Os três títulos consecutivos na Copa Libertadores são mais que suficientes para garantir ao Estudiantes de Osvaldo Zubeldía um lugar entre os maiores esquadrões da América do Sul. Muitos questionam os métodos daqueles anos áureos dos pincharratas, seja pelo estilo de jogo pouco vistoso, seja pelas acusações constantes quanto à violência. Todavia, a força coletiva e a capacidade competitiva vista em La Plata de 1968 a 1970 é inquestionável. Permitiu ao clube, até então provinciano, se proclamar o melhor do continente. E, mais do que isso, também se dizer campeão do mundo. Nesta terça-feira, 16 de outubro, completaram-se 50 anos do Mundial Interclubes (ou Copa Intercontinental, como preferir) conquistado pelos argentinos. Vitória gigantesca sobre um Manchester United igualmente histórico, ainda que o confronto seja rondado por ares de lenda – e de maneira pouco honrosa.

Há jogos históricos cuja fama supera o que realmente aconteceu em campo. Cuja narrativa repetida e repetida cristaliza “fatos” como se fossem incontestáveis. E, assim, o Estudiantes passou a ser lembrado quase sempre como um dos campeões mais maquiavélicos que o futebol já consagrou. Verdadeiramente, um time de jogo duro e por vezes desleal. Mas que, neste episódio específico, terminou culpabilizado mais pela imprensa inglesa do que por, de fato, exagerar na deslealdade contra o Manchester United.

O Estudiantes tricampeão da Libertadores surgiu um tanto quanto ao acaso. Era um time jovem, composto em sua maioria por jogadores na casa de seus 24 anos de idade. Além disso, vários deles haviam surgido nas categorias de base pincharratas, a exemplo de Juan Ramón Verón, La Bruja, o maior talento naqueles anos gloriosos. Era o responsável por reger a equipe, além de anotar gols importantes. “Aguirre Suárez era um defensor bárbaro. Madero, ótimo. Nada passava por Malbernat. No meio, tínhamos Pachamé e Bilardo, que corriam feito loucos. Na frente, Conigliaro e Ribaudo que participavam de todas as jogadas. Não havia craque, era uma equipe muito coletiva”, avaliou Verón, em entrevista recente ao jornal La Nación. De qualquer maneira, grande parte dos méritos vão para Osvaldo Zubeldía, a mente por trás do projeto.

Atacante entre as décadas de 1940 e 1950, famoso por sua inteligência e por sua visão para ocupar os espaços, Zubeldía despontou em sua carreira de treinador à frente do Atlanta, ajudando a revelar jogadores do calibre de Hugo Gatti e Luis Artime. Já em 1965, desembarcou em La Plata com pretensões modestas, tentando tirar o Estudiantes das últimas posições do campeonato. Mesclando nomes pouco conhecidos aos seus garotos, depois de fazer uma limpa no elenco, conseguiu transformar o ambiente no clube em pouco tempo. O primeiro título se consumou em 1967, conquistando o Campeonato Metropolitano. Não apenas encerrou um jejum no clube que durava desde 1913, como também rompeu a hegemonia dos “grandes” que prevalecia desde a adoção do profissionalismo em 1931. Já no ano seguinte, deu um passo maior com a conquista de sua primeira Libertadores.

“Zubeldía era um homem muito simples e seu objetivo era trabalhar. Ele gostava muito de ensinar, de conviver e de trabalhar com os jogadores. Veio para cá com outro treinador, Argentino Geronazzo, que era um cara muito louco, nunca passava muito tempo num clube porque logo se desentendia com as pessoas. Mas quando eles chegaram, tinham um plano e já sabiam o que fazer. Nós fizemos uma pré-temporada, o que não tinha acontecido antes. Os técnicos começaram a se envolver bastante com o treinamento diário, o que não era usual até então. Quando Zubeldía chegou, nós começamos a ir para a concentração um dia antes dos jogos. Nós morávamos no centro de treinamentos. Aprendíamos as táticas no quadro-negro e as praticávamos no campo”, contou Verón, ao livro Pirâmide Invertida. “Nós éramos muito jovens e não percebemos o que estava acontecendo. As coisas começaram a crescer e um dia nos demos conta que tínhamos um grande time”.

