Um país pequeno e não tão rico ao lado de uma potência maior e mais rica. E que é sede do governo. Tudo bem, não precisa ficar argumentando muito nem recorrer a um professor de história e um de geopolítica para perceber como Gales parece apequenado ao lado da vizinha Inglaterra. Claro que isso se reflete no futebol, em que galeses como Ian Rush, Ryan Giggs ou Gareth Bale são vistos sempre como corpos estranhos e precisam responder a perguntas como “o que levou você a jogar futebol em Gales?” ou “como, sendo galês, você virou bom jogador?”.

Mas isso está mudando, e se você continua achando que o futebol galês se limita a Giggs e Bale está perdendo muita história. Nesta terça, o Cardiff City conseguiu a promoção na Championship com três rodadas de antecedência e, assegurou sua volta à elite inglesa após 51 anos. Os Bluebirds se juntarão aos vizinhos – e rivais – Swansea na primeira vez que dois clubes galeses estarão entre os grandes da Inglaterra. Um fato que pode desencadear um novo fenômeno, que deve impulsionar ainda mais o crescimento do futebol do país.

 

O bom momento em campo, além do surgimento de um ídolo local como Bale, astro com potencial para conquistar a Bola de Ouro, fez que Cardiff e Swansea atraíssem cada vez mais o interesse do público. A ponto de começar a incomodar alguns dirigentes de rúgbi union, tradicionalmente o esporte mais popular do país. O temor é que a modalidade com as mãos sofra com a visibilidade do esporte com os pés.

“É ótimo ver Swansea e Cardiff indo bem. Mas as pessoas agora falam mais sobre futebol do que sobre rúgbi. Isso certamente dificulta a situação, tentar atrair as crianças para o rúgbi”, declarou Mike Cuddy, diretor do Ospreys, maior campeão da Liga Pro 12, campeonato que envolve equipes de Gales, Escócia, Irlanda e Itália.

O reflexo desse efeito já é demonstrado nas arquibancadas. Enquanto os dois times de futebol têm médias de público de 20,5 mil pessoas, os quatro de rúgbi que disputam a Pro 12 não passam de 7,7 mil. E o peso da Premier League, obviamente, é preponderante nesta atratividade. A modesta Welsh Premier League, o Campeonato Galês de Futebol, não consegue contar com mais de 300 torcedores, em média, em seus estádios.

Fidelidade à Inglaterra proporciona o sucesso

A presença de Cardiff e Swansea entre os clubes ingleses não é novidade, nem caíram de paraquedas lá. Os Bluebirds, por exemplo, fazem parte da Football Association desde a fundação, em 1899. Eles já foram campeões da Copa da Inglaterra de 1927 e vice do Campeonato Inglês em 1923/24.  Essas duas equipes fazem parte das seis que sempre integraram as competições inglesas pelo simples fato que não havia futebol profissional em Gales. O Campeonato Galês foi criado apenas em 1992, mas não tinha atrativos financeiros para convencer os anglo-galeses a aderirem à nova liga. Agora, com os milhões da Premier League pingando agora em suas contas, o clube não deve se arrepender da escolha.

Será a primeira vez que o maior clássico de Gales  acontecerá na elite inglesa. Uma inimizade antiga, mas acirrada nos últimos anos. Em 2006, dois jogadores do Swansea hostilizaram o clube rival após conquistarem o título do Football League Trophy em Cardiff e acabaram detidos pela polícia. Uma atitude que acabou motivando brigas mais frequentes entre as torcidas.

Vincent Tan

Além disso, os confrontos entre Cardiff City e Swansea irão contrapor dois modelos de gestão completamente diferentes, depois de ambos beirarem a falência. Enquanto os Swans foram salvos por um grupo de empresários que torciam para o clube, os Bluebirds atingiram o topo graças aos milhões injetados pelo magnata malaio Vincent Tan a partir de 2009. Motivo a mais para aquecer a rivalidade.

A metamorfose na temporada do acesso

Com dinheiro em caixa, o Cardiff já tinha batido na trave nas últimas tentativas de subir à Premier League. Nas últimas três temporadas, o clube terminou a fase classificatória da Championship entre a quarta e a sexta colocação, morrendo nos playoffs que definem a terceira vaga do acesso.

Para esta temporada, a diretoria investiu € 13 milhões em contratações – terceiro maior gasto entre os clubes da segundona – e trouxe medalhões como Craig Bellamy e Heidar Helguson. Deu resultado. O acesso dos Bluebirds era previsível desde o início da campanha. O time treinado por Malky Mackay permaneceu na zona de acesso em 34 das 43 rodadas da Championship. Nesta terça-feira, confirmou a vaga com empate por 0 a 0 contra o Charlton, suficiente diante do tropeço do Watford, único capaz de estragar a festa [veja o vídeo].

Coincidentemente, a comemoração acontece em uma temporada de mudanças drásticas nos símbolos dos clubes. Vincent Tan e os investidores malaios decidiram transformar o escudo e o uniforme do Cardiff. Saíram o azul e branco tradicionais, bem como o pássaro azul do distintivo, para a entrada do vermelho e preto, além do dragão como mascote. Novidades visando atingir o mercado asiático e que não agradaram boa parte dos torcedores, mas que acabaram servindo como superstição.

O velho e o novo símbolo do Cardiff

O velho e o novo símbolo do Cardiff

A partir de agora, é possível esperar por uma continuidade do Cardiff no Campeonato Inglês – o que aconteceu nos períodos de maiores glórias do clube, em intervalos nas décadas de 1920 e 1950. Além do investimento de seus magnatas, os Bluebirds devem encher seus cofres com o polpudo acordo de TV da Premier League.  Um dinheiro muito bem-vindo se usado de maneira racional, como o Swansea tem dado exemplo nas últimas temporadas.

Se as duas equipes realmente se consolidarem na elite inglesa, a tendência é que o salto de popularidade do futebol seja ainda mais alto. A consequência, é que mais dinheiro deve jorrar nos clubes locais (talvez até pingando um pouco no Campeonato Galês) e mais jovens preferirão chutar bolas do que agarrá-las e sair correndo. Dificilmente os galeses serão uma força futebolística como são no rúgbi, mas os herdeiros de Bale não precisarão responder por que começaram e jogar futebol ou como ficaram tão bons, mesmo sendo galeses.


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