Com um pé direito calibradíssimo, Zenon marcou história por quatro clubes diferentes com exímias cobranças de faltas, lançamentos de longa distância e um domínio do campo de jogo que o coloca entre os melhores de sua época. Na faixa central, só não jogava de volante, sendo o principal armador das equipes em que passou, jogando pelo meio, ou por ambos os lados do campo. Camisa 10 do Guarani campeão brasileiro de 78 e da Democracia Corintiana no início dos anos 80, Zenon chega aos 65 anos como um dos grandes regentes do futebol brasileiro.

Nascido em Tubarão, interior de Santa Catarina, no dia 31 de março de 1954, Zenon de Souza Farias iniciou sua carreira no futebol no time da cidade, o Hercílio Luz. Em 71, buscou a sorte em Porto Alegre, mas foi rejeitado no Grêmio. Ainda jogava como ponta-direita, mas marcava poucos gols. Então teve de voltar ao banco de reservas dos juvenis do Hercílio Luz. Foi então que Zenon passou a jogar no meio de campo e encontrou seu verdadeiro espaço.

Foi descoberto pelo Avaí em 72, e já no ano seguinte foi um dos principais jogadores do título catarinense. Nessa época, ainda não usava o característico bigode, e até os longos cabelos que fizeram sucesso ainda eram constantemente aparados. Voltou a ser campeão estadual em 75 e chamou a atenção dos dirigentes do Guarani, que o levaram para Campinas em 1976, para conquistar não apenas a projeção nacional, mas marcar seu nome na história.

Logo em seu primeiro ano pelo Guarani, Zenon fez parte da equipe que foi um embrião do time que conquistaria a glória máxima dois anos depois. O Bugre liderou seu grupo no primeiro turno do Campeonato Paulista com apenas uma derrota e foi para o segundo turno com um ponto extra. Na segunda parte do campeonato, o Guarani continuou sendo um time difícil de ser batido, mas venceu apenas dois jogos e o Palmeiras terminou como campeão. A boa campanha, obviamente, gerou um desmanche na equipe, que só conseguiu se recuperar em 78.

O Bugre trouxe Capitão, destaque do XV de Piracicaba vice-campeão paulista de 76, Bozó do Atlético Mineiro, e das categorias de base, promoveu à titularidade dois jogadores irresistíveis: o meia direita Renato “Pé Murcho” e o centroavante Careca. Zenon jogava pelo lado esquerdo e completava com o volante Zé Carlos uma trinca de meio de campo que não apenas criava muitas jogadas, mas também sofria poucos gols. Zenon passou também a se preocupar mais com a parte defensiva. “Quando cheguei aqui, o Guarani preferia jogar de contra ataques. Não havia muita necessidade de eu ser um bom marcador. Atualmente, somos um time que procura marcar o adversário em cima. Se eu não marcar o adversário em meu setor, todo o nosso time vai sentir essa falha”, disse em certa entrevista à Placar.

E foi neste esquema que a equipe comandada por Carlos Alberto Silva começou a surpreender o país. Nas duas primeiras fases, o Guarani classificou jogando para o gasto. Mas na terceira fase, dominou o grupo Q, terminando avançando ao mata-mata de forma invicta, tendo vencido o Internacional em pleno Beira-Rio por 3 a 0, com um gol antológico de Zenon. Nos jogos eliminatórios, o Guarani eliminou em sequência Sport e Vasco da Gama, e na final venceu o Palmeiras pelo placar mínimo nos dois jogos da grande final.

Aos 24 anos, Zenon jogava como um veterano em uma equipe de jovens valores, com apenas Neneca e Zé Carlos com mais de 26 anos dentro do time titular. Além dos passes que dava, foi o artilheiro da equipe na campanha, ao lado de Careca, com 13 gols. Em todas as fases eliminatórias o camisa 10 participou marcando gols ou dando assistências. Na semifinal, fez um gol de falta no ângulo contra o Vasco, no Maracanã, e no primeiro jogo da final marcou o gol de pênalti que deu a vantagem ao Bugre para o jogo decisivo. “Bati a penalidade contra o Escurinho, que foi improvisado para o gol. O Leão havia sido expulso pelo Arnaldo César Coelho”, lembrou ao Portal Terceiro Tempo. Na grande decisão, suspenso por cartões amarelos, viu de fora Careca virar o herói do único campeão brasileiro vindo do interior.

Foi também em Campinas que Zenon teve transformações em sua vida fora do campo. Casou-se com Cilene, tornou-se pai de Adinam e Leonardo e se formou em Educação Física na PUC da cidade. Ainda antes de deixar o Guarani, participou das boas campanhas da equipe no Paulistão de 78 e 79, chegando nas semifinais em ambos os anos, mas que fracassou no Brasileirão, sendo eliminado com apenas três jogos disputados.

As atuações no Guarani credenciaram Zenon a vestir a camisa da Seleção Brasileira. Foram quatro partidas no ano de 79, inclusive duas válidas pela Copa América de 1979. Em 80, deixou o Bugre para uma aventura curta pelo futebol árabe, jogando pelo Al Ahli saudita.

Em 81, enfim, o dirigente Vicente Matheus, presidente do Corinthians, realizava o sonho de ter o jogador que sondava desde antes do título brasileiro pelo Guarani. O Corinthians já havia contratado Amaral, companheiro de meia cancha de Zenon em 76, na sua primeira temporada pelo time campineiro. Além disso, o Timão não tinha um armador desde a saída de Rivellino para o Fluminense.

No Corinthians, continuou apresentando o bom futebol do Guarani e foi fundamental para o bicampeonato paulista em 82 e 83. Voltou à Seleção em junho de 84, e jogou dois amistosos contra Inglaterra e Argentina. Até o fim de sua passagem pelo Timão, em 85, jogou 304 partidas e marcou 60 gols antes de ser levado pelo Atlético Mineiro.

No Mineirão, Zenon chegou no início de 1986 para ocupar a camisa 10 do Galo. O Atlético, que havia sido hexacampeão estadual entre 78 e 84 teve a sequência interrompida pelo Cruzeiro no ano anterior. Aos 32 anos, o meia também se tornou o capitão da equipe e tinha o completo respeito dos companheiros. “Costuma tocar sempre de primeira e parece um mágico nos lançamentos de 40 metros. Há alguém capaz de igualá-lo no futebol brasileiro, hoje?”, perguntou o ponta Sérgio Araújo, à revista Placar. Ao lado do companheiro Renato, faturou o bicampeonato mineiro com o time alvinegro.

Depois da passagem no Galo, Zenon passou pela Portuguesa, em 88, e em seguida teve um breve retorno ao Guarani. Ainda jogou pelo Grêmio Maringá, em 1990 e jogou por dois anos no São Bento de Sorocaba, onde encerrou sua carreira em 1992. Zenon ainda jogou por um tempo pela Seleção Brasileira de Masters, organizada por Luciano do Valle, conquistando por três vezes a extinta Copa Pelé. Em uma equipe de veteranos, enfim, Zenon apenas mostrou o talento e a maturidade que já havia desfilado pelos gramados brasileiros por quase duas décadas como um dos principais jogadores do país.