Na Libertadores, sobrando desde a fase de grupos, o Estudiantes eliminou Independiente e Universitario no triangular que definia os semifinalistas. Depois, topou com o então campeão Racing e despachou a célebre “Equipo de José”, depois de três confrontos pegados. Por fim, a decisão aconteceu diante do Palmeiras e sua Academia. Não deu para o time de Ademir da Guia, superado pelos pincharratas no jogo-desempate em Montevidéu, após uma vitória para cada lado em seus mandos. Verón e Ribaudo anotaram os gols que, além de sacramentar o inédito título continental, também carimbaram o passaporte dos alvirrubros para encararem o Manchester United, vencedor da Copa dos Campeões em cima do Benfica.

Zubeldía possuía um estilo de jogo muito bem definido e conhecia os atalhos do campo para buscar suas vitórias. Foi um entusiasta do estudo tático, seja para desbravar melhor os adversários ou para potencializar as virtudes de sua equipe. Aquele Estudiantes costumava se defender com duas linhas agressivas e não se furtava a cometer faltas táticas para brecar os adversários. Além disso, também foi um dos precursores da linha de impedimento, uma novidade que pegava boa parte dos oponentes desprevenidos. Seu preparo físico estava à frente do tempo, o que fazia a engrenagem funcionar.

Já no ataque, aquela equipe prezava por um jogo mais direto, confiando principalmente na bola parada e nas jogadas ensaiadas para vencer. As situações de jogo eram praticadas à exaustão e os atletas possuíam uma linguagem codificada entre si, para facilitar a comunicação e ludibriar os adversários. A mentalidade de Zubeldía não era muito diferente do que se nota em alguns técnicos atuais. Contudo, costumava ser bastante criticado pelo “antifúbol” que promovia. Mas, em partes, não deixou de ser um visionário ao promover aquilo que se tornou tendência – influenciando em especial a Argentina campeã do mundo em 1986, sob as ordens do pupilo Bilardo.

“O Estudiantes apresenta um tipo de futebol produzido durante uma semana de trabalho duro em laboratório, que explode no sétimo dia com a efetividade que o consagra na tabela de classificação. Porque o Estudiantes continua a fabricar pontos como fabrica futebol: com mais trabalho que futebol, os pincharratas seguem vencendo”, definiu Jorge Ventura, à revista El Gráfico. O que complementava o lendário colunista Juvenal, à mesma publicação, após o título de 1967: “Uma nova mentalidade disseminada por gente jovem, forte, dinâmica, disciplinada, vigorosa, espirituosa e fisicamente apta. Está claro que o Estudiantes não inventou nada. Eles seguiram o caminho traçado pelo Racing. O Estudiantes derrotou as próprias convicções e limitações como um time ultradefensivo que destruía os rivais. O Estudiantes derrotou a intoxicação de uma semana única em sua história, revelando seu atributo mais exemplar no momento da vitória: a humildade”. Naquele instante, o clube se tornava querido em todo o país pela surpresa que provocava, rompendo o domínio de Buenos Aires e Avellaneda.

De certa maneira, o Estudiantes de Zubeldía se inseria em um contexto de repensar o jogo na Argentina, algo intensificado especialmente depois da péssima campanha na Copa do Mundo de 1958. Havia uma priorização da organização coletiva, acima do improviso e do talento. E isso acabava talhado não apenas pela dedicação dos jogadores, mas também pela postura do treinador. Sem grandes pressões em um clube até então considerado pequeno, conseguiu estabelecer suas bases até atingir o ápice no final da década de 1960.

E as estratégias, afinal, iam além das quatro linhas. Há diversas acusações sobre o jogo violento do Estudiantes, algo que fica difícil de mensurar, em tempos de disputas bem mais agressivas dentro de campo e de excesso de força pouco coibido. Bilardo era acusado de entrar em campo com um alfinete para espetar adversários, embora os pincharratas neguem. Em compensação, o próprio Verón admitia que o clube descobria detalhes da vida pessoal dos adversários para entrar em suas mentes. O “trash talk” sistematizado, para descontrolar quem estava do outro lado e, quem sabe, até mesmo conseguir alguma expulsão. Não havia escrúpulos na hora de provocar, fazendo troça inclusive com a saúde dos familiares dos oponentes.

