clima de instabilidade com a comissão técnica ou o corpo diretivo do clube. No último mês de novembro, seu representante, Gilmar Veloz, queixava-se da falta de visibilidade da Liga Portuguesa, o que dificultaria uma convocação do jogador para a Seleção Brasileira. Em seguida, Liedson quase agrediu seu colega Vukcevic, em partida na Ilha da Madeira, devido a desentendimentos em campo. Depois, vieram as declarações no Natal, em que ele se queixava da falta de liberdade em Alvalade e dizia que, se não pudesse expressar-se, é porque viveria numa ditadura ou num quartel.

A referência pouco diplomática dizia respeito ao fato de o jogador se ter recusado a treinar cobranças de penalidades às vésperas de uma partida eliminatória da Taça da Liga. O técnico Paulo Bento não gostou da postura de Liedson, e a relação entre ambos se deteriorou completamente (a citação à ditadura ou ao quartel é uma alusão implícita ao centralismo do treinador). Seria essa uma tática para forçar sua saída na abertura do mercado de transferências, em janeiro? Difícil assegurar que sim. No mínimo, pode tratar-se de uma estratégia para, pelo menos, aumentar os salários do atleta, como já ocorreu na novela da renovação de contrato há três anos.

O certo é que, com 30 anos, Liedson não tem grandes horizontes à sua frente. Seu contrato atual com os Leões vence apenas em 2010, e, para o Sporting, uma negociação no meio de 2008 seria proveitosa, já que entrariam alguns milhões de euros para o caixa do clube. Com essa idade, o brasileiro acabaria indo, provavelmente, para o futebol do leste europeu ou voltaria ao Brasil. Poderia até aferir valores maiores na Rússia ou na Ucrânia, mas as chances de não ter sucesso são grandes, haja vista o que tem ocorrido com outros jogadores portugueses que seguiram esse percurso (casos de Maniche, Costinha e do luso-brasileiro Derlei).

De resto, essa situação mostra que o Sporting necessita de um treinador mais experiente e menos vulnerável do que o novato Paulo Bento, que pelo menos soube responder bem à provocação do brasileiro: “Eu ficaria mais preocupado, e julgo que o Sporting também, se aqui houvesse anarquia”. De todo modo, sente-se um vácuo de comando no clube, e essa não foi a primeira provocação à autoridade do técnico. Até hoje, Paulo Bento tem-se mostrado capaz de fazer do Sporting um time com futebol vistoso. A falta de títulos e os maus resultados nas competições européias, entretanto, fazem dele uma presa fácil para seus comandados e a própria torcida.

Porto avança sem sobressaltos rumo a mais um título

Completado o primeiro turno do Campeonato Português, a situação só melhorou para o Porto, que permanece tranqüilo em primeiro, agora com nove pontos à frente do vice-colocado Benfica e 12 à frente do terceiro, o Sporting. O clube da Luz voltou a mostrar um fraquíssimo futebol na cidade de Setúbal e apenas empatou em 1 a 1 com o Vitória local, levando o gol da igualdade aos 43 minutos do segundo tempo. Mas o destaque negativo vai para o brasileiro Luisão e o grego Katsouranis, que se desentenderam em campo e quase se agrediram mutuamente (foram castigados com duas substituições feitas pelo técnico José Camacho e suspensos preventivamente pelo clube).

Mas a grande decepção da temporada, até agora, é o Sporting, que já percebeu que o título nacional é hoje algo muito remoto. Assim, os Leões parecem mais dispostos a, num primeiro momento, lutar com o Benfica pela vice-liderança do campeonato, o que lhe dariam o direito de, pela primeira vez na história, disputar a fase de grupos da Liga dos Campeões pelo terceiro ano consecutivo. De todo modo, se for para repetir as campanhas das duas últimas edições (em 2006, ficou em último no grupo; em 2007, em penúltimo), é melhor que o Sporting se concentre em melhorar sua presença no âmbito doméstico, num campeonato em que, em tese, dispõe de apenas dois adversários de verdade (o Porto e o Benfica).

A (in)sensibilidade benfiquista no caso do lateral Léo

Além de Liedson, outro brasileiro também movimentou a imprensa esportiva lusa nas últimas semanas. Trata-se do lateral-esquerdo Léo, que parece viver dias pouco serenos com a diretoria do Benfica, muito em virtude dos boatos que dão conta de sua volta ao Santos agora em janeiro – até porque o contrato do jogador vence em maio deste ano. Léo é muito bem visto pela torcida benfiquista e pelos comentaristas portugueses. No entanto, a renovação de contrato está bastante complicada, em virtude do salário pretendido pelo jogador e em virtude da relutância do clube, que não está disposto a pagar muito por um atleta que completará 33 anos em julho.

As coisas pioraram na virada do ano: o elenco befiquista era obrigado a reapresentar-se no dia 26 de dezembro. Léo solicitou um adiamento do regresso a Lisboa, pois queria estar ao lado de seu pai, que, com 78 anos, seria submetido a uma delicada cirurgia cardíaca. No primeiro momento, a diretoria do clube foi inflexível, e Léo, bastante contrariado, reapresentou-se ao clube na data marcada. Depois, o Benfica autorizou o lateral a voltar ao Brasil no último domingo (6 de janeiro), para permanecer alguns dias com a família. A dúvida, agora, é se o jogador aproveitará a permanência no país natal para acertar sua transferência ou se haverá um acordo para mais dois anos em Portugal.

Golo de Letra

Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.

Poema “Ainda sabemos cantar”, de Eugénio Andrade.

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Equipe Trivela

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