Mauricio Pochettino sempre se mostrou um treinador especial. Não é apenas o talento que apresenta à beira do campo, superando muito as expectativas à frente do Tottenham. É também o seu discurso, que foge do lugar comum e apresenta uma visão genuína no futebol. Você pode não concordar sempre com o argentino, pode desconfiar de suas palavras. Mas ele continua sendo singular em sua visão de mundo. E isso novamente ficou expresso, às vésperas da final da Champions League.

Pochettino ofereceu uma grande entrevista ao jornal argentino La Nación. Falou sobre a decisão contra o Liverpool, a pressão de um jogo deste calibre, a preparação psicológica e o impacto que o resultado terá sobre seu futuro. As respostas nem sempre seguiram o roteiro que se espera. É incrível entrar na cabeça do comandante e entender um pouco como se pensa neste momento, justamente fugindo dos clichês. Abaixo, traduzimos os principais trechos:

– O estresse de uma final de Champions

“Estava brincando outro dia com Ossie Ardiles e eu lhe disse: ‘Jogaremos outra final de Champions só daqui a quatro ou cinco anos, porque esta confusão montada é um baita estresse, isso é impossível de aguentar todos os anos’. E rimos. De toda maneira, digo que aceito estar nessa situação novamente no próximo ano! Dez anos atrás, quando assumi o Espanyol, isso sim que era estresse. Cada partida valia a vida. Se não ganhava, ia ao descenso e o clube ficava na merda. Mas isso, na Champions, não é estresse, é desfrutar. É cansativo, sim, pela tensão e porque há muita cobrança, uma expectativa grande. Mas não é uma situação que gere angústia ou te faça presumir algo negativo. Não, é tudo ótimo. Ou ganhamos a Champions ou o pior é ficar em segundo. Mas quando você joga pela permanência, isso é estresse de verdade. Se isso aqui é estresse, me dê mais!”

“Nunca dormi melhor que agora. Vou para a cama, me cubro, apago a luz e, quando fecho os olhos, me vejo levantando a Champions. Durmo sonhando com essa alegria. Quando ia dormir no Espanyol, pensava nos riscos que uma derrota provocava: quantas famílias vão chorar, quantas pessoas vão perder seu emprego, que o clube pode desaparecer, que sua carreira esportiva pode acabar… Isso é angústia. Às vezes me dizem que vou perder o cabelo pela pressão de ter que ganhar, então respondo: ‘Filho de uma grande puta, sabe o que é jogar para não ser rebaixado?’ Se não perde o cabelo ali, não perde mais! Se perde, além disso, se sente culpado pela angústia dos demais. E essa responsabilidade é grande, é como carregar um peso nas costas, é mortal”

– A preparação psicológica para a final

“Diria que temos que trabalhar as emoções. Há seis anos, no Southampton, já fazíamos alguns exercícios e, na semana passada, veio ao CT um amigo, Xesco Espar, com seu grupo de treinamento mental e caminhamos sobre brasas. Já tínhamos realizado isso no Southampton. Se você vai fazer isso, vai se queimar, está claro. Mas é outra coisa, como uma indução. Funciona no nível mental. Como preparar seu corpo e sua mente para sentir que é invencível, ser proativo, cruzar os limites, elevar o limite de dor. São estratégias que demonstram que o poder está em nós mesmos. O foco da preparação tem sido mais emocional, sobretudo porque creio que em uma final como a da Champions, esse aspecto terá um papel determinante. Minha responsabilidade é buscar o espírito coletivo, que saibam que um jogador até pode ganhar uma partida, mas não uma Champions. Não há plano tático que valha sem sentir o desejo da paixão. Há que ter determinação e confiança, além de, desde já, um plano claro para a partida. Veja, as finais não se jogam, se ganham. E o controle emocional é chave para jogar a partida de clubes mais importante do mundo”

– A importância de ter salvado o Espanyol do rebaixamento

“Intimamente, mesmo se ganhar a Champions, salvar o Espanyol do rebaixamento continua sendo minha maior satisfação esportiva. Primeiro, porque aquela salvação marcou meu presente e meu futuro. Porque um treinador que começa com um rebaixamento já não é o mesmo, porque estávamos jogando com as emoções das pessoas, de um clube no qual cheguei aos 22 anos, do qual meus filhos são torcedores. Eu sentia a responsabilidade de não falhar. Estava em jogo a sobrevivência do clube e sentia sobre meus ombros. Se no sábado ganharmos a Champions, será uma das melhores coisas da minha vida, como feito é incrível. Agora, intimamente, no máximo estará à altura de ter salvado o Espanyol, mas nunca acima. Eu sinto isso e talvez nem todos compartilhem este pensamento, é muito pessoal”.