Se a rispidez do Estudiantes era um problema, sobretudo aos adversários, não era isso que diminuía a eficiência e a solidez da equipe de Zubeldía. Por isso mesmo, esperava-se um confronto complicado contra o Manchester United. Os Red Devils viviam um momento de redenção, ao conquistarem a Copa dos Campeões dez anos depois do desastre aéreo de Munique. O milagre contava com alguns sobreviventes da tragédia, a exemplo do próprio Sir Matt Busby. O treinador dirigia uma equipe igualmente bem montada, de bastante combatividade atrás, mas também talentos inegáveis para resolver os jogos no ataque. Foi isso que encaminhou o título continental. Bobby Charlton era uma referência, Denis Law acumulava gols e George Best voava baixo pela ponta esquerda. Diante da fama exacerbada dos oponentes, Zubeldía declarou: “Não creio que seja tão fácil para eles. Até o que pude investigar, são seres humanos, como a gente”.

Além disso, havia uma certa preocupação com a própria violência. O estopim da animosidade entre britânicos e argentinos ocorreu durante as quartas de final da Copa do Mundo de 1966. A partida extremamente pegada foi determinada pela expulsão de Antonio Ubaldo Rattin, que saiu de campo irritado com a decisão de arbitragem e desdenhou da bandeira do Reino Unido ao seguir para os vestiários. Depois, o técnico Alf Ramsey chamaria os albicelestes de “animais”, em ofensa que não havia cicatrizado. Meses depois, as impressões ruins se reafirmariam durante a decisão do Mundial entre Celtic e Racing, na qual as trocas de pancadas e as brigas rolaram soltas, principalmente no jogo-desempate em Montevidéu. Assim, o clima bélico aguardava Estudiantes e Manchester United muito antes que as equipes se encontrassem.

Apesar dos temores, os jogadores ingleses foram recebidos calorosamente ao desembarcarem na Argentina, para o primeiro jogo. Festas e outros eventos foram realizados para tentar quebrar o gelo e estabelecer uma boa relação. Contudo, a ausência do Estudiantes em um jantar organizado pelo Manchester United provocou os primeiros atritos com Matt Busby. Em 25 de setembro de 1968, ocorreu a partida de ida. Mais de 66 mil torcedores estiveram presentes na Bombonera, palco da decisão.

O embate deixou a desejar. O Manchester United adotou uma postura extremamente defensiva, tentando levar a igualdade para casa. Foi uma partida tão ruim dos Red Devils que os jogadores argentinos chegaram a pensar que eles estavam escondendo algo para o reencontro na Inglaterra. Assim, o Estudiantes dominou as ações ofensivas e construiu a vitória por 1 a 0, com gol anotado por Marcos Conigliaro. Após escanteio cobrado por Felipe Ribaudo, o camisa 10 apareceu na área para cabecear e correr para o abraço. Além disso, dez minutos depois, David Sadler chegou a ter um gol anulado por impedimento – inicialmente reclamado pelos mancunianos, que depois admitiram a irregularidade na obstrução de Bill Foulkes ao goleiro Alberto José Poletti.

Prevaleceu a marcação firme dos anfitriões, anulando os principais destaques adversários. Defensivamente, Oscar Malbernat e Néstor Togneri estiveram entre os mais elogiados – este último, anulando Bobby Charlton. Além disso, ficava a decepção por aquilo que os mancunianos não mostraram, abaixo de outros campeões europeus que participaram do Mundial até então. A linha de impedimento dos argentinos se tornou uma enorme armadilha, atrapalhando recorrentemente as investidas dos visitantes, especialmente na segunda etapa.

Já os relatos sobre a violência ocorrida em campo diferem bastante. Na Inglaterra, os tabloides carregaram de tinta os seus relatos, criticando da “gritaria selvagem da torcida” à violência coletiva praticada pelo Estudiantes. As avarias apontadas seriam várias: Law reclamou de um puxão de cabelo, Best teria levado um soco no estômago, Bobby Charlton tomou pontos na perna. “O caminho para o sucesso do Estudiantes: intimidar e destruir”, alardeava o Guardian.

O principal personagem, de qualquer maneira, era Nobby Stiles. O meio-campista da seleção inglesa fazia o time funcionar ao redor de seu jogo, mas também não economizava na pancada – a ponto de ser chamado pelo consagrado Otto Glória de “assassino”, além de “brutal, mal intencionado e mau esportista”. Antes do duelo na Bombonera, a fama ruim do adversário se reproduziu até mesmo no programa da partida. Stiles seria o principal alvo da provocação e da perseguição pincharrata, a ponto de Bilardo tentar tirar sua lente de contato. Tomou um rodízio de safanões, incluindo uma cabeçada. Todavia, terminou a partida expulso ao fazer gestos ofensivos ao bandeira.

