Técnico do Arsenal por 22 anos, é justo dizer que Arsène Wenger tem propriedade para falar não só sobre técnicos, mas também – e especialmente – sobre técnicos no Arsenal. E, para o francês, o clube está em boas mãos com seu ex-comandado Mikel Arteta: “Tem os ingredientes para ser um treinador do mais alto nível”.

Em entrevista à BBC, Wenger abordou diversos assuntos e, é claro, o Arsenal foi o tema mais recorrente. Questionado sobre como vê o trabalho de Mikel Arteta à frente da equipe, o francês foi assertivo e depositou sua confiança no ex-jogador que comandou no mesmo Arsenal por cinco anos, entre 2011 e 2016.

“Ele tem todos os ingredientes para ser um treinador muito bom, do mais alto nível, mas muitos dos meus ex-jogadores tinham esses ingredientes. Precisamos dar tempo a eles, deixar que façam seu trabalho da maneira como desejam”, apontou Wenger.

“Ele é inteligente, tem uma grande paixão e um caráter forte. E acredito que ele está se cercando das pessoas certas”, avaliou o ex-treinador.

Wenger não voltou mais ao Emirates Stadium desde sua saída em 2018. Para ele, foi importante manter essa distância, não emocional, mas física. “É importante que as pessoas não te vejam como uma sombra. Pode parecer que você ainda está tentando influenciar as coisas e fazer com que elas andem do seu jeito. Senti que a melhor coisa a fazer era cortar isso.” O que, é claro, não o impede de ter opiniões pessoais sobre algumas questões do clube no momento.

Para o francês, por exemplo, seria preciso encontrar um espaço para um talento como Özil no time, mesmo que o próprio Wenger reconheça que o novo estilo predominante de futebol tenha “chutado” para fora jogadores como o meia.

“Sinto que é um desperdício para ele. Primeiro, porque ele está nos anos em que um jogador de seu talento mais pode produzir. E é um desperdício para o clube também, porque ele é um super talento, um talento criativo no terço final, capaz de criar aquele passe mortal”, avaliou.

“A maneira como o futebol está indo no momento é a pressão rápida na perda da bola, transições rápidas, e todo mundo joga do mesmo jeito. Isso chutou para fora jogadores como o Özil. Mas não devemos esquecer quem esse cara é: um campeão do mundo que jogou no Real Madrid”, completou.

Por falar nos Merengues, Wenger reconheceu em outra parte da entrevista que o clube espanhol foi o que chegou mais próximo de levá-lo para longe do Arsenal ao longo das duas décadas em que serviu o time londrino. E a lista de pretendentes não foi pequena: Bayern de Munique, seleção francesa, seleção inglesa, Manchester United, Juventus, PSG, Real…

“Certamente o Real Madrid (foi o mais próximo de contratá-lo), porque você não conhece muitas pessoas que os recusaram duas vezes. E foi para ficar em uma equipe que não tinha recursos para vencer a liga. Mas eu disse a mim mesmo que, se eu fosse aceitar o desafio de treinar o Arsenal, iria até o fim. Existem tipos diferentes de treinadores. Eu fui o treinador mais longevo no Monaco e o mais longevo no Arsenal, então isso faz parte da minha personalidade”, explicou.

Se por um lado Wenger abriu mão de diferentes conquistas e novas experiências ao recusar tantos pretendentes ao longo dos anos, ao mesmo tempo desenvolveu uma relação singular com um dos mais importantes clubes do mundo. E, a julgar por suas palavras, não se arrepende nem um pouco disso.

Perguntado sobre o que significa o Arsenal para ele, respondeu: “O amor da minha vida”. “Dei 22 anos da minha vida ao clube. Construí o centro de treinamento e construí o Emirates Stadium. Suei muito para que o dinheiro do estádio fosse pago de volta e para criar uma atmosfera e uma infraestrutura que permitissem ao clube ir bem e investir no futuro. Acho que estamos em um bom caminho”.

De fato, o sacrifício de Wenger na segunda metade de sua história no Arsenal foi grande. Com o dinheiro indo para o estádio em detrimento de contratações que manteriam o clube em um alto nível competitivo, o francês teve que enfrentar o nível de cobrança de sempre, mas sem o investimento de antes. À BBC, o ex-técnico explicou por que aceitou essas condições.

“Aceitei porque achei que era um desafio. Nos dez primeiros anos, estávamos competindo pelo campeonato, mas eu sabia que os dez anos seguintes seriam mais difíceis. Acho que jogamos um futebol excelente, estivemos em condições de vencer a liga algumas vezes, mas éramos muito mais jovens (como elenco em comparação com os rivais) no geral”, ponderou.

“Talvez eu tenha ainda mais orgulho da segunda parte da minha carreira do que da primeira, porque a primeira foi fácil. A segunda foi mais difícil, e eu tive minha resiliência realmente testada. Tenho muito orgulho de ter servido ao clube durante um estágio tão delicado.”

O torcedor, é claro, dificilmente via as coisas sob essa óptica, e os últimos anos de Wenger foram marcados por campanhas para sua saída. Porém, o ex-técnico parece ver com tranquilidade aquele momento, entendendo de onde partia a frustração da torcida.

“Não acho que você deva levar muito em consideração o que um torcedor diz no calor do momento. Ele diz algo com base no momento, com base em emoções. Hoje, parece que a minoria tem uma grande ditadura. Eles ditam o que será falado, então você tem 50 pessoas nas redes sociais sendo negativas, e isso, de alguma maneira, pode atrair mais atenção do que 60 mil pessoas no estádio.”

Em meio a altos e baixos, o legado deixado por Wenger é indelével. Foram três conquistas de Premier League e sete Copas da Inglaterra, em meio a outras taças de menor importância. Foi essencial aos Gunners em um período que os catapultou à condição de um dos gigantes do futebol mundial neste século. Um salto de patamar notável. Questionado sobre como deseja ser lembrado, o francês disse: “Como alguém que serviu este clube com comprometimento, integridade e honestidade totais, alguém que amou o clube”. É justo dizer que ele conseguiu.