Portugal

A barca de Queiroz

A convocação da seleção portuguesa não está completa. Foram chamados pelo treinador Carlos Queiroz 24 nomes, já que as incertezas sobre o luso-brasileiro Pepe fizeram com que o técnico chamasse dois zagueiros a mais. De qualquer forma, a lista de Queiroz possui mais surpresas do que o previsto por torcedores e mesmo pela imprensa, ainda que as “zebras” não devam causar grandes mudanças, tanto no padrão de jogo da equipe, como no próprio grupo que deverá iniciar o Mundial.

Dentro do inicialmente imaginado, foi no gol que, proporcionalmente, detectaram-se as principais alterações: 66% de mudanças. Nomes constantes em listas anteriores, Quim, Rui Patrício ou mesmo Hilário, eterno reserva do Chelsea, perderam espaço para o inesperado Daniel Fernandes, do grego Iraklis, e Beto, do Porto. Escolha tão questionável quanto seria a de qualquer um dos demais arqueiros citados. Bem ou mal, Quim e Patrício foram titulares ao longo da temporada, e irregularidades à parte, estavam com mais ritmo.

Enquanto isso, Fernandes só jogou duas vezes com a camisa portuguesa (sempre como substituto), e não vive o mesmo bom momento do meio da década, quando se destacou no PAOK. Já Beto passou grande parte da temporada na reserva de Helton, e tem como experiência uma série de jogos defendendo o Leixões e na Taça de Portugal. Poucas credenciais, como se vê, para os dois companheiros de Eduardo, que, exceto por alguma insanidade de Queiroz, será o titular (e deverá ir para o Benfica na próxima época).

A zaga é o setor que ainda aguarda um último corte. Sem saber se Pepe estará em condições de jogar, o técnico português convocou Ricardo Costa e Zé Castro. A tendência é que, confirmado o jogador do Real Madrid, um dos dois deixe a equipe, e aí, pode-se dizer que há uma grande incognita. Nada, porém, que deva afetar a formação atual do sistema defensivo, uma das poucas unanimidades, com a titularidade de Ricardo Carvalho e de Bruno Alves, a menos que Queiroz opte (o que será difícil) em usar Pepe na defesa.

Mantida a “coerência” (palavra em voga no momento), o luso-brasileiro jogará como primeiro volante, embora, por precaução ao ritmo e às condições do jogador, é possível que o treinador inicie a Copa com Pedro Mendes no posto. Há quem defendesse a presença de Ruben Amorim, do Benfica, no lugar de Miguel Veloso. De fato, Amorim até merecia uma chance, mas pesa não só a também boa temporada de Veloso (apesar de sua equipe), mas também sua polivalência, já que pode atuar como volante, meia e mesmo lateral.

Por falar nas alas, é lá que está a surpresa mais positiva, com o esquerdino Fábio Coentrão. Se Queiroz fosse Dunga, talvez justificasse que o benfiquista aproveitou “seus cinco minutinhos” contra a Bosnia. Não é bem assim, já que Coentrão não apresentou nada de espetacular quando alçado nas eliminatórias, sendo mais recompensado pela brilhante temporada como titular na posição pelos Encarnados do que por sua única chance com Carlos Queiroz.

Ainda sobre Coentrão, é verdade que havia dúvidas se o treinador iria “gastar” uma posição do meio campo para convocar um segundo lateral esquerdo além de Duda, até por já ter Miguel Veloso (algo, por exemplo, defendido no Brasil, para que Ganso ou Ronaldinho tivessem espaço). Só que em Portugal, curiosamente, o clamor popular era justamente para ter esse segundo esquerdino, e, diferentemente de Dunga, Queiroz acabou ouvindo o povo. Na direita, sem surpresas, com Paulo Ferreira (provável titular) e Miguel.

No meio, uma zebra: a ausência de João Moutinho, nome constante nas listas do treinador luso. Porém, por mais surpreendente que pareça a medida, ela não se mostra equivocada. Moutinho teve uma temporada muito ruim, sumindo em momentos decisivos e se deixando impregnar pelo mau momento dos Leões. Há tempos passou a ser uma incógnita para a Copa. Como nem vinha sendo escalado direito nas eliminatórias, diferente de Deco, Raul Meieres ou Tiago, e havia outros nomes possíveis a serem convocados (como Coentrão), sobrou para o sportinguista.

De qualquer forma, o meio-campo ainda fornece dúvidas na provável escalação. Deco caiu de produção e é pouco usado no Chelsea, mas é quase “intocável” no time de Queiroz. Não se sabe, por exemplo, se Danny teria condições de substituí-lo ou suprí-lo, mesmo com um perfil mais ofensivo que o de um “médio” como Deco. Se não, quem será esse cara? Em tese, Raul Meireles, titular nas eliminatórias, mas… O nome “popular” era o de Ruben Micael, mas o portista lesionou-se na reta final da Liga e ficou fora do Mundial. Já Quaresma era carta fora do baralho há tempos.

Uma ideia que já é trabalhada é o recuo de Simão para o meio com Deco e puxar Nani, em grande fase, à titularidade na frente, com Cristiano Ronaldo e Liedson. Aliás, Ronaldo já declarou antes que gostaria de atuar com o atacante do Manchester United. No papel, um time tecnicamente melhor, forte e bem ofensivo, mas vulnerável atrás, no que pode ser fatal contra times com qualidade ofensiva, como Costa do Marfim e Brasil. Basta lembrar que, quando Portugal se expôs contra os brasileiros – que possuem, ainda, uma boa segurança defensiva -, levou um sonoro 6 a 2.

Em linhas gerais, a convocação de Carlos Queiroz não é ruim. O criticado treinador até foi relativamente coerente com seu trabalho, mas, ao tentar reparar erros de outras chamadas, deu uma de “Dunga”: nomes atraentes aos portugueses, como Daniel Carriço, Ruben Amorim e Makukula foram desprezados, e até por isso, as convocações de Daniel Fernandes, Beto, Ricardo Costa e Zé Castro causaram mais espanto que o previsto. A pressão em ambos os treinadores também se assemelha, em suas devidas proporções.

Mas aí, se Dunga tem o crédito de ter sua pragmática equipe jogando bem e vencendo, Queiroz tem o desafio de, com um time também desacreditado, mas que encontra dificuldades para superar “potências” como Estônia e China, ir longe no Mundial, principalmente com a seleção assumindo o terceiro lugar do confuso ranking da FIFA. Mais do que coerência, o que se cobra ao técnico tuga são resultados significativos. E desde a saída de Felipão, estes têm sido escassos nas bandas portuguesas.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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