“Outro dia estive com Xesco Espar e falávamos de que todos temos três vidas – a pública, a privada e a secreta. Nesta secreta estão as coisas que sente e talvez não compartilhe com ninguém, nem com seus filhos ou sua mulher. Alguém pensará: ‘Como você vai dizer que a Champions não é melhor que salvar o Espanyol’. Eu digo que vai ser muito complicado que eu mude a forma de pensar. Ganhar uma Champions, uma Premier League ou um Mundial poderá estar no mesmo nível, mas nunca acima”

– A comemoração ensandecida em Amsterdã

“Eu precisava viver aquele momento em Amsterdã. Foi uma válvula de escape para liberar as tensões. E, depois, fica uma sensação de relaxamento, que, se não fizesse daquele jeito, talvez explodisse de outro. Foi algo necessário e espontâneo, creio que o corpo pedia fisiologicamente. Estas duas semanas e meia em que esperamos a final é o melhor período da minha carreira futebolística. Estou aproveitando a cada instante, quase rogando que não se termine o dia. Porque os jogadores estão abertos a treinar, a focalizar sua atenção, a manter a concentração. Venho fazendo reuniões frequentemente com todo o grupo e digo que, se mantivéssemos essa mentalidade por dez meses, ganharíamos a Premier League e tudo. Manter esse nível de aplicação é uma grande lição: sim, acreditamos e podemos. Mas é preciso crer. E é preciso ser exigente com você mesmo, por isso digo que não são só os de fora que nos empurram, mas os próprios jogadores tem que gerar internamente esta autodisciplina que dá a possibilidade de elevar o rendimento de maneira consistente por um longo período, não só agora”

– A progressão da carreira

“O mais bonito é que desfrutei todas as minhas etapas. Desde aqueles seis meses com o time feminino do Espanyol; as quatro, quase cinco temporadas espetaculares com o time masculino; a chegada ao Southampton, quando não sabia nem uma palavra em inglês; e agora no Tottenham. Sempre, o mais importante é o processo. Quando está subindo a montanha, deve desfrutar o caminho, porque quando você chega em cima, de alguma maneira a magia acaba. A melhor coisa é a preparação. Como essa, onde estamos desfrutando tanto que as semanas passam voando. Caso ganhemos a final, vamos comemorar levantando a taça, mas o verdadeiro prazer é preparar. Claro que para o povão, ficará se você ganhou ou não, e será julgado por isso. O mais importante é como você se julga, a sua família e as pessoas mais próximas. Chegar a uma final de Champions com um clube como o Tottenham já é algo enorme”

– O julgamento diante do resultado da final

“Não vou mudar agora. Não vai me afetar ganhar ou perder. Aconteça o que acontecer no sábado, você vai me ligar e eu vou te atender. Não vou mudar, seguirei sendo o mesmo. No outro dia disse aos jogadores e ao presidente: ‘Sim, quero ganhar este campeonato por vocês, pelo presidente que há 18 anos está fazendo um clube incrível, por nossas famílias e por todos os torcedores do Tottenham’. Se você me pergunta se eu ganharia por mim ou por eles, será por eles. E não é demagogia ou falsa modéstia. A mim, sim, ficará a satisfação, mas quando você vê a família curtir, os jogadores e os torcedores, essa é a verdadeira recompensa. Quero ganhar mais por eles do que por mim. É isso que me dá força. Eu não quero dizer depois da partida que ganhei a Champions, mas ganhamos”

– O valor de ser genuíno no futebol

“Não é uma cruzada pessoal contra a desumanização do futebol. Não quero ser Dom Quixote, nada disso. Sim, sinto a responsabilidade de ser espontâneo e me comportar naturalmente. Não sei se humanizar é a palavra correta. Temos que ser gente normal, que conduz um grupo de pessoas comuns com talento para jogar futebol – sim, o esporte mais popular do mundo. Mas eles não são apenas sua imagem pública, nem seus egos de estrela, nem podem ser intocáveis. Não. Sentimos que se pode viver de outra maneira, mas logicamente aceito aquele que não entenda assim”.

“Penso que devemos atuar espontaneamente, dizer as coisas claramente e não encenar diante dos meios de comunicação. E não vender uma imagem que não é a nossa. Muitos podem fazer isso, porque também é uma forma de mostrar força e esconder debilidades, mas para mim o mais importante é ver no jogador a pessoa normal. Quero ver gente autêntica, gente que não tenha que encenar a cada vez que saia ao campo ou a uma coletiva de imprensa. Não faço nenhuma cruzada, simplesmente trato de explicar como nós agimos”

– A projeção ao futuro do Tottenham

“Depois da Champions haverá tempo para falar sobre o futuro, mas este é um clube com potencial enorme e tenho contrato até 2024. Tenho um presidente que me adora e estou curtindo este clube. Caso ganhemos a Champions, o Tottenham se meterá em um nível diferente e esta será uma ajuda enorme para o futuro. O time ainda não está na elite, mas a prioridade nos últimos anos foi a construção do estádio, então a evolução da equipe sempre ficou para trás, nunca foi a primeira ação. Acima disso, ganhar cada partida foi nossa prioridade e alcançamos uma posição privilegiada. Novamente estar no Top Four da Premier League e chegar à final da Champions é um feito que nenhum torcedor imaginava. Olhando para frente, creio que o Tottenham tem um potencial enorme para ficar entre os melhores da Europa e, então sim, ser um competidor real nos grandes torneios”

“Enfrentamos uma temporada muito especial, porque pela primeira vez um clube não fez contratações na Inglaterra. Isso chamou muita atenção. Demorou a mudança a nosso estádio, jogamos em Wembley e até em Milton Keynes. Todas essas adversidades nos fizeram fortes, talvez a dor, um certo sofrimento, nos deixou mais fortes ainda. Acho que gostamos: quanto maior o obstáculo, mais acredito que vou superar. Quando estava no Espanyol, me perguntavam sobre jogar contra Messi e Cristiano. Sempre queria que estivessem em campo. Quero jogar contra os melhores. Se você quer crescer, tem que jogar contra os melhores. É a única maneira”