Por que cada vez mais as mulheres querem jogar futebol no exterior

Com pouca estrutura e pouco incentivo no Brasil, cada vez mais mulheres tentam uma carreira no futebol no exterior

Por Lívia Camillo (@licamillo_), do Papo de Mina (@papomina)

O sonho de jogar bola não é uma exclusividade para os meninos. No entanto, apesar de cada vez mais as mulheres demonstrarem interesse na profissionalização, as circunstâncias não são as mesmas para ambos os gêneros no “país do futebol”. Por isso, elas acabam indo procurar melhores condições e estrutura em outros lugares do mundo. Os EUA costumam ser o destino mais procurado pela facilidade em aliar estudos e esporte.

Ouça o podcast Papo de Mina #4: Por que eles querem jogar bola no exterior

Este é exatamente o caso de Joane Ribeiro, jovem de 23 anos que tentou seguir carreira no Brasil, mas acabou desistindo após várias decepções em clubes nacionais, tanto no futsal quanto no futebol de campo. Ela resolveu tentar então os EUA, e foram quase 300 inscrições até a escolha da Westcliff University, em Irvine, na Califórnia (EUA). Mas, apesar de receber bolsa de estudos, a parte financeira se tornou um empecilho. Por isso, ela criou uma F2pEWPgtbAqQ-aIqDfo6VqylXMFQ">vaquinha on-line para financiar a viagem.

“Eu trabalho num restaurante como garçonete. Está complicado, porque a minha carga horária diminuiu [em função da pandemia do novo coronavírus], então o meu salário diminuiu – e o dólar está alto. É realmente difícil, porque eu tenho muitas coisas para pagar. Universidade é sempre muito documento e muita taxa”, contou ao Papo de Mina.

“O que mais depende, agora, é questão financeira. Eu criei a vaquinha online para pagar a faculdade, pagar a minha moradia e me manter lá por um ano, porque durante um ano eu não posso trabalhar.”

Joane viveu na pele a maior dificuldade que as atletas enfrentam no país: a falta de apoio. Mesmo recebendo todo o incentivo da família para praticar futebol, as precárias estruturas para treino e os problemas financeiros impediram a sequência da carreira. Um fato que, segundo ela, se repetiu com várias pessoas próximas. Por isso, a busca pelo sonho tornou-se internacional.

“As minhas experiências aqui foram muito boas para eu ter noção do que é o futebol feminino no Brasil. Eu morei em dois alojamentos muito precários, com outras dez meninas em uma casa com um banheiro. A gente não tinha estrutura nenhuma, não tinha patrocínio, não tinha acompanhamento nutricional, não tinha fisioterapeuta… Não tinha nada”, relembrou.

“A gente vive numa sociedade muito machista, que coloca muitos obstáculos na vida de uma mulher. E o esporte, principalmente o futebol, nunca foi algo visto para as mulheres praticarem. Muito pelo contrário, a gente foi proibida de jogar futebol por muitos anos, até 1979. Isso é recente. A nossa dificuldade de conseguir destaque, de ter visibilidade, de ter apoio, é muito mais complicada.”

Intercâmbio para os EUA

Os números não mentem. De acordo com o relatório Open Doors 2019 do Institute of International Education (IIE), o Brasil é o 9° país que mais “exporta” alunos para os Estados Unidos. Atualmente, há mais de 16 mil estudantes na terra do Tio Sam (entre homens e mulheres), segundo o EducationUSA, órgão que regula o ingresso em universidades por estrangeiros. Houve um aumento de 9,8% em relação a 2018 e cerca de 1.600 atuam em equipes esportivas. Os esportes mais procurados são futebol, vôlei e tênis.

Para analisar melhor o que esses números representam para as meninas, a reportagem consultou a especialista Fernanda Luiz, que viveu por alguns anos nos EUA jogando tênis, enquanto cursava Educação Física. Em seu projeto dentro do Pelado Real, chamado My College Goal, ela busca fortalecer esta oportunidade no exterior de maneira acessível.

“Os EUA hoje são essa potência no esporte, não só no futebol [feminino], pela capacidade de unir o esporte com a formação acadêmica. Você vê a seleção americana campeã no ano passado [na Copa do Mundo Feminina], por exemplo… Cerca de 80% das atletas tiveram passagem pelas ligas universitárias”, ressaltou Fernanda.

“Uma atleta bem formada não é feita só do lado esportivo… Quando nós criamos oportunidade dessas meninas que estão aqui no Brasil estudarem nos Estados Unidos, por exemplo, estamos impulsionando-as a serem também profissionais depois [da aposentadoria no esporte]”, acrescentou.

“Padrão europeu” também atrai jogadoras

Apesar de menos cobiçada pelas jovens atletas que desejam estudar, a Europa demonstrou um avanço exponencial no futebol feminino. Inclusive a Copa do Mundo da França, em 2019, provou que o continente está evoluindo e elevando o nível técnico cada vez mais.

A experiência de Carol Loreto, ex-jogadora e atual supervisora de futebol feminino do Palmeiras, explica bem esse fato. “Recebi a proposta para ir para a Inglaterra, e em 2005 fui jogar a segunda divisão. Eu não sabia falar inglês, cheguei para jogar numa posição que não era a minha, mas fui… Na época, era surreal o meu contrato, eu tinha quatro passagens por ano para voltar para o Brasil, eu tinha bonificação, eles pagavam academia. O que as meninas vivem hoje, eu vivi há 15 anos”, relembrou em conversa com a reportagem.

E no meio de todo esse avanço, a Europa acaba atraindo muitas jogadoras estrangeiras. A Liga Feminina de Portugal é um bom exemplo, já que é uma das poucas que não possui limite máximo para a contratação de ‘gringas’ por equipe. A única restrição é ter, na ficha de jogo, um mínimo de oito jogadoras formadas localmente.

Com este cenário, o desenvolvimento do futebol feminino passa a fomentar, sim, formação de atletas, mas com alicerce na procura de talento estrangeiro. Annaysa Silva, jogadora do Flamengo, viveu bem esta filosofia no Benfica, onde atuou na temporada passada, e leva um grande aprendizado – não só técnico, mas cultural.

“O futebol feminino lá fora [na Europa] é totalmente diferente daqui do Brasil, em relação a apoio e estrutura. O principal é que os torcedores apoiam. Aqui ainda tem um certo preconceito, a cultura ainda não é tão ligada ao futebol feminino. Você vê muita gente xingando, enviando mensagens homofóbicas, de todo tipo, né? Lá fora eles estão há dez passos à frente de nós em relação ao futebol feminino”, afirmou a atacante.