O grande debate após a convocação da Copa do Mundo de 2002 se concentrou sobre a ausência de Romário, preferência de muita gente no país. Outros craques também acabaram excluídos da lista de Felipão, motivos conhecidos ou não, a exemplo de Djalminha e Alex. Porém, uma das lacunas mais contestáveis nem sempre acaba mencionada. Juan tinha apenas 23 anos na época. Vinha sendo convocado com frequência desde a chegada do treinador em 2001 e foi titular em partidas decisivas pelas Eliminatórias. Parecia um nome certo ao presente e ao futuro da Seleção. Até que a surpresa acontecesse: Anderson Polga, testado nos amistosos preparatórios, tomou a vaga e o número de zagueiros foi reduzido para dar mais opções ao meio-campo. O rubro-negro acabaria vendo o Mundial de casa, antes de deslanchar na carreira internacional.

O destino de ambos todos sabem como se deu. Anderson Polga até construiu uma trajetória digna no Sporting, mas nunca mais foi chamado pelo Brasil depois de 2003. Juan, por sua vez, virou um zagueiro de reputação respeitada na Alemanha e na Itália, além de se consagrar como um dos melhores defensores da seleção brasileira nas últimas décadas. Foi titular em duas Copas do Mundo e jogou em alto nível nas duas. Completou 79 partidas na equipe nacional, terceira maior marca entre os jogadores de sua posição – abaixo apenas de Lúcio e Aldair, com Thiago Silva no encalço. Ficaria marcado por sua segurança e por sua técnica. Mas a belíssima carreira ficaria com essa lacuna em 2002, que poderia tornar o carioca ainda maior à história da equipe nacional. Não é isso, todavia, que diminui sua importância. E, no dia em que completa 40 anos, o veterano merece as justas reverências.

A Seleção é apenas uma parte da carreira de Juan, a mais evidente. A importância com a camisa amarela se confirmou mesmo nos tempos de Carlos Alberto Parreira, com menção especial à Copa América de 2004. Ao lado de Luisão, o zagueiro fez uma baita participação na campanha. E daria sua contribuição decisiva com sangue frio, convertendo o pênalti que garantiu o título na elétrica final contra a Argentina. A partir de então, seria uma das certezas na preparação à Copa do Mundo. O sereno camisa 4 era o complemento perfeito à explosividade de Lúcio, em firme dupla no Mundial de 2006. Manteriam-se também como esteios de Dunga, rumo ao Mundial de 2010. A dolorosa derrota para a Holanda marcou justamente seu 79° e último jogo pela Canarinho.

Muito antes disso, Juan se colocava como uma das maiores promessas da posição. O garoto do Humaitá, saído de uma família de classe média, se aprimorou no futsal e logo ganhou espaço no Flamengo, a partir dos 11 anos. Defender o clube de coração, do ídolo Zico, era uma motivação a mais. O meio-campista precisou ser improvisado na zaga e por lá ficou. Ao lado do inseparável amigo Júlio César, logo começou a integrar as seleções de base. Disputou os Mundiais Sub-17 e Sub-20. Ascensão que renderia frutos na Gávea, com o beque acumulando seus primeiros jogos com os profissionais desde os 17 anos. Foi parte importante de uma série de conquistas do Fla. Esteve presente no tricampeonato do Carioca e na Copa dos Campeões de 2001. Ainda assim, a lembrança mais viva é na Mercosul de 1999, anotando até gol na final contra o Palmeiras.

A Copa do Mundo de 2002 não veio, mas aquele ano marcou a transferência de Juan à Europa. Contratado pelo Bayer Leverkusen, então potência na Alemanha, virou titular logo na primeira temporada. Em seu ano inicial, jogou mais vezes que o próprio Lúcio, com quem começava a formar uma dupla azeitada. O problema é que, depois de vender muitos de seus destaques, os Aspirinas lutaram contra o rebaixamento. A recuperação seria gradual nos anos seguintes, mesmo sem repetir o sucesso de 2001/02. O carioca permaneceu liderando o sistema defensivo por cinco anos, sempre como titular. Superou os 100 jogos pela Bundesliga e seria até mesmo eleito para a seleção do campeonato, tamanha qualidade de seu jogo.

Juan foi convocado à Copa de 2006 como jogador do Leverkusen e, uma temporada depois, chegou à Roma para reforçar uma equipe bastante competitiva na época. A contratação do zagueiro parecia o elo com um brasileiro lendário do Calcio: Aldair, também um prata da casa rubro-negro e extremamente técnico, que se colocou entre os maiores ídolos da história giallorossa. Se esteve distante de alcançar o patamar do “Pluto”, o seu herdeiro teve quatro boas temporadas na Serie A. Chegou a ser vice-campeão nacional, além de manter seu estilo preciso a serviço dos romanistas. Teve também momentos questionáveis, é verdade, e os problemas físicos minaram o seu espaço. Mas deixou seu nome marcado como um atleta eficiente e querido, superando também as 100 aparições pela Serie A.

O retorno ao Brasil aconteceu através do Internacional, que abriu as portas ao zagueiraço. Oscilou no Beira-Rio novamente pelas constantes contusões. As pernas começavam a pesar e o que sobressaía mesmo era a elegância enorme. Deixou uma impressão de que poderia mais no Rio Grande do Sul, embora seu destino natural fosse mesmo o retorno ao Flamengo, concretizado em 2016. Ainda lutando contra seu próprio corpo, o veterano arrebentou em sua maior sequência saudável, em 2017. Apesar de todos os problemas da equipe, fez algumas partidas excelentes nas campanhas à final da Copa do Brasil e da Copa Sul-Americana. Uma pena que 2018 tenha se marcado por outra lesão séria, desta vez no tendão de Aquiles. O que parecia ser o ano de sua aposentadoria foi prorrogado para um adeus menos melancólico em 2019.

Sério, Juan não nunca foi uma liderança no grito. Sua influência na cancha é através da bola. Em seu auge na década passada, aliava a leitura de jogo à velocidade e à explosão. Ainda assim, o refinamento sempre foi seu maior trunfo. Os desarmes precisos, a saída de bola segura, o estilo limpo e de cabeça erguida. Além do mais, o jogo aéreo não só era uma garantia na defesa, como também rendeu frequentes gols no ataque. Foram sete pela Seleção, afinal, média considerável para alguém de sua posição. Contam-se nos dedos de uma mão os zagueiros brasileiros neste século que foram tão técnicos quanto ele.

E o que faz Juan ser um personagem tão respeitado, acima da admiração que sua qualidade exerce, é a personalidade. Um jogador que nunca se envolveu em grandes polêmicas e cumpriu seu trabalho com correção. Não à toa, costuma receber aplausos independentemente da camisa que veste, inclusive de torcedores rivais. É o legado de quem fez por merecer as duas Copas do Mundo de sua carreira – e poderia até mais.