No entanto, o sensacionalismo que prevaleceu na mídia britânica não se reproduziu na imprensa argentina ou mesmo nas falas de alguns personagens. Conforme muito bem levantado pelo amigo Caio Brandão, em especial no Futebol Portenho, a revista El Gráfico descrevia: “Houve patadas. Como em qualquer encontro. Mas fazer da violência o tema central do jogo é ridículo e falso. […] O curioso de tudo isso é que os dirigentes e jogadores amenizaram suas declarações, reconheceram que o público foi excepcionalmente tranquilo e que no campo, a não ser a guerrilha Bilardo-Stiles, foi um trâmite duro e nada mais. […] As conversas depois do jogo continham, naturalmente, algumas frases de inconformismo, mas quando se perguntava se os membros do Manchester United concordavam com as apreciações dos enviados do jornalismo [britânico], negaram com bastante firmeza. O mesmo sucedeu com outros dirigentes e com jornalistas estrangeiros não-ingleses”. O próprio presidente dos Red Devils, Louis Edwards, elogiou o esforço argentino para recepcioná-los.

A postura da imprensa inglesa incomodou os argentinos, que chegaram a enviar uma reclamação formal a Sir Stanley Rous, então presidente da Fifa. O problema é que a narrativa já estava formada e o Estudiantes não encontrou a mesma hospitalidade ao desembarcar na Grã-Bretanha. Havia um desejo enorme de revanche entre os anfitriões. A solução encontrada pelos pincharratas foi se refugiar em uma região bucólica nos arredores de Manchester, o que garantiu tranquilidade, apesar de uma vidraça quebrada às vésperas do segundo jogo do Mundial.

Em 16 de outubro de 1968, as duas equipes voltaram a campo em Old Trafford. Cerca de 300 torcedores argentinos fizeram a viagem para apoiar o Estudiantes. Em compensação, a maioria absoluta dos 63 mil presentes nas arquibancadas desejava uma resposta categórica do Manchester United e esperava uma vitória imponente. O duelo significou o recorde de arrecadação com bilheterias na Inglaterra até então. Milhares e milhares de torcedores aguentaram a forte chuva durante horas, formando filas ao redor do estádio antes que a peleja começasse. Por conta do aguaceiro naquele dia, o gramado estava bastante pesado, algo que favorecia o estilo de jogo dos argentinos. Uma hora antes do pontapé inicial, para sentir a atmosfera, os jogadores pincharratas pisaram em campo. Com os refletores apagados, os presentes demoraram a percebê-los, mas logo dedicaram gritos de “animals” e “Stiles”. Era a tônica da batalha.

O Manchester United começou a partida pressionando e arriscando bastante a gol. O objetivo do Estudiantes era administrar a vantagem e, para isso, contou com uma atuação inspirada do goleiro Poletti para conter a pressão. Logo também surgiriam as primeiras faíscas, com pontapés de ambos os lados. E a chave para a conquista dos argentinos aconteceu aos seis minutos, a partir das bem planejadas bolas paradas de Zubeldía. Em uma cobrança de falta na ponta esquerda da área, a movimentação dos jogadores pincharratas puxou a marcação para o primeiro pau. Então, Verón apareceu com liberdade no segundo e desferiu uma cabeçada cruzada, sem chances de defesa para o goleiro Alex Stepney. A folga no placar agregado deixou o confronto nas mãos dos visitantes.

A partir de então, o sistema defensivo do Estudiantes prevaleceu. O Manchester United levava perigo, tentando abafar em seu campo de ataque. Via os pincharratas se safarem, ao bloquearem os chutes de longe e afastarem os cruzamentos como podiam. Além disso, Poletti seguia intransponível sob os postes, com defesas fundamentais diante de Best e Bobby Charlton. Como se não bastasse o mau momento dos Red Devils, Law precisou ser substituído ao se lesionar depois de um choque com o arqueiro. Além disso, Conigliaro quase ampliou aos forasteiros, carimbando o travessão.

“Quando desceram ao vestiário, estavam serenos. Ali eu me dei conta que ganharíamos. Porque se havia ansiedade, estavam concentrados. Por isso falei pouco, fundamentalmente usamos o descanso para que se recuperassem, apenas refrescando alguns conceitos. Quando faltavam dois minutos para voltarem a campo, parei e recordei os milhares de torcedores que estavam esperando a façanha e também aqueles que viajaram gastando todo o dinheiro que tinham. Saíram como leões, só um milagre iria permitir que os ingleses nos tirassem o que já estávamos ganhando”, apontou Zubeldía.

Precisando de dois gols para ao menos forçar o terceiro encontro na Holanda, o Manchester United também esbarrou no travessão durante o início da segunda etapa, em arremate de Brian Kidd. Enquanto os ingleses se postavam no ataque, o Estudiantes levava perigo em seus contragolpes. Neste momento, a animosidade começava a florescer. José Hugo Medina e Willie Morgan se estranharam, com o escocês acertando o cotovelo no rosto do argentino, que logo depois o agarrou pela camisa e o jogou no chão. Apesar disso, o árbitro iugoslavo Konstantin Zecevic deixou o imbróglio passar.

A confusão só tomaria o gramado aos 44, quando Best perdeu a linha. Empurrou Toneri e acertou um soco no rosto de Medina. O norte-irlandês seria expulso ao lado deste último, em quem cuspiu, antes de serem escoltados até os vestiários. A torcida nas arquibancadas atirava moedas contra os visitantes. Por fim, os Red Devils até arrancaram o empate. No último minuto, Morgan finalmente venceu Poletti. Nada suficiente para evitar a conquista dos pincharratas. Ainda houve um tento de Brian Kidd invalidado nos acréscimos, em lance no qual as redes balançaram apenas depois que o apito final já havia soado. O Estudiantes se sagrava campeão do mundo.

Em meio às vaias, os argentinos comemoram o seu título. Também não contaram com o espírito esportivo do Manchester United, que se recusou a trocar camisas. A volta olímpica aconteceu na volta para casa, já que uma chuva de objetos atirados pelos ingleses impediu o ato glorioso em Old Trafford. Pouco importava. “Os argentinos deveriam ser banidos de todas as competições”, avaliou o até então polido Matt Busby. No dia seguinte, a capa do Daily Mirror estampava: “A noite em que cuspiram no espírito esportivo”.

O carinho aos jogadores ficou guardado para o retorno à Argentina. Na recepção, milhares de compatriotas lotaram as ruas desde o aeroporto de Ezeiza até La Plata, acompanhando todo o trajeto do ônibus que levava o elenco. “Isso é magnífico. Ganhar na Inglaterra é incrível. Sabíamos que deveríamos lutar contra muitas coisas. A imprensa criou um clima muito duro, a arbitragem foi péssima e o público nos pressionou. Esta equipe mostrou sua verdadeira firmeza e provou que seus homens são capazes de qualquer façanha”, avaliou La Bruja Verón, depois do encontro.

A frase mais marcante sobre este Estudiante, no entanto, teria sido cunhada pelo próprio Osvaldo Zubeldia: “Você não alcança a glória por um caminho de rosas”. As glórias continuariam ao Estudiantes, mas cada vez mais repletas de espinhos. A eficiência da equipe se perdeu por uma violência realmente evidente, que chegou ao ápice com as agressões sobre o Milan na final do Mundial de 1969. O tricampeonato da Libertadores se consumou em 1970, mesmo ano em que perderam a taça intercontinental novamente, encarando o Feyenoord. E o conceito sobre a equipe também se transformava, sobretudo pelo novo contexto no futebol argentino, clamando pela redescoberta do talento depois que a rigidez não adiantou para evitar a queda nas eliminatórias da Copa de 1970.

Controverso, aquele Estudiantes segue com seu lugar na história, mesmo que se questionem os fatos ao seu redor. E, 50 anos depois, parte dos heróis do Mundial foram recebidos em Old Trafford. Antigo jogador do Manchester United, Pat Crerand serviu de anfitrião e esqueceu as mágoas do passado. Ou quase. Durante o evento, La Bruja Verón questionou o escocês (que, na época, havia chamado os pincharratas de “time mais sujo que já enfrentei”) sobre um pontapé que tomou quando tentava dar a volta olímpica. Sobraram as risadas. O passado não se muda. E por mais que possa ser escrito de diferentes maneiras, a taça nunca sairá de seu museu em La Plata.

Para complementar a leitura, vale conferir também o especial do Futebol Portenho, discutindo principalmente a visão sobre a violência no jogo, e a matéria da época republicada pela El Gráfico.